
Bolsonaro, o xamã do Condomínio Solar de Brasília

“Influenciar uma pessoa é dar-lhe a nossa própria alma. O indivíduo deixa de pensar com os seus próprios pensamentos ou de arder com as suas próprias paixões. As suas virtudes não lhe são naturais. Os seus pecados (…) são tomados de empréstimo. (…) A coragem desapareceu da nossa raça e se calhar nunca a tivemos realmente. O temor à sociedade, que é a base da moral, e o temor a Deus, que é o segredo da religião, são as duas coisas que nos governam”.
Trecho de “O Retrato de Dorian Gray”, do irlandês Oscar Wilde
A já icônica capa da revista britânica The Economist, acima de qualquer suspeita – linha editorial de defesa do liberalismo clássico, já apoiou Ronald Reagan e Margaret Thatcher, então não adianta chamar de comunista -, vestindo, literalmente, Jair Bolsonaro como o vândalo-símbolo da invasão do Capitólio em 2021, o “viking” Jacob Anthony Chansley, diz muito sobre a imagem da qual o ex-presidente não conseguirá jamais se livrar. “Jake Angeli”, que no dia do crime usava uma pele com chifres, carregava uma lança e estava com o rosto pintado com a bandeira dos Estados Unidos, ao ser preso, se autodenominou “xamã do QAnon”, movimento conspiracionista de extrema-direita norte-americano. Bolsonaro, com o rosto pintado de verde e amarelo, é o xamã do Condomínio Solar de Brasília – pertinho da Embaixada dos EUA.

Esse é Bolsonaro, e pelo que será julgado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), a partir da próxima terça-feira: um extremista de direita, mitômano, hedonista, um “natural born conspirator”, que provavelmente nunca leu Oscar Wilde, mas vive, no reflexo de todos os lugares que passa, a síndrome de Dorian Gray, invertendo, no caso, a busca pela beleza eterna pela sanha pelo poder sem limites. Ainda que tente ocultar de seu séquito, que chamamos carinhosamente de gado, sua imagem eticamente espúria e moralmente envelhecida, é a cara do romance faustiano de Wilde.

A The Economist não poderia casar tão bem a imagem patética do “viking” da Barra da Tijuca com o título da matéria de capa de sua edição de 28 de agosto, “What Brazil can teach America – The trial of Jair Bolsonaro” (“O que o Brasil pode ensinar à América – O julgamento de Jair Bolsonaro”). Enquanto os Estados Unidos reelegeram o notório golpista Donald Trump, o homem que tentou melar as eleições em seu país e estimulou o ataque ao Capitólio, e testemunham agora seu segundo governo ainda mais nefasto e apocalíptico, por aqui não só não permitimos que Bolsonaro, o pai dos ataques de 8 de janeiro de 2023, voltasse ao poder – nem nas urnas, nem na posterior tentativa de golpe de estado, junto com sua quadrilha, com e sem farda. Fazendo cabelo e barba, a Justiça o estará julgando, ele e sua cachorrada.
Atualmente sob a liderança da editora-chefe Zanny Minton Beddoes, primeira mulher a ocupar o cargo da The Economist em seus mais de 170 anos de história, talvez se consiga entender melhor a sensibilidade dessa capa. Chamado de “polarizador” e “Trump dos trópicos”, segundo a The Economist, o ex-presidente brasileiro e “seus associados”, provavelmente, diz a revista, “serão considerados culpados” pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por um “golpe que fracassou por incompetência, e não por intenção”. Mas ele e sua tornozeleira eletrônica não perdem por esperar. O pior está por vir.

O STF informou que receberá cerca de 500 jornalistas, de diversos veículos de imprensa, de todo o mundo, para acompanhar o julgamento da trama golpista. O mundo democrático já entendeu. Agora é a contagem regressiva para o terceiro ato. Não foi reeeito e está inelegível, vive em prisão domiciliar em casa, com tornozeleira eletrônica, e, finalmente, a prisão, cárcere, cubículo, gaiola, jaula, xadrez, cana. Nunca o sol quadrado brilhará tanto.
Imagem gerada em IA