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O desprezo de Bolsonaro e Trump pelas vítimas do coronavírus

25 de maio de 2020, 21:17

No último final de semana, quando os Estados Unidos se aproximavam dos 100 mil mortos por coronavírus, o presidente do país, Donald Trump, saiu para jogar golfe. Sem máscara, Trump estava sozinho no carrinho, mas deu as tacadas ao lado de três parceiros, na maior normalidade, como quem dissesse: “a vida continua”.

O que aumentou a indignação generalizada é que, em 2014, Trump havia usado o twitter para criticar o então presidente Barack Obama por ir jogar golfe durante a epidemia do vírus Ebola, que teve um total de 11 casos no país e matou exatamente duas pessoas.

Trump chegou a dizer que Obama deveria deixar o golfe de lado para “manter o foco” no combate ao Ebola e, durante a campanha, prometeu que não iria jogar se fosse eleito. “Eu amo golfe, mas se estivesse na Casa Branca, não acho que veria Turnberry de novo. Não acho que veria Doral de novo”, disse, se referindo a seus campos na Escócia e Miami. “Acho que não veria nada, eu só quero ficar na Casa Branca trabalhando duro.” Na verdade, em três anos como presidente, Trump já foi jogar golfe duas vezes e meia a mais do que Obama em oito anos.

Da mesma forma, há duas semanas, no dia em que o Brasil completava 10 mil mortos pelo coronavírus, Bolsonaro saiu para se divertir andando de jet ski no Lago Paranoá. No último sábado, 23 de maio, com 22 mil mortes registradas, Bolsonaro comeu cachorro-quente numa carrocinha de rua em Brasília e, no dia seguinte, compareceu a mais uma aglomeração de seguidores em frente ao Palácio do Planalto sem usar máscara, descumprindo a lei: no Distrito Federal, o uso de máscara é obrigatório e a multa para quem não usar é de 2 mil reais.

No vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril, revelado na semana passada, Bolsonaro falou a palavra “bosta” sete vezes e nenhuma a palavra “pandemia” ou “coronavírus”. Em duas horas, o presidente cita “Covid-19” apenas uma vez, assim como “hemorroidas”. “Merda” ele falou cinco vezes e “porra”, oito.

Bolsonaro bateu na mesa várias vezes durante a reunião, mas para exigir que seus subordinados façam alguma coisa contra os prefeitos que decretarem a prisão de quem descumprir a quarentena. Em vez de, como qualquer brasileiro, demonstrar tristeza ao ver as cenas das covas coletivas abertas na capital do Amazonas, o presidente mostrou irritação… com o prefeito da cidade. “Um bosta de um prefeito lá de Manaus agora, abrindo covas coletivas. Um bosta”, disse.

Diante da constatação óbvia de que estão se lixando para os mortos, Trump e Bolsonaro respondem acusando jornais e jornalistas de serem “de esquerda”, assim como disseram em uníssono que o coronavírus era só uma “gripezinha”

A imprensa norte-americana tem criticado o fato de Trump continuar a dar pouca ou nenhuma importância ao que está acontecendo no país, campeão mundial de coronavírus. Mesmo com 1,7 milhão de cidadãos infectados, o presidente dos EUA ainda anda para cima e para baixo sem máscara. Trump tuíta sem parar, mas não dá nenhum sinal de abatimento pelos mortos que se acumulam.

A mídia brasileira e a internacional vem dizendo o mesmo sobre Bolsonaro: que tem sido, desde o princípio, relapso, desleixado, negligente com uma doença mortal. Diante da constatação óbvia de que estão se lixando para os mortos, Trump e Bolsonaro respondem acusando jornais e jornalistas de serem “de esquerda”, assim como disseram em uníssono que o coronavírus era só uma “gripezinha”.

É sintomático que os dois baluartes da extrema direita no Brasil e nos EUA não demonstrem solidariedade ou compaixão pelos que estão morrendo na pandemia e estejam interessados apenas na economia. Bolsonaro volta e meia repete que sua defesa da volta ao trabalho em plena quarentena é para “proteger os mais pobres”. Mas desde quando a extrema direita se preocupou com os pobres? Se fosse verdade, o presidente não estaria querendo reduzir os 600 reais que estão sendo distribuídos a conta-gotas aos trabalhadores informais a título de auxílio emergencial.

Com quem os cidadãos de um país podem contar se seus próprios presidentes não parecem se importar se eles estão morrendo aos milhares? Mais: que tipo de ser humano sente vontade de jogar golfe ou andar de jet ski enquanto tanta gente morre?

Com quem os cidadãos de um país podem contar se seus próprios presidentes não parecem se importar se eles estão morrendo aos milhares? Mais: que tipo de ser humano sente vontade de jogar golfe ou andar de jet ski enquanto tanta gente morre? A falta de empatia, a ausência de remorso, a irresponsabilidade, o desrespeito pela segurança própria ou alheia, a irritabilidade, a agressividade, a dificuldade de se adaptar às normas sociais… Tudo isso une Bolsonaro e Trump.

Sabe quem também possui estas características? Os psicopatas.

Escrito por:

Cynara Menezes é baiana de Ipiaú e tem 53 anos. Formou-se em jornalismo pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) em 1987. Desde então, percorreu as redações de vários veículos de imprensa, a começar pelo extinto Jornal da Bahia: Jornal de Brasília, Folha de S.Paulo, Estadão, revistas IstoÉ/Senhor, Veja, Vip, Carta Capital e Caros Amigos. Atualmente se dedica com exclusividade a seu site Socialista Morena. É autora dos livros Zen Socialismo (os melhores posts do blog Socialista Morena), pela Geração Editorial, O Que É Ser Arquiteto, com João (Lelé) Filgueiras, e O Que É Ser Geógrafo, com Aziz Ab’Saber, os dois últimos pela editora Record.

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