Brasil perde uma cidade de porte médio para a Covid-19 e governo nada diz

11 de outubro de 2020, 22:39

A cidade de Porto Seguro, situada ao sul do estado da Bahia, um dos destinos turísticos mais procurados do país, tem 150.658 habitantes, segundo dados do IBGE. O número de mortos pela Covid-19 no país até hoje era de mais de 150 mil vítimas. É como se um gás venenoso tivesse sido borrifado sobre o município e todos morressem de uma hora para outra. É isto mesmo. Perdemos uma Porto Seguro de março até aqui, sem que nenhuma autoridade esboçasse reação alguma sobre tal sumiço populacional.

Nesse percurso, o homem que ocupa o cargo de presidente da República reagiu dando de ombros sobre este expressivo número de mortos, porque se disse mais preocupado com a economia do que com as pessoas que estavam morrendo Brasil a fora. Levando-se em conta que cada morto desses deixou pelo menos um familiar, é possível imaginar que as lágrimas derramadas por eles dariam para formar um lago. No entanto, em Brasília, é como se a perda dos habitantes de uma Porto Seguro não fizesse falta alguma. A vida segue em ritmo de conchavos, churrascos e tubaína.

A última coletiva de imprensa nos moldes das que aconteciam no início da pandemia, para situar a população sobre a evolução do combate ao coronavírus aconteceu no dia 15 de maio, e teve o objetivo de anunciar a saída do segundo ministro da Saúde (Nelson Teich, que por sua vez substituiu a Luiz Henrique Mandetta), em três meses. O terceiro a ser alçado ao cargo, o general Eduardo Pazuello, ficou como interino três meses e meio. Na última semana, veio a público confessar que até ocupar a pasta desconhecia o Sistema Único de Saúde (SUS), pelo qual responde por dever de ofício.

Sua “contribuição” ao acompanhamento dos casos de contágios e mortes pela doença foi censurar números a serem divulgados para o público. Em resposta os veículos de mídia, a quem cabem manter a população informada sobre a pandemia, foram obrigados a formar um consórcio e arrebanhar informações nas secretarias de Saúde dos estados, para divulgar números corretos sobre os avanços ou regressão no controle da doença.

A esperança do mundo é a criação de uma vacina para que a vida retorne a algo próximo do que se tinha antes, mas até nisto o Brasil impõe dificuldades e faz restrições. Os estudos para uma vacina chinesa fazem com que Bolsonaro torça o nariz, como se tivéssemos, – com a perda do equivalente ao número de habitantes de uma cidade de porte médio -, em condições de escolher esta ou aquela, quando os países se estapeiam para adquirir a primeira que surja.

Bolsonaro não esconde a sua torcida pela vacina de origem inglesa. “O que é mais importante nessa vacina (de Oxford, negociada pelo governo federal), diferente daquela outra que um governador resolveu acertar com outro país: (ele estava falando de João Doria, de SP), vem a tecnologia pra nós. E junto com os meios que nós temos, nós temos como, realmente, dizer que fizemos o possível e o impossível para salvar vidas, ao contrário daqueles que teimam em continuar na oposição desde 2018, dizer o contrário”, disse Bolsonaro, em agosto.

Ao desdenhar da vacina chinesa por pura implicância ideológica, fica sujeito a um acordo desvantajoso, conforme revelou o site Uol nesta semana. Além de já ter apresentado problemas de desempenho em sua fase de teste em humanos, a vacina de Oxford, pelo contrato firmado com a Fiocruz no dia 31 de julho, a empresa AstraZeneca se comprometeu a enviar ao preço de US$ 300 milhões, 100 milhões de doses ao Brasil. E, caso apresente resultado negativo, o país não será reembolsado. Entubaremos o prejuízo.

Enquanto isto, nas telas da TV o Brasil ganha pujança, “cresce” a olhos vistos. Manchetes usam o “auxílio emergencial” distribuído à população carente de forma artificial para apontar a expansão da “classe C” e o fim da fome. O auxílio, porém, tem vida curta. Vai somente até dezembro. Um programa substituto – já que a medida fez crescer o apoio ao governo – estava sendo programado, mas como não deve contemplar o mesmo público (o de 65 milhões de assistidos) e virá com menor valor, foi trancado no armário, até passar as eleições municipais. Depois de dezembro eles prometem voltar ao assunto. É esperar para ver como será o diálogo com cerca de 32 milhões de desempregados e desalentados.

Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia

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