Brasília (DF), 04/05/20. Sara Winter e grupo 300 do brasil na frente da polícia federal. Foto: Rafaela Felicciano/Metrópoles

A Sara o que é de Sara

16 de junho de 2020, 18:54

Na década de 1980 a comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro, vivia conflagrada. A guerra estabelecida entre facções visava desde o controle do tráfico, até o da associação de moradores. A despeito disto, a favela, que crescia morro acima numa expansão assustadora, procurava se organizar e criou algumas creches comunitárias, com “mães” para cuidar dos filhos das vizinhas. Para sustentar os lares onde eram as chefes, essas mulheres precisavam deixar os filhos aos cuidados dessas verdadeiras “voluntárias”. O salário era ínfimo. Importante mesmo, era viabilizar a vida das amigas que necessitavam trabalhar.

Como repórter do Jornal do Brasil, fui escalada para reproduzir esse cotidiano solidário. No caminho até a creche, tinha uma “boca” do “movimento”. Cartucheiras cruzadas no peito, lá estava Buzunga, o dono do pedaço, portando a sua metralhadora “ina”, de cano cortado, comendo em um prato de ágata, camarão com farinha, que a dona da birosca, a seu “pedido”, havia preparado. (Era preciso negociar a travessia).

Mais adiante, um grupo de garotos brincava de “boca de fumo”. Com armas de papelão e madeira, e “trouxinhas” de guimbas de cigarro esmigalhadas, eles se miravam no exemplo daquele que detinha o poder: Buzunga. Ao cruzar com eles rumo à creche, ainda pude ouvir um deles dizendo: “não, eu sou o Buzunga. Sou mais poderoso”. Enquanto o outro garoto, mais franzino, se conformava: “tá bom, então eu sou o Bolado”. Tratava-se do braço direito de Buzunga, um cara magro, alto, com cabelos pelo ombro, alourado.

Depois da apuração, voltei para a redação impactada com a cena e disposta a não mais chamar aqueles homens pelos seus codinomes. Visivelmente o fato de terem uma “alcunha” os tornava mais “palatáveis” aos olhos da comunidade e mais “amigáveis” entre os garotos. Tentei negociar com colegas e editores, que dali por diante passássemos a escrever os seus verdadeiros nomes, quando fossem notícia. Nada de apelidos. Seria uma forma de desmitificá-los, de não os transformar em Robin Hoods, ou Batmans.

A década de 1980, que do ponto de vista dos economistas é chamada a “década perdida” – tal o descalabro vivido pela população brasileira, de arrocho salarial, inflação no céu e desemprego -, vivia a distensão. No Rio os traficantes entraram para a crônica policial como “marcas”: “Denis da Rocinha”, Marcinho VP e outros.

Agora, ao observar que a mídia chamou Sara Fernanda Giromini de Sara Giromini, não sei por que, senti um alívio… Fiquei à espreita, esperando a manchete: “Presa em Brasília, Sara Winter”. Não veio. A prisão de Sara Fernanda Giromini foi repercutida como se deve. Com o nome que ela tem, e não com a “grife” que ela pensa que virou.

Sara foi buscar o seu “codinome” na biografia daquela dama da sociedade inglesa – Sara Winter (1870-1944), amiga de Churchill, próxima ao rei George VI -, onde consta que foi uma espiã nazista e integrante da União Britânica de Fascistas. Só por isto, já seria abominável citar o seu nome. À Sara o que é de Sara. O seu registro de batismo, desprovido de charme ou de “glamour”. Seu nome, apenas. A menos que queiramos transformá-la, agora, como é de seu desejo, em uma “Mata Hari dos trópicos”.

Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia

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