Santarém em chamas
Tem mil indígenas, nesse momento, fechando o aeroporto de Santarém, no Pará, reação a uma desastrada operação de privatização das águas de três rios amazônicos – Tapajós, Madeira e Tocantins – de vital importância econômica e simbólica para os povos originários locais.
Mil indígenas, homens, mulheres e crianças, no mais corajoso levante jamais feito no Brasil contra essa excrescência criada no governo Fernando Collor de Mello e mantida, desde então, sob o cruel eufemismo de “Programa Nacional de Desestatização”. Esse esquema envergonhado de privatização, inadmissível sob todos os aspectos, está por trás da entrega do patrimônio público, nos últimos 30 anos, da Vale do Rio Doce à Eletrobrás, de Collor a Lula, passando por Fernando Henrique Cardoso, Dilma, Temer e Bolsonaro.
Ao decretar a privatização de três rios para garantir o escoamento de soja do agronegócio, esse abismo onde moram a destruição ambiental e os ratos do golpismo nacional, o governo Lula deu um passo em falso sem perceber que, ao contrário dos demais trabalhadores do País, os indígenas estão organizados, politizados e prontos para luta.
O fechamento do aeroporto de Santarém coroou um movimento de bloqueio que já dura 15 dias na BR 163 e na porta da Cargill, maior e mais poderosa multinacional do agronegócio, no mundo. Pneus e troncos de árvores contra a barbárie. Que outro nome pode ter a privatização de rios para beneficiar um setor que, em 2025, teve um aporte de meio trilhão de reais, de dinheiro público, pelo Plano Safra?
Em novembro de 2025, diante de indígenas Muduruku enfurecidos, na COP30, em Belém, Guilherme Boulos, ministro da Secretaria Geral da Presidência, prometeu realizar consulta pública para discutir a questão posta no decreto 12.600/2025, de privatização dos rios. Além de não fazer consulta nenhuma, o governo Lula acaba de lançar um
edital de dragagem no rio Tapajós, publicado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), no valor de R$ 74 milhões. Sem licenciamento ambiental, sem estudos de impacto e sem consulta às comunidades tradicionais.
Talvez seja o caso de o presidente Lula perceber, a tempo, onde essa sanha de privatizações, mascaradas em concessões e parcerias público-privadas, poderá levá-lo, em ano eleitoral.