Portugal: um país de papelão
Após a denúncia de ONGs de que milhares de pessoas teriam sido assassinadas nas últimas semanas durante protestos em solo iraniano, a União Europeia declarou a Guarda Revolucionária do Irã como “organização terrorista”, além de aplicar sanções a vários funcionários de alto escalão do país, incluindo o ministro do Interior, Eskandar Momeni, o chefe da polícia e vários militares. O governo português apoiou a resolução.
Porém, é curioso que, para o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal, representado pelo ministro Paulo Rangel, Israel e os Estados Unidos sejam considerados “democracias consolidadas” e não organizações terroristas.
O exército israelense, responsável pelo assassinato em massa de mulheres e crianças na Faixa de Gaza, também mata no Líbano, país onde estive durante os bombardeios de 2024 e 2025, cuja parte considerável da população conta, até agora, os prejuízos da tragédia provocada por quem nunca respeitou o cessar-fogo. Já os Estados Unidos, há décadas, invadem e bombardeiam países, sequestram chefes de Estado, matam imigrantes e seguem sendo a única nação do planeta a ter usado armas nucleares.

Então, por que a Europa, assim como Portugal, tenta transmitir a ideia de que uma incursão contra o Irã terá relação com as demandas legítimas dos manifestantes que ocuparam as ruas de Teerã? Sabemos que pelo Estreito de Ormuz passa cerca de 20% do petróleo mundial. Um bloqueio de navios na região faria o preço do barril disparar em todo o mundo, elevando a inflação e aprofundando a crise econômica já vivida nos Estados Unidos. Cenário que também foi posto em cima da mesa antes e durante o último ataque estadunidense contra o Irã, em junho do ano passado.
Fica claro, assim, que a preocupação de Washington nunca foi com os trabalhadores iranianos, que, neste momento, sofrem com a alta dos preços de produtos básicos e com a desvalorização do Rial, a moeda oficial do país persa.
Tudo leva a crer que uma nova ofensiva dos Estados Unidos só não aconteceu por questões estratégicas como a citada acima, visto que as demandas que emergem de Teerã são, justamente, fruto de uma economia que sobrevive sob bloqueios econômicos impostos desde 1980 pela mesma Casa Branca.
Recordemos que a invasão da Venezuela, seguida pelo sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores, não aconteceu com o intuito de “libertar o povo” de uma “ditadura”, nem para acabar com o tal Cartel de los Soles, organização que o próprio Departamento de Justiça estadunidense afirmou não existir. Verifica-se o mesmo em relação ao Relatório Mundial sobre Drogas, publicado anualmente pelo Escritório das Nações Unidas.
Mesmo humilhada e ameaçada por Donald Trump e Marco Rubio, especialmente no caso da Groenlândia, a Europa insiste em seguir uma postura incompreensível ao classificar a Guarda Revolucionária Iraniana como “organização terrorista”, auxiliando, assim, um possível novo ataque de Trump contra o Irã. Decisão esta que coloca em risco os próprios interesses europeus e, consequentemente, os interesses dos portugueses.
Não podemos deixar de citar o caso da Alemanha, que, para agradar os Estados Unidos e justificar o apoio à guerra na Ucrânia via OTAN, adotou a narrativa falaciosa de responsabilizar a Rússia pela explosão dos gasodutos Nord Stream, em 2022. Essa posição prejudicou gravemente a indústria local e impactou a economia alemã, especialmente com a alta nos preços do gás após o corte do fornecimento russo, que era oferecido a um custo mais baixo.
Agora, como explicar que Portugal, com uma economia infinitamente menor que a alemã, continue a obedecer a ordens externas, à la “Corina Machado”, enquanto vê a sua população mergulhar em crises profundas na saúde, na educação e na habitação? São questões que parecem não ser centrais para os últimos governos de um país que ocupa a periferia do capitalismo europeu e oferece um dos salários mais baixos do bloco.
Tudo indica que o primeiro-ministro, Luís Montenegro, vive numa realidade paralela ou ignora as verdadeiras demandas da população, ao optar por políticas que ecoam o discurso da extrema-direita, liderada pelo candidato à presidência, André Ventura. Repete, insistentemente, que as ameaças à segurança dos portugueses vêm dos imigrantes, da Rússia, da ditadura venezuelana ou das barbas de Ali Khamenei.
Enquanto isso, Portugal enfrenta, neste momento, um estado de calamidade total, devido à ineficácia do governo em proteger a população das mudanças climáticas, um fenômeno que, mais uma vez, prova como o país permanece vulnerável e frágil como uma caixa de papelão.
Parafraseando o poeta e filósofo Aimé Césaire, Portugal tem sido mesmo indefensável.
Reprodução: Operamundi