António José Seguro vence ultradireitista e é eleito presidente de Portugal
O candidato do Partido Socialista (PS), António José Seguro, foi eleito neste domingo (08/02) presidente de Portugal com uma vitória expressiva sobre o candidato da extrema direita Chega, André Ventura.
Com mais de 90% das urnas apuradas, Seguro, que assumirá nos próximos cinco anos o cargo hierárquico mais alto do Estado, confirmou a preferência do eleitorado ao somar cerca de 66% dos votos, contra 34% de Ventura.
Em sua primeira declaração, Seguro agradeceu ao povo português e disse que seu objetivo é “servir o meu país”. “Foi um voto em defesa dos valores da democracia”, disse.
Ventura chegou a solicitar o adiamento das eleições ao atual presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Porém, o pedido foi recusado. Ainda assim, mais de 36 mil pessoas, residentes em oito cidades, só poderão votar no próximo dia 15 de fevereiro. Mais cedo, o socialista apelou para aqueles que pudessem votar, que o fizessem. “Este é o momento em que o povo é soberano, em que cada voto decide mesmo o futuro do país. Não deixem que escolham por vocês, saiam de casa e venham votar”, disse.
O ultradireitista André Ventura, que amarga a sua segunda derrota numa disputa presidencial, reconheceu a vitória de Seguro e considerou o resultado como “positivo”, levando em consideração as circunstâncias nas quais o país está devido às tempestades. “Isso significa que o povo português conseguiu decidir quem quer ver como presidente da República”, afirmou.
O líder da extrema direita ficou em terceiro lugar na eleição anterior, em 2021, quando Marcelo Rebelo de Sousa (PSD) foi reeleito com 60,7% dos votos.
Mobilização cívica em meio a tragédia
Kristin, Ingrid, Leonardo e Marta, nomes dados às tempestades que atingiram em cheio a Península Ibérica nas últimas semanas, dividiram as atenções da população e motivaram os cidadãos a exercerem o seu direito de voto. Até às 20 horas deste domingo, a abstenção situou-se em torno dos 42%, valor inferior ao registado no primeiro turno (47,7%) e o mais baixo das últimas duas décadas. Em Portugal, mais de 11 milhões de pessoas estão aptas a votar.
Com a indicação do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), que previu uma trégua nas chuvas durante a manhã, e com o apelo dos principais líderes políticos, da esquerda à direita, os portugueses parecem ter usado as presidenciais para dar uma resposta ao poder executivo. A frustração foi visível, sobretudo após as falhas do governo na resposta às fortes chuvas que devastaram o país, causando 14 mortos e deixando milhares de pessoas isoladas, principalmente os mais idosos.

Embora o presidente da República não tenha um papel direto nas decisões de governo (Executivo), o resultado também parece refletir o descontentamento da população com a administração do primeiro-ministro Luís Montenegro (PSD), que se absteve de declarar voto em qualquer dos candidatos no segundo turno.
Segundo estudo da Universidade Católica de Lisboa, há um forte contraste educacional entre os eleitores: 70% dos apoiantes de Seguro têm ensino superior, contra apenas 12% dos de Ventura. Esse dado reflete a observação do filósofo e pesquisador do Instituto Universitário de Lisboa, Carlos Hortmann, que, a Opera Mundi, disse que o crescimento da extrema direita, principalmente entre os trabalhadores mais vulneráveis, é uma resposta à crise no regime político liberal enquanto formas de gestão dos conflitos sociais sobre o capitalismo.
Desafios para o futuro
António José Seguro irá assumir o cargo em um momento de crise no país, com desafios nos setores da saúde, educação e habitação. De acordo com Marcelo Rebelo de Sousa, dias com “perturbações de todo o gênero, instabilidade econômica, política e social no mundo, e mesmo na Europa” fará com que o seu sucessor tenha “uma tarefa mais difícil” do que ele teve nos últimos 10 anos.
O agora eleito mandatário também terá de enfrentar o crescimento do discurso anti-imigração, cenário paradoxal, uma vez que o país depende da mão de obra estrangeira, que hoje contribui de forma significativa para a sustentabilidade da previdência social. Já no cenário externo, os desafios são de ordem geopolítica.
Além da guerra na Ucrânia, a publicação da Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos em dezembro de 2025 introduziu novas tensões, principalmente após a ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de anexar a Groenlândia. Este episódio colocou em xeque a coesão e a própria existência da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), aliança militar da qual Portugal também é membro.
Até o fechamento desta reportagem, mais de 160 mil cidadãos continuam sem o abastecimento de energia elétrica. Muitos sequer poderão acompanhar a vitória do próximo chefe de Estado, que assume o cargo no próximo dia 9 de março, perante a Assembleia da República, como manda a Constituição de 1976.
Reprodução: Operamundi.uol