Foto: EBC

Balanço da Política Brasileira em 2025

24 de dezembro de 2025, 18:17

Começo com uma descrição das situações que considero que sintetizam o rumo que a política nacional tomou neste ano. São três movimentos, em especial:

  1. Um forte nivelamento de força política entre bolsonarismo, lulismo e Centrão. Sem predomínio nítido. O empate político não é estático, evidentemente. Cada um dos três blocos cria fatos políticos, reage e tenta parecer soberano e forte. A alternância entre eles foi a marca do ano. Na prática, esta alternância indicou a predominância absoluta do campo institucional nos rumos da nossa política.
  2. A consequência direta – ou causa – do item anterior foi o definhamento da sociedade civil organizada. Sociedade Civil Organizada é a denominação que se dá às entidades sem fins lucrativos (como associações, fundações, cooperativas sociais) e movimentos sociais que atuam em áreas de interesse público, como saúde, educação, cultura, meio ambiente. Sociedade Civil Organizada é a denominação que se dá às entidades sem fins lucrativos (como associações, fundações, cooperativas sociais) e movimentos sociais que atuam em áreas de interesse público, como saúde, educação, cultura, meio ambiente. No século 21, foram se segmentando, se fechando em bolhas e territórios, dominadas pela agenda de Estado, tema que discorrerei mais adiante.
  3. A terceira situação-síntese foram os sinais de certa desestruturação da base bolsonarista. A prisão de Bolsonaro, a disputa por seu espólio político e as inúmeras presepadas revelaram descontrole e desespero da base e lideranças do bloco. A “campanha contra as Havaianas” foi uma nítida demonstração de busca de um tema que unisse a base bolsonarista. Um tema efêmero, inventado do nada, criou uma onda que durou um dia. As Havaianas venderam como nunca e a queda na Bovespa foi de apenas um dia.

Um grupo de whatsapp que coordeno, o Unidade na Diversidade, vem discutindo nesta semana o que considera um balanço do ano. Vou resumir as conclusões iniciais deste grupo. Antes, uma palavrinha sobre este grupo. Trata-se de um grupo criado em 2014 que envolve ativistas de dirigentes do campo progressistas, incluindo governadores, lideranças religiosas, sindicalistas, lideranças de movimentos sociais.
No balanço do grupo foi destacado o fortalecimento do Congresso, especialmente por meio do controle do orçamento, com redução da capacidade de direção do Executivo e maior centralidade do Centrão.
Na visão dos participantes, a conciliação com elites políticas e econômicas apareceu como padrão estável de governabilidade, mas com limites claros para mudanças estruturais.
Outra conclusão foi a fragilização de órgãos do Estado, sobretudo nas áreas de regulação e fiscalização, com destaque para a agenda ambiental, onde alterações legais e decisões políticas concentraram poder.
No campo econômico e social, ressaltou-se o contraste entre indicadores positivos e sensação de piora da vida cotidiana, especialmente no custo de vida, gerando frustração e desgaste político.
Por fim, o balanço indicou baixa mobilização social e dificuldade de formular projetos capazes de mobilizar expectativas e afetos, com a política operando de forma defensiva, ainda que com sinais de possível reacomodação da conjuntura ao final do ano.

Gostaria de concluir este artigo com uma reflexão inicial sobre os motivos para a energia social não ter se convertido em força propulsora de mudanças na política nacional. Vou destacar quatro observações.
A primeira observação é a de que houve uma imensa fragmentação de pautas intimistas e circunscritas territorialmente, com eventos próprios, prioridades, lideranças de pouca visibilidade transversal e quase nenhum impacto nacional.

A segunda observação que faço é que não surgiram movimentos sociais novos neste século em nosso país. Os que existem foram gerados no século passado. E alguns deles, como o MST, não são mais movimentos, mas organizações com forte hierarquia, estruturas de financiamento próprios, burocracia e estrutura material específicas.
No século 21, o que temos de pujante em termos de sociedade civil são as mobilizações sociais: provisórias, potentes como paisagem e fenômeno passageiro. A provisoriedade tem relação com a motivação emocional que, quase sempre, parte de uma comoção e indignação que se esvanece em questão de dias. No Brasil, esta comoção passageira teve muita relação, até aqui, com a disputa de narrativas políticas e controle da agenda nacional entre lulistas e bolsonaristas. Contudo, ocorreram pautas que se desgarraram deste pêndulo vinculadas às questões existenciais, como a reação ao aumento do feminicídio.
Uma terceira observação é o predomínio da agenda institucional. STF, Congresso Nacional e Governo Federal monopolizam toda agenda de políticas públicas e eventos políticos do país. Tal situação revela dois sintomas da sociedade civil organizada do nosso país. Um primeiro sintoma é o da subordinação ao campo institucional (falta de capacidade de coesão e, portanto, incapacidade de formulação de discurso hegemônico). O segundo, derivado deste primeiro, é o da cooptação geral do campo pelo governo federal. Tal cooptação veio em ondas. A primeira, quando da montagem do primeiro governo Lula em 2003, trouxe para a esfera da gestão federal muitas lideranças e assessores dos principais movimentos sociais brasileiros. O que prometia ser uma “invasão” da sociedade civil nas estruturas estatais se revelou em pouco tempo o inverso (o que Claus Offe denominou de “estatalização da sociedade civil” ou o engessamento da sociedade por normativas e imposições do Estado sobre ela).
Houve, também, o início de um processo de profissionalização da política. Se antes, o ingresso na ação política pelas lideranças se dava pelos movimentos sociais no que tange ao campo progressista, no século 21 se deu pelo parlamento, em especial, pela Câmara de Deputados. As direções partidárias deste campo foram tomadas pelos deputados federais eleitos. Prefeitos, governadores, lideranças sociais deixaram de ter espaço no processo decisório dos partidos à esquerda e os próprios partidos deixaram de se alimentar das pautas e decisões da sociedade civil organizada.
A pujança da extrema-direita brasileira assustou o campo progressista e aumentou ainda mais a urgência de vitórias eleitorais, o que galvanizou a atenção de lideranças sociais e coletivos de ativistas. Criou-se, assim, um círculo vicioso em que a sociedade civil não conseguiu mais se desvincular da agenda institucional. Tendo em vista que o Brasil é marcado por eleições a cada dois anos, o interregno entre uma eleição e outra, além de breve, foi marcado pela consolidação das vitórias obtidas ou de preparação para a próxima eleição.

Finalmente, cito a mudança de vínculos sociais e ideário popular. Se no final do século 20 havia um forte apelo à solidariedade, à ação coletiva e à distinção entre marginalizados e elites, no século 21 o apelo ao sucesso individual, à ideologia da intimidade e a rejeição às pautas muito demarcadas (em especial, as identitárias) desestruturou os vínculos entre movimentos sociais e o cotidiano da vida popular brasileira.
Foi um ano complexo e frustrante. O mar não está para peixe para nenhum bloco em específico, embora os anos dourados da Era dos Movimentos Sociais tenha acabado, sendo substituída pela Era Lula que parece luta para permanecer como força hegemônica no país.

Escrito por:

Rudá Ricci, sociólogo, mestre em ciência política e doutor em ciências sociais. Ex-consultor da ONU e presidente do Instituto Cultiva. Autor, dentre outros livros, de "Desafios do Educador" (Editora Letramento) e "Fascismo Brasileiro" (Editora Kotter)

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