A demagogia como isca das lives
Nos últimos dias, o ICL (Instituto Conhecimento Liberta) divulgou duas matérias sobre o pretenso envolvimento do DCM (Diário do Centro do Mundo) com um emissário do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
A acusação gerou certa comoção entre seguidores de canais e lives consideradas do campo progressista.
Acredito que já é hora de aprofundarmos o que se entende por canais progressistas e a concepção de ancoragem e edição das lives que eles produzem. Este aprofundamento se faz necessário porque muitos desses canais não são progressistas e seus proprietários, muito menos. Mas, até aí poderia se tratar de um mero mercado em busca de um nicho de audiência (este sim, progressista). O problema é que se um canal não é progressista ele não adota uma concepção de comunicação progressista. E aqui entra o complicador. Muitos desses canais que são definidos como progressistas adotam um linha de comunicação demagógica, se fazendo passar como íntimos do público que os assiste. Aqui parece residir um problema grave.
Comecemos com o conceito de progressismo. O progressismo se relaciona com a pauta social. Na prática, envolve programas e ações que promovem o bem-estar social. Este é um campo bem amplo, que vai dos socialistas aos liberais progressistas, passando pelos católicos (incluindo aqueles vinculados à doutrina social da igreja). O segmento conservador não faz parte deste agrupamento, mas não é efetivamente oposicionista. Desde os textos e orientações de Edmund Burke, os conservadores defendem mudanças graduais, preservando o que o “tempo demonstrou ser eficaz e correto”. Já racistas, misóginos, reacionários e afins não estariam de maneira alguma nesta condição de progressistas.
Acontece que a partir de 1994, os partidos mais à esquerda do espectro político brasileiro, liderados pelo lulismo, passaram a priorizar a disputa no campo institucional e, nele, os embates eleitorais. A partir daí, ocorreu um afastamento dos movimentos de base, uma desmontagem dos processos deliberativos participativos na tomada de decisão das agremiações e, principalmente, deixaram de realizar ampla formação política dos filiados e simpatizantes.
Este último aspecto foi a porta aberta por onde entraram canais que produziam lives e que foram, na sua maioria, criados por empresários ou empreendedores pouco afetos ao campo progressista até então.
O que estou sugerindo é que a base militante e simpatizante ficou gradativamente órfã a partir do final da década de 1990 e início do novo século. A situação ganhou ares de angústia generalizada a partir do ataque frontal provocado pela Operação Lava Jato que desaguou no impeachment de Dilma Rousseff e prisão de Lula. Com a vitória eleitoral de Jair Bolsonaro em 2018, a angústia, muitas vezes, transbordou para a paranoia. É aqui que os canais citados ocuparam o espaço vazio, informando, excitando e até mesmo unificando a base militante e simpatizante. Os canais perceberam o nicho de mercado em busca de alento e informações que não fossem da extrema-direita.
O problema para os canais em tela – nem todos meramente comerciais, mas todos com declarada intenção de busca de seguidores que logo se constituíram em financiadores – é que grande parte não tinha uma cultura progressista. Sua cultura era mercadológica, ou seja, criavam o desejo no consumidor. Era preciso, então, criar um fetiche que galvanizasse este público órfão o transformando em seguidores ativos, militantes do próprio canal.
O modelo de comunicação que vários canais adotaram foi, então, o demagógico. Longe de ser reflexivo, o modelo empregado era carregado de ataques e até ofensas gratuitas, demonstrando um poder político que não era tão evidente. A base militante e ativista se encantou. Com custo muito baixo, os canais não esmeraram por apuração de notícias ou aprofundamento de temas. Da própria residência dos promotores dos canais, acionavam plataformas extremamente baratas a partir de câmeras instaladas nos seus laptops e agendavam uma programação simplória que consistia em destaques de matérias publicadas na grande imprensa – que cinicamente atacavam diariamente – e comentários sem muito lastro ou preocupação profissional. Aos poucos, dado o aumento de audiência, passaram a convidar juristas, economistas, políticos e personalidades que desfilavam nas lives para dar consistência às opiniões dos âncoras e analistas permanentes dos canais. Não havia nenhum investimento ou esmero na produção das lives. Os convidados passaram a ser classificados como os que atraiam mais atenção e superchats o que levou muitos canais a repetir os mesmos especialistas em inúmeras lives.
Os superchats passaram a ser fontes seguras de doações da audiência. Superchats são mensagens pagas e destacadas durante transmissões ao vivo que permitem que os espectadores apoiem os criadores dos canais e lives e ganhem visibilidade no chat. Os valores variaram de 5 a 50 reais, sendo que as maiores doações recebiam destaque dos âncoras que liam suas mensagens ao vivo.
Em seguida, vários canais criaram sites dedicados e os acessos passaram a gerar recursos pagos pelas plataformas de streaming.
O que nunca ficou claro era a intenção desses canais. Estavam se tornando um negócio próprio, focado no nicho de militantes progressistas desgarrados? Eram paraorganizações políticas? Os seguidores tinham algum poder de influência ou eram espectadores passivos em meio ao tiroteio e até campanhas que os canais, vez por outra, incentivavam?
Estas questões nunca foram debatidas publicamente justamente porque a maioria dos canais estimulavam a fidelização de seu público. Até que a fase de ouro – do período da pandemia ao início do terceiro governo de Lula -, entrou em colapso. Em outro texto, relatei a queda brusca e constante de audiência das lives desses canais, com exceção do ICL.
Num primeiro momento, vários canais buscaram guarida na Secretaria de Comunicação (SECOM) do governo federal. Corretamente, esta instância governamental adotou critérios técnicos, frustrando em parte as expectativas. Houve até uma tímida reação de alguns canais que passaram a criticar o volume de anúncios governamentais na grande imprensa.
Outro problema que passaram a enfrentar foi a ascensão de novos canais, mais profissionalizados e que passaram a fazer investimentos em contratações, estúdios e edição de matérias. Alguns desses novos canais chegaram a promover viagens de jornalistas para o exterior, cobrindo acontecimentos internacionais de destaque.
O resultado foi a desorientação dos antigos canais que trabalhavam com o nicho do público progressista. Algumas lives e sites passaram a adotar uma linha editorial sensacionalista. Outros, reforçaram o tom de agressão e fulanização da análise política.
É nesta esteira que o ICL publicou as duas matérias já citadas no início deste texto. As matérias podem ter sido motivadas como movimento defensivo. Mas, também, podem ser uma crítica velada à linha editorial e desencontro entre o que o canal criticado prega em público e o que pretensamente faria no privado. Não sabemos os objetivos das matérias.
O importante, contudo, é compreendermos que um ciclo aberto a partir do macartismo lavajatista parece ter se fechado. O que nos leva, novamente, ao tema da necessidade de uma imprensa alternativa, à esquerda, de massas que seja profissional e que se sustente sem a ânsia mercadológica que resvala na manipulação do público leitor.
Há anos esta necessidade remói e é repisada no campo progressista sem qualquer resultado concreto. O embate entre ICL e DCM abre uma possibilidade de ouro. Nem tanto pelo embate em si, mas pelo que ele trás à tona.