Foto de Gema Cortes/OIM

A responsabilidade dos EUA na tragédia migratória da Venezuela, por Luís Nassif

6 de janeiro de 2026, 10:30

A explosão da migração venezuelana tem um responsável claro e pouquíssimo mencionado: os Estados Unidos e o bloqueio econômico imposto ao país.
A crise começou um pouco antes do bloqueio, devido à queda mundial dos preços das commodities – movimento que também enfraqueceu politicamente o governo Dilma. Mas o pontapé final veio do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos. Assim como Cuba, alvo de um bloqueio fatal que impede qualquer sinal de recuperação econômica.

A política de Segurança Nacional norte-americana age assim. Primeiro, trate de inviabilizar governos não alinhados com restrições econômicas. Essas restrições erodem a popularidade interna. O passo seguinte é turbinar o partido alinhado com os EUA ou, em caso mais drástico, preparar golpes de Estado e, em última instância, organizar a invasão bélica.

Aviso aos idiotas da polarização: ao apontar a ação deletéria dos EUA, não se está alardeando virtudes políticas do chavismo.

Vamos por partes.

Peça 1 – a crise bancária

Hugo Chávez assumiu o poder no bojo de uma crise bancária-econômica que derrubou o PIB da Venezuela em vários pontos percentuais. Estive no país na ocasião, preparando um documentário para a TV Bandeirantes. No poder, havia uma espécie de direita um pouco mais esclarecida.

O presidente da República era Rafael Caldeira. O Ministro da Economia era Luiz Raul Matos Azócar, que parecia uma figura racional. Não foram capazes de enfrentar o poder político das famílias que dominavam o sistema bancário.

Hugo Chávez era um militar que se transformou na única voz de resistência ao governo. Na época que estivemos por lá, os setores cultos do país – Universidades, intelectuais – o tratavam como figura folclórica.

Peça 2 – o governo Chávez

No início do governo de Hugo Chávez (1999–2002), ele implementou um pacote de políticas tipicamente populistas, no sentido clássico do termo: liderança carismática + apelo direto ao povo + ruptura com elites tradicionais + uso intenso do Estado. Com discurso de refundação nacional e gasolina política do petróleo, Chávez acelerou na curva. 

Hugo Chávez chega ao poder após uma crise econômica prolongada, descrédito total dos partidos tradicionais, aumento da pobreza e da desigualdade e os ecos do trauma social do Caracazo – uma explosão popular de descontentamento contra um plano econômico terrivelmente anti-social, e que resultou na repressão e morte de mais de mil manifestantes.

Eleito, Chávez conquistou rapidamente a popularidade em cima de um conjunto de medidas de cunho social.

1. Refundação institucional via plebiscito

Logo em 1999, Chávez convocou referendo popular, Assembleia Constituinte, nova Constituição Bolivariana

Passou a falar diretamente com o povo, fortalecendo o Executivo, ampliando os poderes presidenciais, definindo um novo desenho de Estado, sob liderança personalista.

2. Discurso anti-elite e anti-oligarquia

Chávez construiu um nós contra eles explícito, favorecido por uma contingência histórica: a Venezuela tinha a pior elite econômica de toda a América Latina. E a opinião não era de um guerrilheiro, mas de Nelson Rockefeller quando, a pedido, conseguiu da família o comando da Standard Oil venezuelana.

Houve uma polarização moral, não apenas política, que mobilizou as bases populares.

3. Expansão imediata do gasto social

Antes mesmo das grandes “missões” (que viriam depois), houve  aumento do gasto público, programas emergenciais em saúde e educação, maior presença do Estado em bairros pobres

Tudo isso ancorado na renda do petróleo, com pouca preocupação inicial com sustentabilidade fiscal. Reside aí o primeiro grande erro. Não procurou industrializar o país, nem garantir uma produção agrícola sustentável. Importavam-se até utensílios domésticos.

4. Controle político da PDVSA (o petróleo)

Aí começou o modelo que, anos depois, serviria de inspiração para Olavo de Carvalho e Eduardo Bolsonaro, conforme exprimiram várias vezes no X: a coopgtação dos militares e da população para que ficassem subordinadas diretamente ao bolsonarismo, na forma de milícias. Nos seus escritos, eles enalteciam o modelo venezuelano, apenas ressaltando que, no caso brasileiro, seriam milícias “do bem”.

