As barbeiragens de amador do moço da terceira via

14 de setembro de 2021, 11:46

A Globo fez uma aposta pesada em Eduardo Leite como nome para a terceira via, mas parece estar desistindo. Pode ter descoberto que o tucano é paroquial, quase provinciano, sem asas e plano de voo para ares e alturas nacionais.

Leite cometeu nos últimos dias duas coisas que um prefeito de qualquer cidadezinha não faria. Na primeira, gravou um vídeo em que, para se apresentar como homem de centro, fala um monte de platitudes, põe Chico Buarque e Sergio Reis lado a lado e diz:

“Não precisamos pensar todos iguais para sermos todos o mesmo Brasil. Basta aceitar, respeitar, conversar com as nossas diferenças. Basta ver no Chico Buarque e no Sérgio Reis duas belezas musicais e não só duas escolhas políticas. Basta lembrar que nós, assim como eles, somos todos brasileiros”.

Um assessor de qualquer coisa poderia ter gritado: não faz isso. Mas Leite deve pensar que sabe o que faz aos misturar um gênio com um golpísta de uma música só.

Foi um erro de aprendiz da política. Chico Buarque é a maior figura viva da arte brasileira. Não da música, mas da arte em geral. É assumidamente de esquerda, é lulista, é humanista, é antifascista.

Sergio Reis ficou marcado como o convocador trapalhão do golpe do 7 de setembro. É bolsonarista, assumidamente alinhado com a extrema direita.

Reis recuou da decisão de coordenar o golpe e hoje é considerado um extremista acovardado. É um desastre político. Não pode ser lembrado como “beleza musical”.

Não há como colocá-lo ao lado de Chico, para que os dois sejam apresentados como contrapontos. Não tem como. É uma ideia rasa e boba demais.

Se quisesse forçar, Leite poderia ter citado Chitãozinho e Xororó ou Michel Teló ou um sertanejo qualquer, mas nunca Sergio Reis ao lado de Chico.

Na cabeça paroquial de Leite, ao falar de Chico ele ficaria bem com a esquerda, e ao citar Reis faria média não com a direita, mas com a extrema direita do bolsonarismo. O bolsonarismo é a obsessão de Eduardo Leite.

Agora, Chico pede retratação pelo uso político indevido do seu nome. O tucano não ganhou nada com uma ideia fajuta de quem pretende ficar em cima do muro, mas pende sempre para a direita.

O segundo erro de Leite foi a participação no ato do Parcão, domingo, quando o MBL pretendia passar a comandar o grito pelo impeachment.

Podem dizer que não teria outro jeito, que ele deveria ir, para fazer média com o que muita gente pensa ser o público de centro.

Mas Leite poderia ter inventado, na sexta-feira, uma viagem urgente para ver uma tia doente em Pelotas.

Leite não foi ao encontro de Bolsonaro na Expointer, mas foi ao Parcão falar para meia dúzia. A turma do Parcão não era o que ele pensa que possa ser. Não estavam no Parcão os que desistiram de Bolsonaro por convicção.

Estavam ali militantes da direita que apenas desembarcaram do bolsonarismo por oportunismo, mas carregam Bolsonaro dentro do peito. O centro democrático não se aglomera na esquina do Parcão.

O centro democrático já está com Lula. Eduardo Leite deveria saber. A ida ao Parcão repetiu a foto que ele não gostaria de ver na campanha: Leite está de novo ao lado de gente da direita extremada, como esteve com Bolsonaro em 2018.

Uma hora o governador terá de se livrar de Bolsonaro. Não ir à Expointer para não ter de apertar a mão do sujeito, como ele apertava, mesmo na pandemia, é um começo, mas só o começo.

Esse Leite vacilante conseguiu sugerir no vídeo que o Brasil de hoje seria “o Brasil do Pelé contra o Garrincha”, quando esse confronto nunca existiu. Nunca ninguém imaginou que fãs de Pelé e Garrincha pudessem estar em lados opostos e muito menos inimigos.

O Brasil que está aí é o Brasil dos democratas contra o fascismo. Leite precisa dizer logo de que lado está, esquecendo Bolsonaro, Sergio Reis e o seu medo de desagradar o reacionarismo.

Abaixo, o vídeo que conseguiu juntar Chico e de Sergio Reis:

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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