Gritem bem alto: CRM, CRM, CRM!!!

29 de setembro de 2020, 10:31

Os bacanas criaram o grito do verão. Aconteceu espontaneamente durante o barraco armado dentro do Gero, um restaurante chique de São Paulo, e levado para a rua dos Jardins, para que fosse visto por todos que passavam.

Era o espetáculo democrático dos ricos ou meio ricos tensos e inseguros com as aglomerações da pandemia.

O grito surgiu em coro no momento em que o barraqueiro, identificado como Carlos Iglesias (foto), apresentou-se como médico e logo depois foi cobrado pela claque que se formou em volta dele.

O homem deu o carteiraço porque o cara que discutia com ele havia dito que era filho de médico e tinha berço. A torcida exigiu provas do médico que brigava com o filho do médico.

E ouviu-se então o canto de guerra das mulheres na calçada:

– CRM, CRM, CRM!!!!

O sujeito havia sido corrido do restaurante, porque chegara atrasado e o atendimento iria só até as 22h. Foi mandado embora como se fosse chinelão. E o mulherio ainda cobrava o seu número no Conselho Regional de Medicina.

O rapaz filho de médico, que batia boca com ele, dizia ter um delegado amigo. O médico respondeu que também tinha o seu.

Os dois tinham cada um o seu delegado amigo, tinham berço e tinham o carteiraço de médico e de filho de médico. Mas um estava com fome.

O homem havia sido despejado do restaurante como se fosse um sem-berço, sem-delegado, sem-diploma e sem-máscara. E nem sabia dizer o registro dele no CRM.

O CRM seria seu salvo conduto. Com o CRM na ponta a língua, ele provaria, não que tem berço, mas que tem habeas corpus.

O barraco nos Jardins deixou algumas lições. Os bacanas no Brasil pós-golpe são mais chinelões do que parecem. É arriscado ir a um restaurante de rico. Se for, nunca esqueça o número do CRM.

Quem não tem CRM, que invente um. Peça a comida e já apresente o CRM.

Os ricos ficaram insuportáveis na era bolsonarista. Os médicos cubanos nunca fariam esse fiasco.

(No final do vídeo o médico esclarece que tem CRM e que o registro dele é vigente.)

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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