A proteção divina para a extrema direita é precária
Em 2018, o Deus da extrema direita percebeu que o diabo protetor das esquerdas ainda estava à espreita e orientou a turma da Lava-Jato em Curitiba a criar uma fundação. Deltan Dallagnol, o procurador com maior fervor religioso, ficou com a missão de juntar recursos para criar a instituição.
Sob as ordens de Deus, Deltan saiu a catar dinheiro resultante de multas aplicadas à Petrobras nos Estados Unidos na guerra lavajatista. Foi juntando, porque parecia fácil, e conseguiu formar um bolo de R$ 2,5 bilhões.
Mas Deus falhou. Gente de dentro do próprio Ministério Público conteve Deltan, e a ideia da fundação foi abortada pela Procuradoria-Geral da República e pelo Supremo. Foi uma das grandes falhas do Deus da extrema direita em Curitiba.
Logo depois, o TSE cassou o registro da candidatura e assim cassou o mandato de deputado federal de Deltan, por ter entendido que o procurador virou candidato para evitar punições contra ele na corregedoria do MP.
A investigação sobre a criação da fundação, na área criminal, continua tramitando, mas sem o ritmo da Lava-Jato. Se fosse fazer as contas de quanto foi a ajuda de seu Deus até agora, Deltan pode concluir que saiu perdendo.
No sábado, ele se ajoelhou diante uma multidão, ao discursar no evento evangélico The Send, em Curitiba, e pregou que só Deus pode livrar o Brasil da corrupção. O ex-procurador e ex-deputado disse:
“Retira dos cargos aqueles que praticam corrupção, Deus. Retira dos cargos os que abusam do seu poder. Nós declaramos com fé: Jesus Cristo é o Senhor do Brasil”.
O Deus e o Jesus Cristo dos líderes do bolsonarismo, mesmo do bolsonarismo dissimulado ou disfarçado, têm contas a acertar com a turma de Deltan. O bolsonarista que se deu melhor, mesmo que seja o que demonstre menos fé, foi Sergio Moro.
Elegeu-se senador e manteve o mandato, apesar de também estar sob investigação em várias frentes. Moro sabe se recolher quando os raios desorientados da política ameaçam alcançá-lo.
O Deus de Bolsonaro, Michelle, Flávio, Malafaia, Eduardo, Nikolas, Damares e Magno Malta é tão desastrado quanto o de Tarcísio de Freitas. Todos têm o mesmo Deus, que para uns aparece mais vacilão do que desajeitado e afoito, como acontece com Tarcísio de Freitas.
E há, mesmo fora do mundo religioso, quem acredite que eles e seus parceiros de bolsonarismo, e só eles, sem nenhuma possibilidade de concessões às esquerdas, só eles têm permissão de Deus para fazer o que fazem.
Deltan, Michelle, Nikolas, Sóstenes e os que se consideram fortes por suas origens e virtudes religiosas acreditam que Deus atua numa bolha fascista, porque só essa bolha merece sua atenção e proteção.
Quando se ajoelha e pede que Deus puna os corruptos, Deltan sabe que os raios cairão sobre as cabeças de gente das facções extremistas do bolsonarismo, mais do que sobre qualquer outro grupo.
Mas ele insiste, porque o mundo que os sustenta politicamente é cada vez mais conectado a essas crenças que asseguram à extrema direita a exclusividade da proteção divina. Se não dá certo, é porque, como está na Bíblia, a falha, o erro e o fracasso também são provação.
Foi para tentar desfrutar dessas crenças que, no dia 18 de novembro de 2022, diante do Palácio do Alvorada, Braga Netto pediu aos que esperavam pelo golpe: ”Não percam a fé”.
O general está preso desde 14 de dezembro de 2024. Foi condenado a 26 anos de cadeia como golpista. Quantos, entre os manés condenados e os líderes bolsonaristas, rezam por ele?
Enquanto isso, a extrema direita continua tentando convencer metade do Brasil de que Deus a protege em ações justiceiras, planos para criação de fundações bilionárias e tentativas de golpe. Mas o diabo, que não tem ideologia, porque basta ser diabo, não é bobo.
Reprodução: Blogdomoisesmendes