A arma central foi a PDVSA, subordinada diretamente ao Executivo. Foi reduzida a autonomia técnica da empresa.qie se tornou uma extensão do orçamento.

5. Comunicação direta e permanente

Desde o começo, Chávez recorria a discursos longos em cadeia nacional, contato direto com a população, uso intensivo da retórica emocional. Enfim, uma liderança sem intermediários.

6. Militarização simbólica do governo

Ex-tenente-coronel, Chávez, assim como Bolsonaro, levou militares para cargos civis, resgatou símbolos das Forças Armadas, vinculou a revolução à ideia de “missão histórica”

Peça 3 – erros internos

Esses fatores existiam antes do grande cerco internacional e já explicam boa parte da crise inicial.

O populismo estreito de Hugo Chávez provocou várias vulnerabilidades no país. Havia uma dependência extrema do petróleo, que respondia por mais de 95% das exportações. Não montou nenhum fundo anticíclico, de tal maneira que, quando o preço do barril caiu, em 2014, não havia plano B.

Após a greve de 2002-2003, houve a politização ampla da PDVSA, com demissões em massa de técnicos experientes, queda de investimentos, manutenção e governança.

Houve congelamento de preços, sistemas de múltiplos câmbios e gastos crescentes financiados por emissão monetária.

Mas não necessariamente o colapso absoluto observado depois.

Peça 4 – o boicote dos EUA

Todos os erros anteriores não explicam o colapso total registrado após 2017, que provocou uma crise humanitária ampla, de responsabilidade total dos Estados Unidos.

Aqui entram os fatores que transformaram a crise em colapso humanitário e produtivo.

Sanções financeiras (2017)

  • Venezuela proibida de:
    • emitir nova dívida,
    • renegociar passivos,
    • acessar crédito internacional.
  • Bancos internacionais passam a evitar qualquer operação, por risco jurídico.

Mesmo importações de comida e remédio ficaram difíceis — não por proibição direta, mas por bloqueio operacional.

Sanções à PDVSA e ao petróleo (2019)

  • Bloqueio do principal canal de entrada de dólares.
  • Perda do mercado norte-americano.
  • Impossibilidade de importar:
    • diluentes,
    • peças,
    • tecnologia.

Aqui ocorre o colapso acelerado da produção.

Congelamento de ativos externos

  • Reservas, ouro e contas bloqueadas.
  • Empresas estatais impedidas de operar globalmente.
  • Estado perde capacidade de resposta à crise social.

Efeito “overcompliance”

  • Empresas e bancos param de negociar além do exigido, por medo.
  • Sanção formal vira bloqueio informal total.

Esse efeito é pouco debatido, mas devastador.

Peça 5 – o êxodo venezuelano

Migração venezuelana – evolução anual (estimativas)

Antes da crise

  • 2010–2013: migração baixa e estável
    < 200 mil venezuelanos fora do país
    (migração tradicional, estudantes e classe média)

Início do colapso

  • 2014: ~ 700 mil
  • 2015: ~ 1,0 milhão

Queda do preço do petróleo + início do desabastecimento.

Explosão do êxodo

  • 2016: ~ 1,6 milhão
  • 2017: ~ 2,3 milhões
    Inflação dispara, escassez generalizada, colapso dos serviços públicos.

Crise humanitária aberta

  • 2018: ~ 3,4 milhões
  • 2019: ~ 4,5 milhões
  • Fome, apagões, hiperinflação; pico do fluxo para Colômbia, Peru e Brasil.

Pandemia (freio temporário, não reversão)

  • 2020: ~ 5,1 milhões
  • 2021: ~ 5,9 milhões
    Fronteiras fechadas reduzem o ritmo, mas o estoque cresce.

Nova aceleração

  • 2022: ~ 7,1 milhões
  • 2023: ~ 7,7 milhões

Retomada da mobilidade + deterioração persistente das condições internas.

Situação mais recente

  • 2024–2025: 7,7 a 7,9 milhões de venezuelanos fora do país

Um dos maiores deslocamentos populacionais do mundo contemporâneo, fora de cenário de guerra formal.

Dedico esse artigo aos idiotas que saúdam a invasão norte-americana como início de tempos felizes para a Venezuela.

Reprodução: jornalggn

Texto: Luís Nassif

Escrito por:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *