Até Alexandre de Moraes anda muito quieto

11 de outubro de 2020, 11:53

Todos os que se aliarem a Bolsonaro, sob quaisquer pretextos e em quaisquer áreas, sabem que se transformam em cúmplices do seu esforço para salvar a família do cerco do Ministério Público e da Justiça.

Bolsonaro está quase certo de que só não escapa do MP do Rio. O resto está sob controle ou a caminho de ser controlado.

Se o MP avançar, como deve ocorrer em relação às rachadinhas e à lavagem de dinheiro no Rio, Bolsonaro espera segurar o tranco lá na ponta de quem acolhe a denúncia e julga o processo.

Bolsonaro e os filhos fazem o que é lição básica do fascismo: asseguram-se de que, mesmo não podendo formular leis específicas que os favoreçam, as leis que existem devem ser aplicadas em favor da família.

Basta cuidar da estrutura de apoio que pode refugar qualquer ameaça ao seu pessoal. Fernando Haddad lembrou, em artigo sábado na Folha, que todo o esforço de Bolsonaro, depois do blefe do golpe, não é o de articular uma base política para governar.

Claro que isso é importante, mesmo que ele não governe. Mas a urgência de Bolsonaro é a construção de uma base no Judiciário, para tentar livrar os filhos da cadeia.

Enquanto Bolsonaro se esforça, como observa Haddad, “a República é corroída miseravelmente, em clima de harmonia entre os poderes”.

Bolsonaro ganhou abraços do centrão e de parte relevante do Supremo e já contava com os abraços dos empresários que ainda não negam apoio a Paulo Guedes.

O abraço, aliás, o apoio do Supremo é o mais decisivo. Mas há um detalhe conspirando contra os acertos.

É o que envolve as investigações da fábrica de fake news e do patrocínio e incitamento das manifestações pró-golpe. São questões levadas adiante pelo ministro Alexandre de Moraes.

Moraes anda quieto e há horas ninguém mexe com os dois assuntos, depois do susto com buscas e apreensões que ameaçaram chegar perto dos garotos. Mas isso foi em 27 de maio.

No dia 16 de junho, na última ação que abalou os bolsonaristas, Moraes determinou a quebra do sigilo bancário de 11 suspeitos de participação nas manifestações pró-ditadura.

Bolsonaro disse que ficaria de tocaia, como se estivesse numa emboscada. Só para saber até onde o Supremo avançaria sobre seus aliados e então dar o bote.

Como? Nunca vai se saber, porque agora ele é amigo de todo mundo.

Depois disso, nada mais aconteceu. No próximo sábado, completam-se quatro meses em que nada, absolutamente nada, acontece publicamente nas investigações que envolvem os filhos de Bolsonaro.

Vivemos sob o clima dos abraços e das alianças com o centrão. Nem no Tribunal Superior Eleitoral se fala mais nos processos que ameaçariam de cassação a chapa Bolsonaro-Mourão.

A sensação é de que Bolsonaro tem a situação sob controle, sem a necessidade de preparar emboscadas.

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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