Wajngarten, protegendo microfone de Bolsonaro.

Pratica-se crime com publicidade oficial

14 de julho de 2020, 15:21

Por Luís Costa Pinto

O Palácio do Planalto se prepara para gastar R$ 30 milhões numa campanha publicitária destinada a “renovar as esperanças” do brasileiro. A verba será paga com recursos do Ministério da Saúde e executada pelas agências que atendem ao órgão. Já seria um despautério torrar o orçamento da Saúde em campanha publicitária motivacional e carente de objetivos práticos. Fazer isso em plena luta contra a disseminação do coronavírus, que o país está a perder, é um crime e uma insanidade.
A esperança só vence o medo quando há sinceridade de objetivos e transparência na comunicação. No momento, não há estoque de esperança a ser renovado, e sim excesso de medo e de incerteza a ser combatido. Aparelhado por oficias do Exército, uns da ativa e outros metidos em pijamas, o Ministério da Saúde quer instituir a cura da Covid-19 pelo gogó. Isso não é estratégia, é desespero. Agir de forma desesperada usando verbas públicas resulta em cometimento de crime. E se há uma repartição dessa Esplanada de serviçais de Jair Bolsonaro onde se comete crimes em escala industrial, ei-la: Secretaria de Comunicação da Presidência da República.
A Secom bolsonarista, tendo à frente o publicitário Fábio Wajngarten e, de uns tempos para cá, acima dele o ministro Fábio Faria, genro de Sílvio Santos e portador de debilidades cognitivas a ponto de enxergar Mata Atlântica na Floresta Amazônica, também pretende arrancar do Congresso Nacional autorização para ampliar em R$ 327 milhões as verbas publicitárias do Governo Federal. Caso consiga o montante, terá aumentado em 180% os gastos com propaganda no ano de 2020. Nunca gestores públicos que sentaram na cadeira de Wajngarten cometeram tamanha ousadia.
Desempenhando a função na corda bamba – afinal, é sócio de uma empresa que deu consultoria a agências e a veículos de comunicação que receberam verbas públicas destinadas por ele – Wajngarten pode se converter no arauto da única boa notícia que o Palácio do Planalto tem a dar à imprensa: as transferências bancárias com a polpudas verbas de propaganda que irrigam os combalidos caixas das empresas de comunicação. Focado na missão de reduzir o tamanho da mordida das Organizações Globo (a quem considera adversária de Bolsonaro e do bolsonarismo) no montante da publicidade oficial, ele desistiu de seguir na medida ilegal de cortar a TV Globo, os jornais O Globo e Extra e a revista Época da programação oficial de gastos de sua secretaria.
Os atos que vinham sendo praticados nesse sentido eram ilegais porque as Organizações Globo têm direito a participação nas verbas publicitárias oficiais em volume proporcional ao tamanho de sua audiência e eficácia de veiculação no mercado. Pressionado a ampliar as dotações destinadas a TVs amigas do chefe – Record, Band, Rede TV e o SBT comandado pelo sogro de Fábio Faria, Silvio Santos –, além da miríade de microveículos bolsonaristas e de orientação fascista que integram a blogosfera oficial, Fábio Wajngarten decidiu partir para a multiplicação dos pães e dos peixes: mais do que dobrar os recursos destinados à publicidade de Governo a fim de manter intocados os patamares e a expectativa de receita da Globo, a fim de não dar vezo a reclamações, e crescer num passe de mágica as dotações dos comunicadores “da casa”.
Ao fazer crescer o bolo publicitário oficial ainda no segundo semestre de 2020, como é sua pretensão, Wajgarten prepara-se para entregar outro presente imenso a Bolsonaro: a média de gastos publicitários dos 24 meses imediatamente anteriores ao ano eleitoral de 2022 cresce assustadoramente, e ela será usada para se calcular a dotação orçamentária destinada à publicidade oficial no ano da reeleição – justamente 2022. Entre janeiro e junho do ano em que pretende disputar a reeleição, um governante só pode gastar o equivalente a 50% do que foi empenhado, em média, nos 24 meses anteriores. Em geral, e naturalmente, em anos de reeleição os presidentes gastam menos em publicidade do que nos anos anteriores – por impedimentos legais. Aumentando artificialmente a média, com a pretendida canetada de Wajngarten, Jair Bolsonaro poderá torrar em publicidade, nos primeiros seis meses de 2022, exatamente o que gastou em todo o ano de 2019. Com isso, produzirá novamente uma disputa assimétrica com seus antagonistas, promovendo uma eleição desigual.
Wajngarten, Faria e Bolsonaro são enganadores, mistificadores, intelectualmente desonestos (esse último diferencial competitivo deles carece de provas. Afinal, ainda se procura intelecto nas personagens). Até aqui, conseguiram enganar muitos. Deixaram o discurso de ódio passar pelas frestas de uma sociedade fraturada. Mas aproxima-se a hora em que terão de prestar contas à sociedade – e daí serão descobertos. Não se poderá enganar a todos, sequer à maioria, por tanto tempo. Que seja logo, ora pois.

Wanjgarten, protegendo microfone de Bolsonaro – “porta-voz” e marqueteiro oficioso

Escrito por:

Jornalista

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