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A busca de sentido

3 de março de 2026, 08:17

Em 2025, os indicadores sociais e econômicos do Brasil foram muito positivos. Contudo, pesquisas de opinião realizadas no período não revelaram sensação de bem-estar da população trabalhadora. A tese deste artigo é que é preciso ir além: nos tempos atuais, é preciso dar sentido à existência que projete um futuro mais alentador.

POR Rudá Ricci

Viktor Frankl é um psicólogo conhecido, autor da Terceira Escola Vienense de Psicoterapia, depois de Freud e Adler. Viktor foi prisioneiro no campo de concentração de Auschwitz, entre 1942 e 1945.
Em seu livro “Em busca de Sentido” relata o drama da vida no campo de concentração pelo olhar da psicologia. Nele, Viktor repete a frase “Quem tem um ‘porquê’ para viver, consegue suportar quase qualquer ‘como'”.
Por um outro ângulo, o autor explica o sentido da frase quando relata a sensação de ser joguete num campo de concentração, de não conseguir assumir o seu próprio destino. A apatia e o sentimento de injustiça tomam sua alma. Daí nasce uma irritabilidade constante, incentivada pela fome e falta de sono que acometia os prisioneiros.
Como se tratava de uma situação limite, fico imaginando se não há um gradiente de sentimentos de quem se vê enredado num mundo de certa maneira enclausurado em condições de vida próximos às de seus pais ou até avós. Uma sensação de impotência que, por vezes, extravasa para a raiva latente.
A tese central da psicoterapia desenvolvida por Viktor Frankl, a logoterapia, se baseia justamente na busca vital de sentido da vida para as pessoas e, assim, conseguir superar ou encaixar o sofrimento num roteiro de vida. O sofrimento passa a ser suportável e até administrável se o sentido chega à compreensão.
O que se apresenta como angustiante é a “provisoriedade sem prazo”, ou seja, uma condição sem superação visível no futuro. Uma vida em cativeiro simbólico, mesmo uma vida mais ou menos, morna, sem grandes perdas, mas também sem grandes ganhos e orgulhos. Porque encarar a vida exclusivamente pelo passado é se sentir no passado, como um zumbi. Mergulhado nesta vida circular, a realidade vai sendo desvalorizada cotidianamente.
Esta explicação existencial parece dar uma luz ao cenário político-social que atravessa o Brasil. As camadas populares vivem uma situação de pleno emprego, com inflação controlada, com um governo que apresenta capacidade de contornar problemas econômicos e políticos graves – como no caso do tarifaço empreendido por Trump -, mas que não projeta um futuro mais promissor que destaque a vida de cada um com brilho, com superação da condição de subordinação social.
Viktor descreve o que ocorreu de inusitado com alguns prisioneiros após serem libertados dos campos de concentração. O que ele denomina de “descompressão repentina” causada pela libertação no fim da guerra gerou em alguns uma revolta por terem sofrido por tanto tempo, um sofrimento sem sentido. Muitos se exaltaram, se tornaram agressivos e até mesmo intolerantes. Como se o mundo fosse culpado pelos anos perdidos e sofridos. A amargura e a decepção – já que seu calvário não gerou um status de herói ao retornar à vida antiga – não lhe dá a resposta do sentido de sua existência. Assim, a sensação é a de que, novamente, o destino lhe escapa e se impõe sem sua vontade ou autoria.
Fico pensando se esta “frustração existencial” não indicaria uma quadra da história de parte dos trabalhadores brasileiros que já passaram pelos programas sociais e de renda mínima, que já viveram a gangorra de governos lulistas e bolsonaristas e que contabilizam uma certa estagnação em suas vidas. Se este for o caso, não se trata de mero ganho material, mas de busca de sentido da vida, de autoria, de distinção social. Não mais alguém na multidão, mas alguém que ele próprio admira, alguém que seus pares reconhecem seu sucesso e predicados.
A frustração pode levar ao estado de tédio e Eric Fromm já descreveu como quem vive este estado é facilmente capturado por carismáticos oportunistas que o convidam a uma aventura perigosa e antissistêmica como foi o 8 de janeiro. Viktor Frankl sugere que o vazio existencial, não raro, se transmuta em vontade descompensada pelo poder, uma explosão de desejo para preencher a vida morna.
“É preciso viver mais além”. Quando li esta frase num relato de outra autora, a antropóloga francesa Nastassja Martin, percebi a radicalidade da busca do sentido da existência sugerida por Viktor. Nastassja sofreu um ataque de um urso quando estudava uma população indígena da Sibéria. Sua longa recuperação física foi descrita num livro (“Escute as feras”) que retrata uma epifania sobre sua personalidade e sua profissão de antropóloga. Tudo pode ser resumido como a busca constante do sentido da vida, algo que incluiu o ataque que sofreu.
Numa leitura muito especial, típica de uma antropóloga marcada pela imersão etnográfica que procura compreender a cultura do outro até chegar à beira da própria aculturação, a narrativa vai se aproximando de uma simbiose existencial.
Nastassja cita o animismo por diversas vezes ao longo de sua narrativa. Trata-se de uma crença antropológica de que todas as formas da natureza possuem uma “alma conectada ao mundo. Ailton Krenak discorre sobre como sua nação indígena percebe filiações em montanhas que formam uma espécie de “família”. Muitas culturas orientais são marcadas pela visão holística que conecta pessoas e coisas do mundo num sistema único.
Em termos antropológicos, a autora francesa sustenta identidades e presenças múltiplas que habitam uma mesma pessoa e que subvertem a noção de identidade unívoca, uniforme e unidimensional.
Marcada por uma experiência tão dramática e fronteiriça com a morte como a de Viktor, Nastassja busca um sentido para ter vivido ao ataque do urso e à sua sobrevivência improvável.
Cito uma das passagens desta narrativa e busca:
“Abro meu caderno preto, fico rabiscando até o dia nascer. Nessa noite, escrevo que é preciso acreditar nas feras, em seus silêncios, em seu comedimento; acreditar nos sinais de alerta, nas paredes brancas e nuas, nos lençóis amarelos desse quarto de hospital; acreditar no retraimento que trabalha o corpo e a ama num não-lugar que conserva sua neutralidade e sua indiferença, sua transversalidade.”

Há algo de realismo mágico nesta redação que destaquei, mas que revela uma busca de sentido, mesclando situações distintas, presente e passado e transversalidades. Novamente, a busca de sentido para conviver com o não-explicável.
Nastassja prossegue e procura se convencer de um ajuste de rumo:
“Meu corpo se tornou um ponto de convergência. É essa verdade iconoclasta que precisa ser integrada e digerida. Preciso desarmar a animosidade dos fragmentos dos mundos entre si e em si mesmo para levar em conta somente sua alquimia futura.”
Embora a redação pareça tomada por uma vertigem da autora, o que ressalta é como o mundo de quem não se vê como autor dos acontecimentos se estilhaça, se fragmenta, exigindo um esforço para construir uma “alquimia” que dê sentido ao passado e presente que dê um mínimo de garantias para o controle do que virá adiante. Será que esta é a sensação que toma as classes populares brasileiras num mundo desencontrado e numa vida morna em que estão metidas?
Será que nós, analistas sociais e políticos, precisamos desse olhar antropológico para compreender que a vida social é mais que uma garantia de vida material razoável? Que o sentido para quem vive é um futuro diferente e mais espetacular que o atual?
A dúvida é se não estamos sugerindo inconscientemente que as classes populares devem ter uma vida tranquila e estável, quando na verdade todos desejamos algo mais?
Daí a frase que bateu fundo. Nastassja crava: “é preciso viver mais além.”

Escrito por:

Rudá Ricci, sociólogo, mestre em ciência política e doutor em ciências sociais. Ex-consultor da ONU e presidente do Instituto Cultiva. Autor, dentre outros livros, de "Desafios do Educador" (Editora Letramento) e "Fascismo Brasileiro" (Editora Kotter)

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