A tortura de Gregório Bezerra, dia da vergonha e da covardia.

2 de abril de 2021, 11:55

Em um dia 2 de abril feito hoje, a manhã transcorreu banhada de sangue no bairro de Casa Forte, no Recife. Dois dias antes, a Democracia brasileira era estuprada e o Brasil iniciava um período de trevas que duraria 21 anos e deixaria marcas profundas na vida do País. Eram os primeiros dias da quartelada que tirou do poder o presidente João Goulart e entregou o poder aos militares. O golpe militar, que começou em 31de março de 1964, consolidando-se no dia seguinte, institucionalizaria o autoritarismo, as prisões sem amparo legal, as torturas, os assassinatos, os desaparecimentos de políticos e opositores. Começava a ditadura militar.

Aquela manhã, data seguinte ao “dia da mentira”, ficaria na memória dos pernambucanos como “dia da vergonha”.  Era entregue ao Exército o prisioneiro político mais procurado pelos militares, o líder comunista Gregório Lourenço Bezerra, ícone do movimento no Nordeste, protagonista, no Estado, do levante comunista de 1935. Desde então, por sinal, ele era seguido pelas forças de segurança, mais ainda naqueles dias turbulentos de 64.

Historiadores sustentam que Gregório tinha seus passos rigidamente seguidos pelos militares e pelo DOPS-PE, o que o levou a ser uma das primeiras capturas “importantes” do golpe em Pernambuco, junto com o governador Miguel Arraes – apeado do Palácio do Campo das Princesas, no fatídico Primeiro de Abril, Arraes negou-se a qualquer tipo de negociação e fez questão de deixar o Palácio pela porta da frente, direto para a Casa de Detenção (hoje Casa da Cultura), de lá para o presídio de Fernando de Noronha, de onde seguiu para o exílio na Argélia. Mas, embora igualmente importante, esta é outra história.

Gregório Bezerra foi preso em terras da Usina Pedrosa, próxima do município de Cortês, zona da mata pernambucana. Liderados por donos das terras, como o usineiro José Lopes de Siqueira Santos, da Usina Estreliana (Ribeirão), vários empresários do setor canavieiro, importante braço armado do golpe militar, queriam fazer justiça com as próprias mãos. Mas, Gregório teria que ser entregue ao Exército, que não iria abrir de exibir em público um troféu daqueles, inimigo histórico número um de vários militares golpistas, desde 1935. Não bastaria prender, torturar ou até matar. Era importante mostrar, fazer do ato covarde um circo de horrores.

Foi o que aconteceu. Diante de usineiros desolados por não acabarem ali mesmo o serviço, Gregório Bezerra foi levado de Cortês pelos militares até o Forte das Cinco Pontas, no bairro de São José. De lá, seria conduzido ao Quartel de Moto-mecanização do Exército, em Casa Forte, zona norte do Recife, por um oficial do Exército e mais três algozes, colaboradores voluntários do golpe: um militar reformado em 1951, Artur Bruno Schwambach, o comerciante Elson Pinto Teixeira Souto e o agente do DOPS-PE Cristóvão Cavalcanti Moreira.

Os três escalados para a empreitada, os mesmos que serviriam de testemunhas de acusação do inquérito aberto contra o líder comunista, entregaram Gregório ao coronel Darcy Ursmar Villocq Vianna, comandante da unidade e protagonista de uma das cenas de tortura mais cruéis e funestas ocorridas ao longo do período ditatorial (1964-1985). Gregório foi amarrado com cordas, pelo pescoço, com três pontas puxadas ao mesmo tempo, por soldados. Na rua começou o espancamento. Foi agredido com paus e canos de ferro, inclusive na cabeça. Seus pés foram mergulhados em ácido e, em seguida, foi obrigado a caminhar sobre britas.

Trecho do depoimento de Gregório, ainda na prisão: “Uns três ou quatro sargentos do Parque de Moto-mecanização, instrumentos inconscientes daquele verdugo (Villocq), completavam o espancamento com pontapés e socos por todos os lugares do meu corpo. As pancadas se sucediam no estômago, no rosto, nos rins, nos testículos, nas costas, nas pernas. Um grupo de sargentos e soldados, ao longe do pátio do quartel, assistia aquele quadro de covardia e sadismo sem precedentes, silenciosamente.”

As sevícias foram assistidas pelos transeuntes e moradores de Casa Forte e só pararam depois de freiras de um convento próximo fazerem queixa ao próprio Exército e à esposa do vice-governador Eraldo Gueiros Leite, no exercício do governo após a queda de Arraes. À noite, as cenas foram exibidas no noticiário da TV Jornal do Commercio Canal 2, imagens que se perderam no tempo. Gregório foi trancado em uma cela, muito ferido e preso a correntes. No xadrez continuou apanhando de Villock e seus homens. O comandante gritava “Eu sou ibadeano” (do IBAD – Instituto Brasileiro de Ação Democrática, entidade que atuou no golpe) e seus soldados repetiam, em coro: “Nós também!”. Cenas inacreditáveis se tudo não constasse do próprio inquérito policial militar.

Gregório Bezerra, o primeiro torturado da ditadura militar brasileira, ficou preso até 1969, quando foi trocado, junto com outros 13 presos políticos, pelo embaixador dos Estados Unidos, Charles Burck Elbrick. Voltou ao Brasil em 1979, com a anistia. Morreu no Recife, aos 83, em 1983. A ele, o poeta Ferreira Gullar dedicou um poema, chamando de “homem feito de ferro e de flor”.

Gregório ficou na História. Seus torturadores, não. Ninguém se lembra deles. Nem mesmo os que hoje “festejam” o “movimento de 31 de março”, como alguns militares insistem em classificar um ato que inaugurou um dos mais brutais períodos que o País já viveu.

Escrito por:

Jornalista e compositor, com passagem por veículos como o Jornal do Commercio (PE) e as sucursais de O Globo, Jornal do Brasil e Abril/Veja. Teve colunas no JC, onde foi editor de Política e Informática, além de Gerente Executivo do portal do Sistema JC. Foi comentarista político da TV Globo NE e correspondente da Rádio suíça Internacional no Recife. Pelo JC, ganhou 3 Prêmios Esso. Como publicitário e assessor, atuou em diversas campanhas políticas, desde 1982. Foi secretário municipal de Comunicação. Como escritor tem dois livros publicados: "Bodas de Frevo", com a trajetória do grupo musical Quinteto Violado; e "Onde Está Meu Filho?", em coautoria, com a saga da família de Fernando Santa Cruz, preso e desaparecido político desde 1973. Como compositor tem dois CDs autorais e possui gravações em outros 27 CDs, além de um acervo de mais de 360 canções com mais de 40 músicos parceiros.

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