A capa da New Yorker com Donald Trump. Foto: reprodução

“Máscara é coisa de viado”. Ou: a heterossexualidade frágil dos heterossexuais

8 de julho de 2020, 16:55

Como é difícil a certos homens heterossexuais sustentarem a própria heterossexualidade, não? Manter a masculinidade aparenta ser um verdadeiro sacrifício para o hetero, um abnegado que resiste bravamente à tentação de ser homo, a ponto de coisas prosaicas representarem uma ameaça: não pode ter peças cor-de-rosa no vestuário; não pode decorar a casa a não ser de um “jeito hetero”; não pode ser afetuoso com outros caras. Tem homem que nem dança algumas músicas, tipo Wake Me Up Before You Go-Go, do Wham!. Vai que…

Uma característica do hetero frágil é que ele também costuma fazer exigências enormes às mulheres: precisam estar inteiramente depiladas ou eles não sentem tesão; estrias e celulite os fazem broxar; calcinha e sutiã descombinadas, então… É dura, amigos, a tarefa de manter-se hetero neste mundo. Ou flácida, depende do ponto de vista.

A mais nova ameaça à masculinidade são as máscaras contra a Covid-19. Donald Trump se recusa a aparecer em público usando máscaras e retuitou uma postagem do comentarista reaça Brit Hume, da Fox News, tirando sarro do rival do presidente, Joe Biden, por comparecer a um evento de máscara –aliás, bastante estilosa.

Em resposta, Biden tocou no nervo: “Presidentes devem dar o exemplo e não se envolver em tolices e serem falsamente masculinos”. Pois é, como não pensar que toda essa masculinidade é forçada, se fraqueja diante de uma máscara para proteger de uma doença contagiosa? “Máscara é coisa de viado”, como diz Jair Bolsonaro a funcionários diante de visitas, segundo revelou a jornalista Monica Bergamo na Folha de S.Paulo.

No twitter, a antropóloga Débora Diniz também foi no ponto. Bolsonaro, como Trump, não quer usar máscara porque isso “afeta” sua masculinidade, o fragiliza. “As tensões de Bolsonaro com a máscara são como o buraco da fechadura sobre a masculinidade tóxica”, escreveu.

Mais que masculinidade tóxica, é uma masculinidade capenga: “homem que é homem não usa máscara”. E esse pensamento não é exclusivo de Bolsonaro e Trump. Um estudo que ouviu 2549 norte-americanos, divulgado em maio pela Middlesex University de Londres, apontou que os homens estão mais inclinados a não usar máscaras em público do que as mulheres porque acham “embaraçosas, sem charme e transmitem fraqueza”.

Esse tipo de afirmação soa ainda mais absurda quando as estatísticas mostram que os homens morrem mais pelo coronavírus do que as mulheres e quando novas pesquisas científicas defendem que o uso de máscaras é o meio mais eficaz (e ainda por cima barato) de prevenir o contágio aéreo. Um estudo recente da Universidade de San Diego sustenta que usar ou não usar máscara não é a questão, e sim a resposta.

Como não pensar que toda essa masculinidade é forçada, se fraqueja diante de uma máscara para proteger de uma doença contagiosa? Além de tudo, Bolsonaro e Trump prestam um desserviço à sociedade ao sabotar o combate ao coronavírus pelo mau exemplo

“Apenas a iniciativa de cobrir o rosto para bloquear a atomização e a inalação de aerossóis portadores de vírus é responsável por reduzir infecções significativamente na China, Itália e Nova York, indicando que a transmissão aérea do Covid-19 representa a principal rota para a infecção”, disse o professor Mario Molina, Nobel de Química em 1995, um dos responsáveis pelo estudo. Em linguagem simples: como o principal meio de transmissão é aéreo e por gotículas, as máscaras impedem que seus perdigotos atinjam outra pessoa e vice-versa.

Ou seja, não é só falta de cuidado consigo mesmo e com o próximo, é burrice. Pobre do homem cuja masculinidade depende de usar ou não um trapo no meio da cara. Homens públicos como Bolsonaro e Trump prestam, além de tudo, um desserviço à sociedade ao sabotar o combate ao coronavírus pelo mau exemplo e pelas decisões que atingem a população como um todo, não só quem tem problemas com a própria heterossexualidade: o presidente brasileiro vetou a obrigatoriedade do uso de máscaras no comércio, nas escolas e nas igrejas.

Escrito por:

Cynara Menezes é baiana de Ipiaú e tem 53 anos. Formou-se em jornalismo pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) em 1987. Desde então, percorreu as redações de vários veículos de imprensa, a começar pelo extinto Jornal da Bahia: Jornal de Brasília, Folha de S.Paulo, Estadão, revistas IstoÉ/Senhor, Veja, Vip, Carta Capital e Caros Amigos. Atualmente se dedica com exclusividade a seu site Socialista Morena. É autora dos livros Zen Socialismo (os melhores posts do blog Socialista Morena), pela Geração Editorial, O Que É Ser Arquiteto, com João (Lelé) Filgueiras, e O Que É Ser Geógrafo, com Aziz Ab’Saber, os dois últimos pela editora Record.

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