Falta um livro sobre os generais

26 de setembro de 2020, 15:12

Estão publicando pílulas diárias do livro de Luiz Henrique Mandetta. Mas a cada trecho publicado a sensação que fica é a de que temos mais uma obra com muitos relatos de curiosidades e pouca densidade.

Confesso que terei pelo livro o mesmo interesse que tenho pela música da dupla sertaneja Silveirinha e Silveirão.

Um livro como esse, feito na pressa e na carona da pandemia, é resultado da sofrência de quem o escreveu (ou mandou que escrevessem). Porque é sustentado pelo ressentimento e pela vingança, como parte dos ensaios de um projeto político para 2022.

Não parece ser um livro com informações relevantes, mesmo que reafirme a face mais grotesca de Bolsonaro com detalhes observados por quem esteve ao seu lado.

Se tivesse alguma abordagem excepcional, alguém já teria divulgado. Pelo que li até agora, Mandetta mostra que o ex-chefe é um insensível e ignorante incapaz de compreender o que viria a ser a tragédia pandemia.

E conta que Onyx Lorenzoni grampeava conversas com políticos aliados para poder depois chantageá-los. Mas quem quer saber da ignorância e das crueldades de Bolsonaro e das fofocas sobre Onyx Lorenzoni?

As últimas obras de bastidores da política, a partir da metade do século 20, com alguma relevância, foram Notícias do Planalto, de Mario Sergio Conti, sobre o poder do núcleo e do entorno de Collor, e a série de Elio Gaspari sobre a ditadura.

São dois jornalistas, não são políticos tentando atirar em ex-aliados. Mesmo o livro da jornalista Taís Oyama sobre o primeiro ano de Bolsonaro não conta quase nada.

A única revelação importante de Taís é a contida em uma frase de Augusto Heleno, que se refere a Bolsonaro, num encontro com empresários, como “um despreparado”. O resto é uma compilação de notinhas.

Não há como escrever um livro sobre um ano de governo do presidente mais desqualificado que o Brasil já teve.

Bolsonaro não rende um livro, nem um desses à la minuta. O sujeito somente renderia um livro se alguém contasse suas relações complicadas com os militares.

Mas aí o autor precisaria ser um militar. Ele mandou seis generais embora do governo. Mas nenhum parece ter o perfil de quem possa fazer revelações sobre a base de sustentação fardada aos blefes de Bolsonaro.

A hierarquia e a disciplina não permitem. Todos os generais que Bolsonaro desprezou e humilhou teriam muito a contar.

Um livro sobre os civis medíocres de Bolsonaro, sem a copa e a cozinha dos militares, vale tanto quanto um livro de sonetos de Alexandre Garcia.

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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