O plebiscito que sepulta o fascismo chileno

25 de outubro de 2020, 12:58

Bolsonaro sonha com o comando de uma polícia militar política fiel e violenta que tenha os carabineiros chilenos como modelo. Os carabineiros ajudaram a derrubar Salvador Allende em 1973 e são até hoje a cara da violência visível do fascismo no Chile. São os milicianos a serviço dos controles do Estado, no contexto do muito que ainda resta do pinochetismo.

A polícia que se impõe nas ruas como incontrolável, quase sempre nos governos de direita (como é agora o de Sebastián Piñera), mas também nos de esquerda, será triturada a partir do plebiscito desse domingo.

Hoje os chilenos vão dizer que desejam finalmente uma nova Constituição para o país. E a partir daí, com regras a serem ainda definidas, farão o que o Brasil fez em 1988, quando se livrou da ditatura e criou as bases para uma democracia com direitos que o bolsonarismo ameaça todos os dias.

O enquadramento dos carabineiros, que perderão força com a nova Constituição (se não forem extintos), tem grande significado num país em que mais de 400 jovens tiveram a visão mutilada, com a perda de pelo menos um olho, pelos tiros de balas de borracha dos robocops de Piñera.

Alguns meses depois de deflagrada a repressão aos manifestantes, em outubro, reações políticas determinaram que os soldados poderiam continuar batendo nos estudantes, mas não atirando com as balas de ‘efeito moral’. Foi o controle possível dos carabineiros que ninguém controla.

O plebiscito de hoje não aconteceria sem os jovens que Piñera mandou reprimir nas ruas de qualquer jeito. O Chile construiu, com ações coletivas de massa, como as ocupações de escolas, depois copiadas por estudantes de países como o Brasil, a pressão que levou ao plebiscito.

A situação vivida hoje seria inimaginável sem a força dos jovens. Partidos e organizações não teriam sido suficientemente fortes para provocar a consulta que levará a uma nova Constituição. As ruas derrotaram a direita chilena.

Pretende-se que o novo Chile, com o fim das leis que vigoram desde a ditadura, seja um país menos egoísta, com uma base de direitos sociais que nunca teve, com ensino universitário público ou algum suporte do Estado, com uma nova previdência e com acesso à saúde que talvez copie o modelo brasileiro do SUS e com o fortalecimento de conquistas de mulheres e dos índios.

Eles tentarão andar pra frente em relação a questões que no Brasil o bolsonarismo empurra pra trás.

A grande conquista será a prova de que instituições formais não dão conta da democracia sem a pressão das ruas. A democracia só irá sobreviver com a força ostensiva de quem se manifesta para muito além das realidades virtuais.

Mas é a política da representação, a que se expressa num parlamento, que irá viabilizar demandas, desejos e sonhos dos chilenos. Não há outra saída.

Todas as lutas, e mesmo ou principalmente as identitárias, não terão sentido se não conseguirem se expressar nos espaços institucionais para exposição de conflitos e convergências e construção de consensos, sempre pelo voto.

Pela democracia, que ainda não acabou, os jovens estão formulando o que seria o novo Chile. Um país que limitará o poder da repressão da polícia política e colocará a extrema direita num canto da História.

O processo da Constituinte chilena também criará o ambiente propício para que os chilenos se livrem do ultraconservadorismo disfarçado de liberalismo nas eleições de 2021.

O bolsonarismo, cada vez mais isolado no Continente, irá perder mais uma, desta vez no Chile que Paulo Guedes vendia como modelo. Ao final da Constituinte, no início de 2022, esse Chile pinochetista, visto como exemplo de um neoliberalismo caduco, não existirá mais.

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A MORTE DO TORTURADOR

Morreu um dos mais famosos torturadores uruguaios. O policial Hugo Guillén, acusado de crimes de lesa humanidade, matou-se ontem em Montevidéu. É também um arquivo que desaparece.

Guillén era um dos chefes e torturadores do centro clandestino Los Vagones, de Canelones, um dos locais para onde a ditadura levava seus inimigos e de onde muitos desapareceram.

Estava em prisão preventiva, com mais dois policiais processados por torturas no mesmo local, Winston Vitale e Alejandro Ferreira. Guillén havia conseguido prisão domiciliar em março. Matou-se aos 80 anos.

Poucos, além dos comparsas, conheciam a cara do torturador. Não há muitas fotos do policial vivo e não se sabe como ele morreu.

Guillén leva junto informações decisivas para que outros criminosos da ditadura sejam identificados.

No Uruguai, ao contrário do Brasil, o Ministério Público consegue levar adiante as investigações contra torturadores, mesmo que a Suprema Corte conspire contra esse esforço por justiça.

O argumento do MP é o de que são crimes imprescritíveis e não ‘protegidos’ pela anistia que eles também tiveram.

Os criminosos até podem escapar, com o conluio do Supremo deles, mas o desgaste pessoal que enfrentam é massacrante.

O deputado Carlos Testa, do partido Cabildo Abierto, de extrema direita, publicou no Twitter:

“Era um homem gentil, culto e amável. Ao despedir-se, quis ficar de pé, como se despedem os cavaleiros, e assim o fez”.

Mas Testa é um deputado sem expressão, não é o vice-presidente do Uruguai elogiando um torturador.

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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