O alerta a quem pretende ser miliciano de Bolsonaro

21 de agosto de 2021, 11:44

Pretensos milicianos com ambições políticas, que planejam cumprir missões paramilitares no Brasil, com Bolsonaro acima de tudo, devem prestar atenção no que aconteceu na Bolívia.

Não são apenas os líderes civis e militares do golpe de 2019 que estão encarcerados. Há milicianos presos. Todos foram abandonados na cadeia pela direita e pela extrema direita que desfrutavam dos seus serviços.

Os milicianos bolivianos são trastes sem utilidade. Esta aí, sem máscara, à esquerda na foto, é Milena Soto, a Sara Winter deles, líder da temida RJC, a Resistência Juvenil Cochala. É uma dessas figuras que ficaram inúteis.

A RJC foi um braço paramilitar ativo e poderoso da extrema direita. Sara Winter tinha tochas, capuzes e meia dúzia de militantes gritando na frente do Supremo. A RJC de Milena tinha centenas de ‘soldados’ mascarados, que vestiam jaquetas com as cores da Bolívia e espalhavam o terror pelas ruas e diante das casas de inimigos.


Eram jovens que sumiram com suas motos e seus coquetéis molotov depois do golpe de novembro de 2019 (na foto, Milena está na garupa). Participavam de ações violentas e só seguiam em frente com financiamento de empresários e partidos, mesmo que tudo fosse clandestino.

Milena está presa com mais dois líderes da milícia, Yassir Molina e Marco Antonio “Tonchy” Bascopé. É acusada de ter participado do ataque de outubro de 2019 contra a sede do Ministério Público em Sucre, pouco antes do golpe que derrubou Evo Morales.

O grupo tentou incendiar o prédio para forçar a renúncia do então procurador-geral Juan Lanchipa. A milícia teve participação decisiva, ao lado da Polícia Nacional e do Exército, na queda de Morales.

Cochala é como se designa o cidadão de Cochabamba. Apesar do nome Resistência Juvenil, o grupo é liderado por trintões e até por quarentões.

Todos os presos preventivamente foram denunciados pelo Ministério Público por formação de organização criminosa, agressões físicas, uso de explosivos em manifestações e destruição de bens públicos.

Líderes da direita e mesmo da extrema direita, como o governador de Santa Cruz de la Sierra, Luiz Fernando Macho Camacho, não querem conversa com os delinquentes.

Eles são perdedores. Milena chora na cadeia e manda cartas aos jornais em que acusa o governo de perseguição.

Era ligada a Camacho e depois se bandeou para a turma da senadora Jeanine Añez, quando esta se ofereceu para o cargo de ‘presidente provisória’, depois do golpe contra Morales.

Presa em março e também abandonada pelos companheiros de golpe, Jeanine teria hoje apenas uma utilidade para a direita boliviana. Morrer na prisão e ser a mártir dos golpistas.

Há nos jornais conservadores da Bolívia a antecipação de uma tragédia. Jeanine também passa o dia chorando e indo e vindo da cadeia para os hospitais, está mal.

Tem depressão, problemas cardíacos e perda de peso. Carolina Ribera, filha dela, diz que a mãe pode morrer a qualquer momento.

Carolina é acusada do desvio de doações aos pobres, quando ocupou um cargo honorífico (geralmente entregue à primeira-dama) na área social durante o governo provisório da mãe.

A direita boliviana desistiu de salvar Jeanine e alguns devem torcer mesmo pela sua morte. A ex-senadora não tem serventia nem liderança.

Tentou ser candidata a presidente na eleição de outubro do ano passado, vencida pelo Movimento ao Socialismo do agora presidente Luis Arce e de Morales, e desistiu por aparecer mal nas pesquisas.

Cumpriu a tarefa de ser mandalete dos chefes do golpe que durou apenas um ano e hoje é um arquivo com segredos da corrupção e com pelo menos seis crimes nas costas.

A extrema direita precisa se livrar de Jeanine. Seus crimes mais graves são as ordens para que policiais e militares reprimissem com violência nas ruas os manifestantes pró-Morales, depois do golpe.

Mataram 36 pessoas a tiros, a maioria nas chacinas de Senkata e Sacaba. Nesta sexta-feira, a Procuradoria-Geral a denunciou por esses crimes, classificados como genocídio, com pena de até 20 anos de prisão.

Jeanine é a ‘mártir’ que o fascismo tenta produzir, enquanto Camacho continua caçando Evo Morales, para que não seja candidato nas próximas eleições. A extrema direita está mais preocupada em atacar Morales do que em salvar os amigos presos.

Os candidatos a miliciano no Brasil precisam saber o que, quando um golpe fracassa, a direita faz com paramilitares derrotados e presos.

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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