Anvisa e Fiocruz garantem em nota que vacina indiana só se tiver aprovação no Brasil

4 de janeiro de 2021, 15:37

No dia 28 de dezembro, nos estertores do ano de 2020, Bolsonaro sinalizou ao rentável mercado fármaco o que ia pela sua cabeça, que um dia serviu para carregar um quepe de militar e, hoje, nem para isto. “O Brasil tem 210 milhões de habitantes, um mercado consumidor de qualquer coisa enorme. Os laboratórios não tinham que estar interessados em vender para a gente? Por que eles não apresentam documentação na Anvisa?”, indagou a um grupo de apoiadores no Palácio da Alvorada, em Brasília.

Nada de Plano Nacional de Imunização, essa coisa trabalhosa de traçar estratégias sobre grupos a serem escalonados para receber a vacina. Melhor simplificar. Abrir a porteira para os laboratórios interessados em abastecer clínicas e hospitais particulares, para onde acorreria a clientela rica, disposta a pagar pela tão ansiada volta à normalidade.

Como oportunamente descreveu o nosso colega Moisés Mendes, em seu artigo, estava aberta a corrida à vacina. Os empresários do ramo mais do que depressa iniciaram negociações com mercados da Índia, para a obtenção de vacinas, já ouvindo o tilintar do dinheiro a cair em suas contas. A abertura da porteira para a imunização particular trazia algumas vantagens. Nada de escalonamento por idade. Apenas a velha divisão: ricos de um lado – devidamente imunizados -, pobres de outro, a esperar na fila do SUS que a “logística” do ainda ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, funcionasse. (Pode-se imaginar a comemoração entre milicianos, que já sonhavam com a organização dos roubos de cargas).  

Nesta segunda-feira, Bolsonaro postou nas redes sociais que a vacina “estava a caminho” e voltou a defender a cloroquina, o medicamento que médicos e especialistas já cansaram de reforçar, não possui eficácia no combate à Covid-19 e ainda traz riscos de mortes por ataques cardíacos. Mal sabia ele que enquanto a sua postagem subia para as telas, a Anvisa soltava nota, resultado de uma reunião com a Fiocruz, em que declarava:

“A Anvisa realizou nesta segunda-feira (04/01) nova reunião técnica com os representantes da Fiocruz para tratar da submissão do protocolo do uso emergencial das doses da vacina Covid-19, que serão importadas do fabricante Serum Institute of India.  Na reunião, foram apresentados os dados já de posse da Fiocruz, bem como foram listados os dados que ainda são aguardados pela Fundação”.  

Na nota, a agência revela que em “31/12/2020”, aprovou a “importação de dois milhões de doses da vacina contra a Covid-19, desenvolvida pela Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca, fabricada pela empresa indiana. Para a distribuição e uso na população brasileira, restam a solicitação e a aprovação da autorização para uso emergencial desta vacina”.    Ou seja, a vacina que os empresários foram buscar está no mesmo pé que as demais, aguardando a aprovação.

Para autorizar a distribuição, a Agência adiantou que ainda “precisa avaliar os estudos de comparabilidade entre a vacina do estudo clínico, que é fabricada no Reino Unido, com a vacina fabricada na Índia, bem como os dados de qualidade e condições de boas práticas de fabricação e controle. Ou seja, é necessário entender se o produto do fabricante indiano é semelhante ao fabricado no Reino Unido e que teve os dados clínicos aprovados”.

O que a Anvisa fez ao divulgar a sua nota foi alertar a quem interessar possa, que: “em termos mais técnicos, o objetivo desta avaliação é garantir a equivalência quanto à resposta da imunogenicidade, ou seja, a habilidade de a vacina ativar resposta ou reação imune, tais como o desenvolvimento de anticorpos específicos, respostas de células T, reações alérgicas ou anafiláticas”.  Trocando em miúdos, a agência está tendo o cuidado de verificar se ao ser aplicada a imunização nos fará virar ou não, “jacaré”.

Ao mesmo tempo, advertiu que “a Anvisa não fará nenhum retrabalho durante sua análise. A Agência já tem trabalhado para aproveitar a análise de agências de referência e focar em questões que são específicas para o Brasil”, e passou a listar os pontos a serem perseguidos:

“As questões especificas para o Brasil e que devem ser analisadas pela Anvisa são duas: 

1. A vacina é a mesma da disponibilizada no exterior? O local, o método e os materiais utilizados são os mesmos? Se houver mudanças, essas mudanças impactam no desempenho da vacina? 

Caso haja diferenças, estudos de comparabilidade devem ser conduzidos, ou seja, estudos que mostrem que a vacina estudada é equivalente à vacina que será aplicada. 

2. Qual o plano de monitoramento dessa vacina aqui no Brasil? Como será garantido o acompanhamento dos vacinados em caso de eventos adversos?

Na reunião, a Fiocruz mostrou que está empenhada para que essas informações sejam reunidas e apresentadas à Anvisa com a maior brevidade.” 

Por fim, demonstraram que tanto a agência quanto a Fiocruz estão unidas no sentido de manterem a população e a comunidade de Saúde informadas sobre resultados e aprovações. O que as instituições fizeram foi o seu dever de casa: evidenciar que a Ciência terá prioridade sobre toda e qualquer solução em torno das vacinas, não se deixando influenciar por interesses daqueles que já antecipam gestos de simpatia e facilidade para a disseminação da imunização privilegiada. Vamos torcer para que esses princípios prevaleçam.

Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia

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