Florestan e a mulher, Myrian, quando eram namorados nos anos 1940. Foto: acervo pessoal

Florestan Fernandes, 100 anos: autorretrato do sociólogo quando jovem

23 de julho de 2020, 21:12

Em janeiro de 1995, quando Fernando Henrique Cardoso assumiu a presidência, sugeri à Folha de S.Paulo que entrevistássemos o deputado federal petista Florestan Fernandes sobre o ex-aluno. O sociólogo havia sido professor de FHC na USP, e eu fui até o gabinete dele na Câmara, confesso, com más intenções: queria arrancar críticas do mestre sobre o pupilo. Era seu último mês como parlamentar, após dois mandatos.

Mas Florestan, cavalheiríssimo, foi generoso com o tucano e o poupou de qualquer ataque. Ao mesmo tempo, me presenteou com quatro horas deliciosas de conversa, onde me contou toda a vida, desde a infância. Publiquei a entrevista sobre FHC no jornal e, em agosto daquele ano, quando o sociólogo morreu, tive a honra de devolver sua gentileza publicando outro texto em sua homenagem, com o relato que fez da infância e adolescência.

Na semana em que Florestan Fernandes faria 100 anos, completados na quarta-feira, 22 de julho, republico aqui suas memórias.


Ex-deputado virou sociólogo por acaso*

Florestan Fernandes era um self-made-man do meio intelectual. A incrível trajetória pessoal do sociólogo, filho de doméstica, daria, por si só, um tratado acadêmico. Em janeiro, uma semana antes de deixar o Congresso, ele recebeu a Folha em seu gabinete para uma entrevista. Leia a seguir trechos em que fala sobre sua juventude.

A ORIGEM
“Eu era parte de uma família portuguesa, de origem camponesa e culturalmente atrasada, que veio se urbanizar no Brasil. Meu avô morreu de tuberculose e a família se desagregou. Minha mãe veio para a cidade e a única coisa que ela estava habilitada a fazer era trabalhar como doméstica.”

Com seis anos comecei a trabalhar. Trabalhei como engraxate, auxiliar de marceneiro. Trabalhei como alfaiate, mas era um trabalho penoso e que não enriquece o ser humano. Fui trabalhar em um restaurante, na copa, e de noite havia fregueses que não comiam a comida de lá se eu não fizesse

A INFÂNCIA
“Com seis anos comecei a trabalhar. Trabalhei como engraxate, fui auxiliar de marceneiro. Me senti muito à vontade como carpinteiro numa pequena indústria. Não tinha atividade imperativa, era parte da máquina. Trabalhei como alfaiate, mas era um trabalho penoso e que não enriquece o ser humano. Fui trabalhar em um restaurante, na copa, e de noite havia fregueses que não comiam a comida de lá se eu não fizesse.”

A MADUREZA
“Em cima do bar se instalou um curso de madureza chamado Riachuelo. Foi difícil conseguir autorização do bar para sair três vezes por semana para fazer o tiro-de-guerra, na hora de maior movimento. Mas como era bom profissional, eles me deram. No curso, eu e meu grupo fundamos uma pequena academia, tínhamos discussões, um jornalzinho.”

O GINÁSIO
“O curso de madureza permitia que se fizesse cinco anos em três, e dava o direito de fazer o exame no ginásio oficial, que tinha cinco anos, incluindo o latim. Fizemos os três anos e fomos fazer o exame no ginásio estadual de São João de Boa Vista. Mas, infelizmente, um outro curso ofereceu uma quantia compensadora para os professores do ginásio se tolerassem as deficiências de um grupo de alunos. Eles ficaram revoltados e o resultado é que houve um exame muito rigoroso. Perdemos quatro colegas que em outras ocasiões não perderíamos, e por isso os dois anos seguintes foram fáceis, porque éramos tidos como gênios.”

NA UNIVERSIDADE
“Terminado o curso, eu poderia ir para o colégio da universidade, que funcionava na própria universidade, ou fazer o concurso para entrar direto. Por modéstia, concorri aos dois. Nos exames de habilitação quem me examinou, só para ter uma idéia do que era a Faculdade de Filosofia, foram os dois Bastide, o Roger e o Paul (sociólogos franceses). O livro que eles nos deram foi A Divisão do Trabalho Social, de Durkheim, que até hoje os estudantes têm medo na pós-graduação. Eram 30 vagas, 29 candidatos e seis aprovados. Eu fiquei em quinto.”

DENTADURAS E LIVROS
“Neste ínterim, havia o problema de como me manter. Acabei indo trabalhar na American Dental Company, cujo dono era jovem, meu amigo. Nós vendíamos um produto para fazer dentaduras, e ganhávamos um dinheirão com isso. Ele por ser bonito, e eu, pelos livros. Lia muitos romances, e emprestava para as enfermeiras.”

Ser estudante e colaborar com jornais era uma projeção que você não pode avaliar. Quando Oswald de Andrade me encontrou pela primeira vez fez uma brincadeira meio estúpida. Disse: ‘Você é o Florestan Fernandes? Pensava que fosse um velho maluco’

SOCIÓLOGO POR ACASO
“Cheguei a querer fazer engenharia química, mas acabei caindo em um curso que por acaso correspondia à minha vocação. Tanto correspondia que no primeiro ano tive que fazer uma pesquisa, na cadeira do professor Roger Bastide, sobre folclore. Era minha cultura de origem, então sabia onde colher o material. Combinei a análise folclorista à sociológica, um trabalho enorme. Ele ficou encantado.”

FLORESTAN E OSWALD
“Fui convidado a colaborar com jornais. Na Folha, fiz três artigos sobre a representação do negro na cultura popular, e comentários que foram variando com o tempo. Ser estudante e colaborar com jornais era uma projeção que você não pode avaliar. Tanto que quando Oswald de Andrade me encontrou pela primeira vez fez uma brincadeira meio estúpida. Disse: ‘Você é o Florestan Fernandes? Pensava que fosse um velho maluco’.”

Texto originalmente publicado na Folha de S.Paulo em agosto de 1995

Escrito por:

Cynara Menezes é baiana de Ipiaú e tem 53 anos. Formou-se em jornalismo pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) em 1987. Desde então, percorreu as redações de vários veículos de imprensa, a começar pelo extinto Jornal da Bahia: Jornal de Brasília, Folha de S.Paulo, Estadão, revistas IstoÉ/Senhor, Veja, Vip, Carta Capital e Caros Amigos. Atualmente se dedica com exclusividade a seu site Socialista Morena. É autora dos livros Zen Socialismo (os melhores posts do blog Socialista Morena), pela Geração Editorial, O Que É Ser Arquiteto, com João (Lelé) Filgueiras, e O Que É Ser Geógrafo, com Aziz Ab’Saber, os dois últimos pela editora Record.

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