Verissimo, o escritor que me fez amar os livros

30 de agosto de 2025, 17:00

Esse artigo não pretende traçar uma biografia de Luis Fernando Verissimo – isso deixo pra mídia em geral, que o faz fartamente nesse sábado, 30, com obituários “prontos” -, é só uma despretensiosa homenagem capturada da minha memória pessoal. Enquanto rascunho isso, o escritor, contista e desenhista gaúcho – acho que ele rivalizava com o Jaguar, outra perda recente, no que, bem-humorado, o Gilberto Maringoni, chamou carinhosamente de “o maior desenhista que não sabia desenhar do mundo” – link para o texto aqui – é velado na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Se não fosse o “cerimonial” a que se impõe a família – por ser uma figura pública -, acho que deveria ser velado em uma das livrarias independentes que sobrevivem em Poá, nos bairros do Centro Histórico, Bomfim e Cidade Baixa.

Me vi compelido a escrever essas poucas palavras porque o porto-alegrense Verissimo, filho do grande Erico Veríssimo, um dos maiores nomes da literatura nacional, foi quem me ensinou a amar os livros. E me capturou pelo humor refinado e sutil. Antes de ler seus livros, capitulei com seus contos inimitáveis na última página da Revista de Domingo do finado Jornal do Brasil, durante as décadas de 1970 e 1980 – que recortava e guardava. Veículo que, mais tarde, viria a ser, por oito anos, meu primeiro emprego como repórter. Quando entrei no velho JB, em 1988, para cobrir Constituinte, Verissimo acabara de voar para outras paragens, como o Estadão, onde passou a publicar crônicas e tirinhas humorísticas, além das colaborações permanentes no gaúcho Zero Hora. Muitos desses contos foram reunidos depois em livros – que devorei, um a um – , como “Comédias da vida Privada”. Ele tinha um jeito divertido e fácil que até uma criança era capaz de entender.

Eu o lia criança e adolescente, antes de entrar na UnB. Ainda na ditadura, que desafiava com personagens como “A velhinha de Taubaté”, que simbolizava a ingenuidade política, descrita como “a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo”. Alguns contos especiais mexeram comigo particularmente – e eu os decorei. “Pôquer interminável” foi um deles. “Ninguém sai. Ninguém sai.” E, acho que meu favorito, “O náufrago”, de um homem que, preso por anos em uma ilha, esculpira a mulher possível – e idealizada- na areia. “Um rosto bonito, cuidadosamente esculpido, e que ele retocava constantemente, consertando os estragos feitos pelos caranguejos e o vento. O rosto de uma mulher satisfeita. O rosto de uma mulher que o amava, que mal podia esperar pelas noites de paixão sob as estrelas, com ele.”

Recorte no conto “Pôquer interminável”, que cheguei a decorar de tanto ler. Reprodução.

Todos escritos com sua classe de sempre, mas debochando de situações bem peculiares do dia-a-dia. Ele me abalou de tal maneira, que o amor pela leitura virou também o amor pela escrita, o que me fez entrar no Jornalismo. Mais: sonhar, quem sabe, em ser um escritor de contos, como ele. Já passou. Mas, durante décadas, inspirado em seu estilo, mas, cuidadosamente, tentando criar o meu, comecei a escrever meus textos. Escrevi mais de cem, sob o codinome Caio Pano, parte deles publicados na extinta revista Tablado, pioneira no jornalismo cultural em Brasília, durante anos – que editava com meu irmão Paulo Henrique. Mas nunca realizei o sonho de transformar esse acervo em um livro de contos. Tinha uma realização pessoal em reler, fazer pequenas correções, mostrar para algumas poucas pessoas. Mas, publicar? Eu não sou o Verissimo. Deixa quieto no merecido anonimato.

  • Capa de um livro, já surrado, de Luiz Fernando Verissimo./Reprodução

Escrito por:

Jornalista há 40 anos, repórter e editor de grandes veículos - O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo, Correio Braziliense, Istoé - assessor de imprensa e ex-diretor de agências de comunicação corporativa. Trabalhou no Senado e na Prefeitura do Rio. Já colaborou em diversos sites. Ex-professor de Jornalismo da PUC-RJ.Premiado, entre outros, com Prêmio Esso, Embratel e Herzog.

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