A perenidade antifascista de Luis Fernando Verissimo

30 de agosto de 2025, 20:24

No final de 2012, em Paris, Luis Fernando Verissimo falou pela primeira vez da morte sem zombaria. Foi numa entrevista ao amigo jornalista Fernando Eichenberg, do Globo, quando disse que começava a perceber a morte como uma piada.

Estava falando sério, preocupado com a perspectiva de vir a durar pouco tempo. Havia completado 76 anos, que seria “a idade de morrer mesmo”, e se sentia frágil fisicamente. 

Retornou a Porto Alegre, depois da temporada anual na França, e ficou 24 dias internado em decorrência das complicações de uma gripe. Em 2013, retornou ao hospital com dores no peito.

Foi quando recebi uma missão, que tentei rejeitar, de Claudia Laitano, editora de cultura do jornal Zero Hora. Eu iria fazer o obituário de Verissimo.

E fiz. Duas páginas ficaram prontas, com texto e fotos, à espera da morte do escritor, porque também é assim que se faz jornalismo: com missões que tratam da morte de quem ainda está vivo.

O começo do texto se sustentava na entrevista que ele havia dado a Eichenberg, abordando pela primeira vez o sentimento de que poderia morrer logo.  

Mas Verissimo sobreviveu, para destruir o obituário que eu não queria ver publicado e que deletei dos meus arquivos no jornal meses depois.

No mesmo ano, ele voltou a adoecer, e Claudia Laitano quis saber onde estavam as páginas. Eu disse que haviam sumido, porque não desejava mais ter contato com aquele texto. Verissimo viveu mais 12 anos.

Falam das virtudes que o consagraram como mestre da crônica de humor, às vezes a serviço de abordagens complexas que ele conseguia simplificar. Quase sempre com leveza e fazendo rir.

Mas poucos destacam seus textos densos sobre cotidiano, costumes, história e cenários políticos, além do seu desprendimento e da sua disponibilidade.

Pediam textos para Verissimo (como eu pedi para a apresentação do meu livro de crônicas Todos querem ser Mujica). Pediam fotos na sua casa, ao lado de Lúcia e do filho Pedro. Pediam que ele fosse a sessões de autógrafos. Ele sempre atendia.

Explorando essa generosidade, durante três anos fiz entrevistas com Verissimo que eram publicadas sempre em dezembro no Zero Hora. 

Eram um balanço do ano, com perguntas e respostas por escrito, porque assim ele funcionava melhor. Até que um dia alguém, em cargo de chefia, achou que não precisava mais.

Em 2017, ZH disse que não precisava mais nem de suas crônicas, e Verissimo foi demitido, da mesma forma que um dia o Jornal do Brasil demitiu Carlos Drummond de Andrade.

Verissimo era um dos últimos da geração de ouro da comunicação gaúcha, de nomes que se tornaram célebres, cada um com seus feitos e particularidades, em jornal, rádio ou TV, a partir dos anos 60 e 70.

Muitos dessa lista já se foram deste mundo: Ruy Carlos Ostermann, Paulo Sant’Ana, Armindo Ranzolin, Cid Pinheiro Cabral, Carlos Nobre, Carlos Bastos, Ivette Brandalise, Lauro Quadros, Celia Ribeiro, Tânia Carvalho.

Era um dos menos completos de todos como comunicador porque, ao contrário dos outros, não era múltiplo e não gostava de falar. Dedicava-se a ouvir e, mesmo que tivesse que ouvir muito, quase nunca discordava. 

Ninguém se lembra de Verissimo envolto em controvérsias políticas, apesar da contundência do que escrevia quando atacava ditadores e fascistas em geral.

Não há um texto dele, um só, que possa ser lido como lacração. Nem seus inimigos de embate político se sentiam à vontade para atacá-lo. Mas que fique a memória de um jornalista e escritor implacável com a extrema-direita.

No obituário que não publiquei, escrevi no final que Verissimo havia chegado, já adoentado, ao estágio em que percebia os sinais da mortalidade. Com a síntese que o marcava, sem se esforçar muito para produzir sacadas originais, disse apenas:

“E podemos encará-la (a morte) como uma grande piada final, porque a morte torna a vida no fim meio sem sentido, uma coisa absurda. Ou encaramos a morte com este sentido do absurdo ou então nos desesperamos. Eu prefiro encarar como uma piada.”

Como devem ter dito seus leitores lá em 2012, nada a acrescentar.

  • Luis Fernando Verissimo . Foto: Mateus Bruxel/Folhapress

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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