Esta foto não pode ser verdadeira

5 de outubro de 2020, 10:17

O mais vibrante, vigoroso e corajoso discurso de Dias Toffoli, nos dois anos em que presidiu o Supremo, não foi proferido por ele. Foi lido por Luiz Fux, na sessão do dia 27 de maio.

Fux avisou que o discurso havia sido escrito a quatro mãos, por ele e Toffoli, como música de dupla sertaneja.

Fux não disse, mas todos sabiam que ele leu o texto fazendo a segunda voz. A primeira voz, por hierarquia, era a de Toffoli, presidente da casa, que estava hospitalizado.

Foi assim que o discurso mais impositivo de Toffoli foi feito na sua ausência. Foi, por acaso, no dia em que a Polícia Federal bateu na casa dos amigos dos Bolsonaros atrás de provas da fábrica de fake news.

Fux e Toffoli, ou Toffoli e Fux, pediram respeito às instituições, defenderam o ministro Celso de Mello dos ataques dos militares e disseram que o Supremo estava a postos como guardião dos valores republicanos.

Três dias antes, Bolsonaro havia sido levado de helicóptero, como se estivesse em guerra, a mais um ato de Sara Winter contra o Supremo.

No dia seguinte ao discurso da dupla, Bolsonaro voltou a atacar o STF. Foi quando disse: “Acabou, porra! Acabou!”.

E atacou, mesmo sem citá-lo, o ministro Alexandre de Moraes, que preside o inquérito das fake news e havia autorizado as buscas.

Por tudo isso, muitos não levaram a sério a foto divulgada agora em que Toffoli aparece abraçado a Bolsonaro. A foto teria sido feita sábado na casa de Toffoli, onde ocorreu uma festa de recepção ao futuro ministro Kassio Nunes.

A foto só pode ser uma montagem grosseira. Não há como o ex-presidente do Supremo abraçar-se com tanto entusiasmo a Bolsonaro, dias depois de ter deixado o cargo.

O histórico de conflitos e agressões destrói a foto. Um filho de Bolsonaro já ameaçou fechar o Supremo com um soldado, um cabo e um jipe.

O ministro Augusto Heleno ofendeu a autoridade de Celso de Mello, decano do Supremo, e ameaçou com a instabilidade, se apreendessem o celular de Bolsonaro.

Bolsonaro participou de atos de Sara Winter em sequência aos domingos em Brasília ao lado dos seus generais, sempre contra o Supremo.

Não eram atos contra Lula, ou contra o Ministério Público, os comunistas ou a imprensa, mas contra o Supremo que cercava os filhos de Bolsonaro e seus parceiros.

Bolsonaro mandou recados semanais ao Supremo, entre maio e junho, no cercado do Alvorada.

Tentou desqualificar Alexandre de Moraes como chefe da investigação contra os filhos dele, de deputados e de amigos da família no Gabinete do Ódio e no patrocínio dos atos golpistas.

Por tudo isso, a foto não existe. Toffoli pode estar abraçando um general, mas não Bolsonaro. Pode estar dançando com Davi Alcolumbre ou Rodrigo Maia. Mas não pode estar abraçado com as duas mãos às costas de Bolsonaro.

Não há como aceitar a montagem da foto sem contestação. Toffoli não pode ter abraçado efusivamente o homem que avisou, três semanas depois do discurso de 27 de maio, que alguém iria chutar o pau da barraca.

A foto é uma fraude. Naquele famoso discurso a quatro mãos, Toffoli e Fux exaltaram o respeito à Constituição e falaram com destemor dos que ameaçam a Justiça.

Disse Fux, lendo o discurso dele e de Toffoli: “É voz corrente que um dos principais pilares das democracias contemporâneas repousa na atuação de juízes independentes, que não se eximem de aplicar a Constituição e as leis a quem quer seja, visando à justiça como missão guiada pela imparcialidade e pela prudência”.

Um juiz independente, guardião da Justiça e guiado pela imparcialidade, não cometeria a imprudência de cair no flagrante de uma foto abraçado ao sujeito que conspira contra a Constituição e o Judiciário e até poucos dias blefava com a ameaça de um golpe.

A foto é uma montagem. É preciso saber quem se prestou a juntar numa mesma imagem, e com um forte abraço, duas pessoas que têm desconfianças mútuas.

Não é uma imagem de respeito recíproco, de submissão às liturgias e de concessões em nome da harmonia entre os poderes. É, no mínimo, o flagrante de uma imprudência.

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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