Verissimos

30 de agosto de 2025, 17:47

Conheci, primeiro, o pai, Érico. Minha avó Rosires era apaixonada pela obra dele. Os dois não podiam ser mais diferentes, ela era de Sena Madureira, no Acre. Ele, de Cruz Alta, no Rio Grande do Sul. Ele morreu aos 70, em Porto Alegre. Ela, aos 90, em Salvador.

Ela me deu para ler “O Prisioneiro”, um livro curto e desgarrado das obras principais de Verissimo, o pai. Uma história angustiante que se passa em único dia, na Guerra do Viernã, onde um oficial americano mestiço vive o dilema ético – e urgente – de torturar ou não um prisioneiro vietcongue. Foi a chave que me levou a “O Tempo e o Vento”, que li, ao 16 anos, o primeiro tomo, “O Continente”, das mãos de minha avó, os demais, “O Retrato” e “O Arquipélago”, aos 17, na biblioteca do internato militar em que estudei, entre 1982 e 1984, em Barbacena, Minas Gerais. Duas mil e oitocentas páginas.

Quando entrei na universidade, aos 19 anos, eu tinha consumido boa parte da obra de Érico Verissimo, de “Solo de Clarineta” a “Incidente em Antares”, passando por “Um Lugar ao Sol” e “O Senhor Embaixador”.

Verissimo, para mim, era o pai, como uma vez disse, mas de forma canalha e covarde, Fernando Henrique Cardoso, incomodado com as críticas de Verissimo, o filho.

Luís Fernando Verissimo começou a entrar no meu radar na faculdade de jornalismo, em Salvador, quando passei a devorar jornais e revistas. Ele brilhava na Veja, quando dizer isso ainda não era um insulto. Ali, comecei a fazer uma imersão no mundo genial das crônicas e personagens que iriam, em poucos anos, conquistar o Brasil.

Aos poucos, deixei o pai de lado e passei a viver encantado pelo filho. Lembro, em uma viagem a trabalho para Montevidéu, pelo Jornal do Brasil, no início dos anos 1990, de ter tido um surto de gargalhadas dentro de um luxuoso avião da KLM, lendo um livro de crônicas de LFV, para espanto dos demais passageiros e do corpo de comissárias.

Em 1993, escrevi a ele uma carta pedindo um texto exclusivo para alavancar um projeto de jornal humorístico, o “Ponto G”, que eu e dois amigos estávamos bolando. Ele não tinha a mais leve ideia de quem eu era, mas mesmo assim, dois meses depois, me respondeu com um texto amável, pedindo desculpas pela falta de tempo e me autorizando a usar qualquer texto dele no tal projeto, que nunca saiu do papel. Eu tinha 27 anos, ele, 57, a idade de meu pai, então.

Ler Verissimo passou a ser uma obrigação não proclamada para todos os jornalistas decentes de minha geração. Na maioria das vezes, era a única parte do dia em que a alma de repórter encontrava um descanso intelectual pleno e restaurador.

De longe, acompanhei apreensivo os problemas cardíacos, o AVC, o silêncio das letras e das palavras.

A morte de Verissimo, quando enfim me alcançou, me encheu de uma tristeza previsível e me fez debruçar, choroso, sobre aqueles dias que bastava ler uma crônica dele, numa página de jornal qualquer, para o mundo todo parecer mais belo, nobre e divertido.

  • Luis Fernando Veríssimo, escritor e jornalista: “A morte é uma injustiça…Mas a gente tem que conviver com ela”. Foto: Liane Neves/Veja

Escrito por:

Jornalista, escritor e professor. Sócio fundador da agência de publicidade e marketing digital CobraCriada.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *