Witzel e Bolsonaro, quando ainda eram aliados. Foto: Fotos Públicas

A ação da Justiça no RJ e a pergunta que não quer calar. Nem deve

28 de agosto de 2020, 15:23

Não se trata de defender o governador do Rio de Janeiro, muito pelo contrário. Pelo conjunto da obra, o Dr. Wilson Witzel não faz jus a qualquer tipo de defesa. Nunca teve nada de democrático, passa ao largo de questões como liberdade de expressão e direitos humanos, assim como como está muito longo de ser incluído em qualquer rol de governantes progressistas e que têm foco nos interesses populares. Além do que, a ação atinge figurinhas carimbadas e suspeitas como o pastor Everaldo, presidente do PSC e padrinho de batismo do presidente Jair Bolsonaro nas águas cálidas do Rio Jordão, preso na operação desta sexta-feira. Mas, que esse seu afastamento do cargo deve ser olhado com estranheza, sobre isso não resta a menor dúvida.

Pedra cantada pelo presidente há quase dois meses, numa daquelas aparições matinais para aliados no cercadinho do Palácio da Alvorada, onde a imprensa exerce o duplo papel de coadjuvante e alvo (https://veja.abril.com.br/politica/bolsonaro-insinua-que-witzel-podera-ser-preso-em-breve/), a prisão de Witzel não tem como ser dissociada de um rosário de ações jurídicas contra governadores e prefeitos desafetos da Corte.

Tais “previsões” partiram até mesmo de quadros menores como a inenarrável ministra e eventual porta-voz conservadora do governo Damares Alves (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/05/vamos-pedir-a-prisao-de-governadores-e-prefeitos-diz-damares-em-reuniao-gravada.shtml). Do tempo dessas matérias pra cá, alguns governantes passaram poucas e boas com inquérito s da Polícia Federal e decisões judiciais, quase sempre emanadas do Superior Tribunal de Justiça. Como foi esta, expedida pelo ministro Benedito Gonçalves.

Bolsonaro mexeu em postos estratégicos em órgãos de segurança e da Justiça, como a PF, cujas mudanças provocaram a queda do ministro da Justiça, Sérgio Moro. O resultado são instituições engajadas no modo Bolsonaro de governar, como é o caso da PGR e do Ministério da Justiça, hoje funcionando também como uma banca de defesa do presidente, seus parentes e amigos. Aliás como entende ser o papel desses órgãos o senhor presidente.

A operação que tirou Witzel do governo do Rio de Janeiro acontece ao apagar das luzes do “Jair Paz e Amor”, uma tentativa mal sucedida de Bolsonaro de mostrar cordato e educado. Farsa que caiu por terra quando o presidente ameaçou “encher de porrada” a boca de um repórter de O Globo após uma pergunta feita e tida pelo presidente como descabida. A partir dali todo mundo sabia que o velho estilo estaria de volta.

Aliás, o fato político da semana foi feito com o estardalhaço bastante para que a turma de Bolsonaro dele se utilize para tentar encobrir, justamente, a questão que resultou na ameaça ao jornalista. É bom, portanto, manter ligado o alerta para que as ações da PF e do STJ não nublem o cenário e joguem para debaixo do tapete a pergunta que, não respondida, inclui, de vez, o presidente das República e sua família no quadro bolorento da corrupção:

– Presidente, porque a sua esposa Michelle recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz?

Escrito por:

Jornalista e compositor, com passagem por veículos como o Jornal do Commercio (PE) e as sucursais de O Globo, Jornal do Brasil e Abril/Veja. Teve colunas no JC, onde foi editor de Política e Informática, além de Gerente Executivo do portal do Sistema JC. Foi comentarista político da TV Globo NE e correspondente da Rádio suíça Internacional no Recife. Pelo JC, ganhou 3 Prêmios Esso. Como publicitário e assessor, atuou em diversas campanhas políticas, desde 1982. Foi secretário municipal de Comunicação. Como escritor tem dois livros publicados: "Bodas de Frevo", com a trajetória do grupo musical Quinteto Violado; e "Onde Está Meu Filho?", em coautoria, com a saga da família de Fernando Santa Cruz, preso e desaparecido político desde 1973. Como compositor tem dois CDs autorais e possui gravações em outros 27 CDs, além de um acervo de mais de 360 canções com mais de 40 músicos parceiros.

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