Ao eleger seus detratores, o governo municia grupos radicais e armados

2 de dezembro de 2020, 11:09

O que pretende um governo que organiza um dossiê de profissionais de mídia e influenciadores digitais, classificando-os como “contras”, “neutros” e “prós”? O que tem na cabeça um dirigente público que manda preparar um listão de quem dele fala mal ou bem? Em um governo do nível, sofrível, feito o de Jair Bolsonaro, tratar-se-ia de um atestado de sanidade intelectual e seriedade profissional para os apontados como “detratores”. Ao mesmo tempo, seria uma exposição à galhofa e ao ridículo dos que foram considerados “favoráveis” por uma gestão do naipe da bolsonarista. Trocando em miúdos, seria cômica se não fosse trágica a bizarra iniciativa. Mas, não é tão simples. É muito mais grave.

A base política de Bolsonaro, composta de apoiadores chamados de “gado” sem que isto represente ofensas senão aos dóceis representantes do reino animal, não tem nada de dócil. Pelo contrário. É um grupo irascível e perigoso que tem o “mito” acima de tudo e de todos, até mesmo de Deus e do Brasil. É um grupo que dissemina o ódio e o preconceito, que tem as fakenews como argumento. Que recebe injeções de ânimos de patetas genocidas que vivem no exterior a vomitar teses tão ridículas quanto a do terraplanismo e tão perigosas quanto a do extermínio puro e simples dos adversários políticos.

É gente que apoia o armamentismo como instrumento de autoproteção (como dizem) e de agressão (como praticam, haja vista a explosão de homicídios com o uso massivo de armas de foto – hoje, quase todos eles, “colecionadores” ou “atiradores esportivos”. Gente que se reúne em grupelhos armados pra bradar contra as instituições democráticas e republicanas, como o Superior Tribunal Federal, contra quem já atacaram com fogos de artifício e desejaram cadeia para seus ministros e estupro para as filhas destes.

São elementos que negam a lógica e a ciência somente para agradar ao ídolo, um irresponsável que jogou o Brasil na condição de pária mundial e de chacota planetária. Basta supor quantas vidas teriam sido poupadas se o presidente e seus áulicos não tivessem boicotado sistematicamente as práticas seguras de contenção da pandemia. Os apoiadores do governo, esse povo de quem estamos falando, foram as mesmas pessoas que saíram por aí agredindo médicos e enfermeiros que cometiam o “crime” de cumprir com o seu dever de cuidas das pessoas expondo suas próprias vidas.

Contratar a peso de ouro uma empresa de comunicação para organizar um apanhado de quem, na mídia e nas redes sociais, merece ganhar o bônus e têm que arcar com o ônus é um crime. É dar a esses grupos de adeptos irresponsáveis e insanos o mapa da mina para chegar até os que, na visão deles, atacam o governo e seus integrantes. Os “detratores”, termo usado pela agência para carimbar quem não faz o jogo do governo, que se cuidem. Os grupos armados de defesa do governo Bolsonaro estão aí. Eles não brincam. E são capazes de sabe-se lá o que para mostrar serviço.

Quem encomendou o tal dossiê responde, a partir de agora, ao que viver a acontecer com esses jornalistas e influenciadores digitais.

Escrito por:

Jornalista e compositor, com passagem por veículos como o Jornal do Commercio (PE) e as sucursais de O Globo, Jornal do Brasil e Abril/Veja. Teve colunas no JC, onde foi editor de Política e Informática, além de Gerente Executivo do portal do Sistema JC. Foi comentarista político da TV Globo NE e correspondente da Rádio suíça Internacional no Recife. Pelo JC, ganhou 3 Prêmios Esso. Como publicitário e assessor, atuou em diversas campanhas políticas, desde 1982. Foi secretário municipal de Comunicação. Como escritor tem dois livros publicados: "Bodas de Frevo", com a trajetória do grupo musical Quinteto Violado; e "Onde Está Meu Filho?", em coautoria, com a saga da família de Fernando Santa Cruz, preso e desaparecido político desde 1973. Como compositor tem dois CDs autorais e possui gravações em outros 27 CDs, além de um acervo de mais de 360 canções com mais de 40 músicos parceiros.

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