Antes tarde, do que tarde demais…

29 de outubro de 2020, 19:34

Com o dólar a 5,7, a pauta do Congresso emperrada por tricas e futricas dos integrantes do governo, o Banco Central tendo que despejar um jorro das nossas reservas no mercado, para forçar a moeda americana a se comportar, sem contar todas as ameaças privatizantes e liberalizantes no horizonte – ih! Quase ia me esquecendo da destruição do meio ambiente, das mortes da pandemia… – o país vai às cambalhotas para o precipício. O caixa quebrou e Paulo Guedes não tem resposta para o desmonte que promoveu.

Quem tem o mínimo de bom senso já percebeu que não dá para reprisar 2018 em 2022, ainda mais tendo 2020 no meio. Faz um tempo que o ex-presidente Lula dá mostras de impaciência com as ferroadas que andou levando do ex-ministro Ciro Gomes e tenta se esquivar dos golpes, baixando o tom da desavença. Demorou para que Ciro percebesse que a sua mágoa com o PT não podia ser maior do que seu amor ao país, de que ele tanto fala, e a gente acredita genuíno.

Até aqui, apesar de tudo o que aponta para escorar os seus motivos, Ciro não consegue falar de um erro que foi seu e talvez por isto a dor e a dificuldade de aceitá-lo seja maior. Político tarimbado, com anos de estrada, ele não percebeu e parece não ter assimilado a estratégia do ex-presidente ao convidá-lo para ser seu vice, tão logo se falou em montagem de chapa. Estava claro para todos que se Lula fosse impedido de concorrer, como o foi, – por manobras jurídicas do ex-juiz Sergio Moro –  tivesse Ciro já escalado como vice, a substituição teria sido automática e entendida com mais clareza pelos eleitores, porque seu nome já viria associado ao dele desde o início.

Ciro sabe, hoje, depois do jogo jogado, que se fosse este o caminho percorrido, talvez estivesse sentado na cadeira da presidência. Não era um candidato do PT – numa hora de antipetismo agudo -, tinha diálogo com o centro e saberia subir o tom com a cambada bolsonarista, coisa que Haddad teve dificuldade, pelo perfil de conciliador. Só no final da campanha, depois do comício de Recife, quando viu seu nome ganhar força, foi capaz de aumentar ligeiramente o tom com aqueles que o afrontavam.

Todos nós assistimos a dificuldade que foi vincular o nome de Fernando Haddad como o substituto do Lula. Havia pouco tempo para fazer isto, e uma “facada” no meio. Mais uma semana de campanha e ele teria levado, enfim. Sabe-se lá como seria com Ciro, mas talvez o desfecho nos fosse favorável. Sem dúvida esses momentos devem rolar pelos pensamentos do ex-ministro cada vez que remonta 2018.

Dois anos depois, num cenário de catástrofe que nenhum de nós imaginaria, eis que a tragicidade do momento e as alianças paroquiais da campanha municipal país a fora permitiu a reaproximação. Enfim se descortina a possibilidade de união entre, no mínimo, cinco partidos do campo progressista, tanto para ganhar algumas cidades, já em 2020, quanto para pavimentar a estrada para 2022.

O mérito de ter conseguido o encontro e, como se costuma dizer, por colocar o guizo no pescoço do gato foi do governador do Ceará, Camilo Santana, amigo do clã dos Gomes e petista com um governo muitíssimo bem avaliado. Certamente pesou na conta de Ciro o caos em que o país se encontra. Vazar a notícia para o jornal O Globo talvez se deva à argúcia de Lula. No início do ano ele recusou uma entrevista ao jornal, o que asseverou a má vontade em torno do seu nome, na casa dos Marinho. Agora, quando precisa ampliar as adesões a um projeto de frente progressista, sabe que isto só ganhará força se tiver a simpatia dos veículos tradicionais. E, como tem ficado flagrante, O Globo não tem sido bonzinho com Bolsonaro. Certamente isto contou na escolha de conceder-lhes o “furo”.  

Agora é a vez da militância de ambos os partidos terem maturidade bastante para não virar as costas à costura que está sendo feita. Ou esquecem os ataques  e marcham unidos para fortalecer uma aliança que possibilite repetir por aqui o sucesso da Bolívia, que reverteu o golpe pacificamente, nas urnas, ou seguirão destilando fel, com o risco evidente de reforçar a candidatura deste que se no primeiro governo nos ameaçou durante todo o primeiro semestre com um “golpe”, imaginem reforçado com uma segunda vitória do que não será capaz…

Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia

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