Foto: Arquivo/ O Cruzeiro/ EM

JK e a mudança do perfil do político mineiro

19 de janeiro de 2026, 11:04

A posse como presidente de Juscelino Kubitschek foi em 31 de janeiro de 1956. Uma efeméride que vale a pena explorar porque JK é para muitos um exemplo do estilo mineiro de fazer política.
Com efeito, JK marcou tanto a política mineira que um restaurante muito popular de Belo Horizonte ainda expõe inúmeras fotos dele nas paredes, registrando muitos sorrisos e suas qualidades de dançarino.
JK modernizou, contudo, o estilo mineiro de fazer política.
Sempre achei que Minas Gerais é o Estado que mais herdou a cultura portuguesa em território nacional, aquela cultura introspectiva, intimista. Quando cheguei em Minas, ouvi que as coisas não se resolvem publicamente por aqui, mas nos corredores. Também percebia certa desconfiança em relação ao sucesso.
Desconfiança em relação a quem quer aparecer. No Vale do Jequitinhonha ouvi algo que me deixou desconcertado: “mineiro gosta de denúncia, mas desconfia de quem denuncia”. Para o mineiro, quem denuncia quer aparecer como alguém puro e pronto para dar o bote.
O estilo clássico de político mineiro se pauta pelo líder não se expor e ser cercado de “operadores da política”. O líder aparece, invariavelmente, como vítima, nunca como algoz.
Isso tudo é uma marca local. Mas, com JK alterou em parte esta cartilha.
Juscelino foi chamativo desde sua passagem pela prefeitura de Belo Horizonte, quando decidiu formar “comitês de bairro” para ouvir semanalmente as demandas dos moradores em cada localidade, ao mesmo tempo em que abriu avenidas radiais e asfaltou vias essenciais da capital, como a Afonso Pena e a Contorno. Pensou em marcos, como ao construir o conjunto arquitetônico da Pampulha, um símbolo da cidade.
Aliás, a construção deste conjunto arquitetônico acabou gerando uma crítica feroz da igreja católica e de lideranças conservadoras, por promover comunistas como Oscar Niemeyer e Cândido Portinari. Esta é a faceta que ele tentou encobrir e que efetivamente poucos agregam ao seu perfil: JK teve apoio e até mesmo alinhamento parcial com o PCB.
Ficou a marca de desenvolvimentista, promovendo o Estado como condutor do processo acelerado de desenvolvimento econômico do país (tanto em relação ao Plano de Metas, ao processo de implantação de indústrias de bens de consumo durável, como na construção de Brasília).
Também ficou conhecido pelo estilo de vida. JK trouxe certo ar de jovialidade que se amalgamou com um papel central de motor do desenvolvimento assumido pelo Estado nacional. De certa maneira, JK vendeu uma imagem – com as devidas proporções – que Kennedy procurou projetar: elegância e certa sensualidade. Este frescor trazia uma certa transgressão que acabava dialogando com setores populares e irritando setores mais conservadores da política e da vida social brasileiras. Funcionava como uma mensagem subliminar que atingia grande parte da população brasileira, considerada por muitos europeus como naturalmente sensual e transgressora (sem romper com a ordem estabelecida).
Um modernizante de novo tipo, já que foi chamado de “entreguista” por parte do PCB e do PSB que viam uma política de desenvolvimento que abria o mercado brasileiro ao capital e tecnologia estrangeiros, especialmente no setor automobilístico, atraindo multinacionais e gerando endividamento externo e inflação.
JK, na verdade, foi expoente de uma vertente pouco conhecida de Minas Gerais. O Colégio do Caraça foi um renomado colégio interno no Santuário do Caraça (MG), ativo de 1820 até 1968, formando quadros políticos focados no planejamento e desenvolvimento nacional. A intenção explícita deste colégio era a de formar a elite mineira e brasileira, dentro de um espírito cristão e que assumisse a liderança política nacional.
Neste sentido, o que se destaca é este tênue pêndulo por onde JK se moveu na sua vida pública, entre um pendor nacionalista e desenvolvimentista e certa heteronomia na construção das suas políticas.
Toda esta visibilidade lhe rendeu dificuldades que não são tão explícitas na política mineira. Durante o governo de JK, houve tentativas de golpes militares, principalmente a Revolta de Jacareacanga (1956) e a Revolta de Aragarças (1959), lideradas por oficiais da Aeronáutica e Exército que se opunham ao nacional-desenvolvimentismo. Aliás, Getúlio Vargas e JK sofreram o mesmo número de tentativas de golpe.
