Ustra, aos olhos da Justiça, é um torturador. Quem se coloca ao seu lado é cúmplice

9 de outubro de 2020, 19:41

Os diversos dicionários não divergem muito sobre o significado do vocábulo: honra, que tem a sua origem no termo Honos, em latim. Onde quer que se pesquise, o resultado não vai variar muito da definição do wikcionário: “Honra, honor ou honradez é um conceito que procede da avaliação do procedimento de uma pessoa e estado social baseado nas adoções daquele indivíduo e ações. A honra é o sentimento de dignidade e boa reputação. O oposto de honra é a desonra”.

Ou do Michaelis: Princípio moral e ético que norteia alguém a procurar merecer e manter a consideração dos demais na sociedade”.

Ao incluir o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra nesse conceito, (o de homem honrado) o vice-presidente da República Federativa do Brasil corrompe a definição da palavra “honra”. Nos coloca mais uma vez diante da naturalização da violência. Nos diz que a Justiça do país que ele “vice-preside” cometeu uma falha, ao julgar o militar que deveria zelar pela ordem e pela proteção social, mas “desonrou” (o contrário de honrar) mulheres nas dependências do Estado, aviltou corpos subjugados e ocultou cadáveres.

O general Hamilton Mourão não hesitou em repetir a Sebastian, aquilo que defendeu na campanha, em 2018, para jornalistas brasileiros, entre eles uma ex-presa política e ex-torturada: Brilhante Ustra é um homem “honrado”.

Mourão não mudou a sua opinião porque foi investido do cargo de vice-presidente. Mourão não cedeu e não cederá em suas convicções, baseadas na formação de um Exército que foi pioneiro na instalação, em 1970, dentro de uma de suas unidades, no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro, – por ordem do ditador Emílio Garrastazu Médici -, de um centro de tortura. O mesmo modelo reproduzido por Carlos Alberto Brilhante Ustra, em São Paulo, numa delegacia da Rua Tutóia. Mourão não enganou a nenhum dos que depositaram na urna o voto a seu favor. Disse claramente de que lado estava nesse “balanço histórico”. Os que formaram Ustra, formaram Hamilton Mourão e Bolsonaro. Alguns anos depois, mas sob os mesmos princípios.

Na página 148 do meu recém-lançado livro: “Claudio Guerra – Matar e Queimar”, faço um resumo da monografia produzida pelo major comandante do DOI-CODI, Freddie Perdigão Pereira, o seu fundador. Nela o coronel descreve sob o título: “O Destacamento de Operações de Informações – DOI – no Estado Brasileiro – histórico papel no combate à subversão: situação atual e perspectivas”, como criou o “monstro”.

 Nesse “estudo” feito por Freddie Perdigão e apresentado à Escola de Alto Comando do Exército, ele historia os antecedentes que levaram à “institucionalização” dos Centro de Operações de Defesa Interna (CODI) e dos Destacamentos de Operações Internas (DOI). Trata-se de um relatório de atividades desse centro de tortura. No trabalho ele expõe métodos de execução de “operações”, leis que criaram os órgãos para reprimir os militantes, composição de equipes, e faz um balanço dos “resultados” obtidos por sua gente, incluindo o número dos que por eles foram mortos.

Não dá para negar a existência desse passado, fartamente documentado por eles mesmos, incluindo robusto material do estado americano, entregue à ex-presidente Dilma Rousseff, no dia da sua posse ao segundo governo, pelo então vice-presidente dos EUA, Joe Biden, (agora a caminho da Casa Branca).

Nos 43 arquivos entregues à Dilma, há relatos de métodos de torturas, há conversas entre os dois países sobre as atividades repressivas, há trocas de indagações sobre presos “desaparecidos”, como é o caso do cidadão brasileiro com Stuart Angel Jones, que detinha também a cidadania estadunidense, por ser filho de pai americano. Não dá para continuar ouvindo Bolsonaro afirmar que o trabalho das Comissões da Verdade foram “balela”. É sabido que a CNV não tinha poder de “judicializar” as suas descobertas, mas cumpriu o papel de sistematizar à luz dos tratados internacionais, o que aqui ocorreu.

O golpe de 2016 impediu que as 29 recomendações da CNV estabelecidas com a ajuda da sociedade civil fossem implementadas. Uma delas, a que os seis tomos que compõem o relatório final fossem objetos de estudo nas Escolas Militares. Quem sabe, se o fossem, o significado do substantivo “cinismo”, não estaria tão alargado, hoje, pelo vice-presidente Hamilton Mourão, ao falar do tema.

Visivelmente desconfortável dentro do terno que vestia, vendo surgir no alto da testa gotas de suor e levemente ruborizado estava, Mourão, ao tentar escapar das perguntas quentes do repórter Tim Sebastian, sobre a negligência para com as queimadas na Amazônia.  Quanto aos elogios a Ustra, proferiu-os com a firmeza dos praticantes do espírito de corpo. Ustra, Mourão, Bolsonaro, saíram das mesmas fileiras. Saíram de um Exército que perdeu a oportunidade de vir a público expiar a culpa do passado, passar a sua história a limpo e seguir em frente. Não há outra narrativa a ser feita, senhor Mourão. Carlos Alberto Brilhante Ustra, à luz da Justiça brasileira – esta que ao senhor cabe respeitar – é um torturador. E qualquer um que se coloque ao seu lado é “cúmplice”. Assim está escrito no Código.

Para os que não tiveram a oportunidade de ver a entrevista concedida ao jornalista Tim Sebastian, da DW Brasil, segue o link.

https://www.dw.com/pt-br/governo-bolsonaro-lidou-muito-bem-com-a-pandemia-diz-mour%C3%A3o/a-55192189

Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia

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