Porém, algo mudou na política mineira neste século 21. Tem relação com o advento das redes sociais e a criação de um ambiente eletrizado e violento a partir de 2015. Foram milhões de mensagens disparadas com o nítido intuito de excitar as redes sociais. Este expediente novo deste século possibilitou a fragmentação do trabalho de comunicação para cada nicho de indivíduos. Mecanismos denominados de metapolítica – em que se fala de algum interesse do receptor tocando ligeiramente em algum tema político, o que sugere nenhum compromisso ou interesse ideológico inicial – e o reforço a partir da taxa de cliques em matérias ou vídeos (“click-through”) geraram um estouro da manada a partir de grupos de interesses absolutamente díspares (de religiosas conservadoras a mulheres bem-sucedidas e independentes de direita, de hackers a milícias e assim por diante).
Alguns analistas sugerem que a excitação nas redes sociais se associou à outra novidade da política nacional: o país foi governado por forças de centro-esquerda com fortes vínculos com movimentos sociais progressistas e organizações de esquerda por mais de uma década. Se pensarmos num pré-adolescente de 10 anos quando Lula venceu pela primeira vez uma eleição presidencial, em 2002, ele estaria com mais de 20 anos quando Dilma Rousseff toma posse pela segunda vez. Um jovem que viveu toda sua vida adolescente sob um governo petista. Portanto, grande parte das mazelas do país poderiam ser naturalmente creditadas aos governantes petistas que, para este jovem, representavam os donos do poder.
Em Minas Gerais, este novo ambiente político gerou um político ultraconservador absolutamente distinto do padrão conhecido. O governador Zema é parte deste novo estilo que agride diariamente os opositores de maneira muito ofensiva, pública, exagerada.
Mas, a representação mais clara da novidade vem da geração “Zsus”. Este é o termo que ironicamente se emprega para citar a geração de jovens extremistas ao redor dos 30 anos que ingressaram na política no início da campanha para derrubada do governo Dilma Rousseff, em 2015, e que foram formados pelas orientações e dogmas de igrejas evangélicas. Nikolas Ferreira e Bruno Engler são os dois expoentes desta nova linhagem política que impulsionam um movimento que mistura redes sociais, pautas morais e anticomunismo.
Desta liderança surgiu o movimento “jovens republicanos MG” e “Direita Minas” que agregam influenciadores da Geração Z ultraconservadora, muitos deles, filiados ao PL e Partido Novo. Além desta frente partidária, atuam na eleição e comando de conselheiros tutelares, quadros de serviço público profissionalizados. Aqui, aparecem outras lideranças menos visíveis nacionalmente, como Luciana Haas, psicopedagoga que se envolveu com as manifestações que exigiam o impeachment de Dilma Rousseff e que criou a “Rede Estadual de Ação Pela Família”. Outro expoente desta jornada ultraconservadora de mães mineiras é Claudia Diniz, fundadora do “Mães Direitas”.
Há outros expoentes, como Uner Augusto, um dos fundadores do Movimento de Valores Pelo Brasil (Mova), que atua desde 2019 na divulgação de ideias em defesa da vida e da família. O Mova surgiu para oferecer a formação política para as pessoas que estão no movimento e criar estratégias políticas.
Assim, o legado de JK – e mesmo de Tancredo Neves – está ofuscado pela exuberância dessa nova geração de políticos ultraconservadores em Minas Gerais. São políticos novos que adotam mais o estilo paulista de agir que o da tradição mineira.
Acredito que este novo caminho foi aberto por Aécio Neves, logo após sua derrota à presidência da república, em 2014. Aécio quebrou a unidade que havia sido seu apoio político como governador no interior mineiro, articulando prefeitos e deputados experientes. Sua guinada à direita, se aproximando do MBL, desarticulou esta malha de lideranças conservadoras e tipicamente mineira que seu avô havia arquitetado, o que possibilitou a eleição do petista Fernando Pimentel. Desde então, a política mineira nunca foi mais a mesma.
JK, ao contrário, adotava uma postura pendular, não alinhada rigidamente.
Hoje, seria difícil enquadrar JK ideologicamente. Em termos normais, estaria no centro da política nacional. Entretanto, até o conceito de centro está mais confuso atualmente. Hoje, o centro político brasileiro tende a pender para forças e interesses políticos que tentaram dar o golpe em JK. Parte do Centrão tem um pé nas tradições da ARENA, o partido oficial da ditadura militar.
Esta dificuldade atual de definição precisa do que seria centro na política brasileira diz muito do momento que vivemos. O que é mais acentuado em Minas Gerais, um Estado que sempre se apresentou como matreiro e astuto e que agora é um dos territórios de proliferação de lideranças extremistas e orgulhosamente exageradas.

Escrito por:

Rudá Ricci, sociólogo, mestre em ciência política e doutor em ciências sociais. Ex-consultor da ONU e presidente do Instituto Cultiva. Autor, dentre outros livros, de "Desafios do Educador" (Editora Letramento) e "Fascismo Brasileiro" (Editora Kotter)

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