Michelle, Jair Bolsonaro e Silas Malafaia (Foto: Reprodução/Twitter)

Bolsonaro está brocha

19 de setembro de 2022, 18:25

“O  julgamento (final) vai ser pelas suas ações e omissões. Todo aquele que trabalhou contra o próximo ou que se omitiu na hora em que poderia ajudar, segundo as escrituras, para quem acredita, vai ter o seu veredito” (…).  

As palavras foram proferidas por Bolsonaro em Londres, antes de se dirigir para a cerimônia do funeral da rainha Elizabeth II, hoje (19/09) na Abadia de Westminster.

Exatamente. Por essas e outras, Bolsonaro está brocha. Se não do ponto de vista sexual – quem teria coragem de conferir, não é mesmo? –, pelo menos moralmente. Anda irritado, carrancudo e sem respostas para questões que vêm frequentando a sua vida com muita assiduidade. Quais sejam? Como comprou 57 imóveis com dinheiro vivo, gastando na casa dos milhões? Por que fez uso de recursos e da data do Sete de Setembro, transformando os 200 anos da independência em comício? Por que usou as instalações de uma embaixada do Estado brasileiro, para discursar em solo inglês, pela sua candidatura? Por que levou o maquiador de sua mulher, um pastor, um padre e o filho, em uma viagem de compromisso oficial, como chefe de estado?  

Na próxima etapa, (o juízo final), terá de prestar contas ao criador, pelas 690 mil vidas que ele caprichosamente negligenciou na pandemia. Nesta vida, há 140 processos empilhados esperando o fim do seu governo, para serem julgados pela Justiça. Fora isto, está pagando antecipado e a prestação – a cada pesquisa de opinião ele morre um pouco – por ações, palavras e (falta de) obras.

No discurso/disparate, feito no dia anterior, da sacada da embaixada em Londres, lançou sobre os seus apoiadores uma hipótese na qual nem ele acredita: vencer as eleições no primeiro turno. Se de fato acreditasse, não precisaria quebrar o silêncio disciplinado e respeitoso dos britânicos, para gritar uma vitória improvável sob qualquer foto momentânea do eleitorado do país, aferida pelas pesquisas. A menos que sejam os questionários “tabajaras” encomendados por seus assessores. Talvez, nem esses, pois do contrário não reinaria em seu comitê, o nervosismo que se percebe.

Numa atitude em que passou recibo com firma reconhecida, Bolsonaro novamente deu as costas para a mídia que o questionou sobre o uso indevido do espaço da embaixada e da desfeita ao povo inglês, de fazer balbúrdia e uso do país em um momento de luto, para campanha eleitoral: “você acha que eu vim aqui fazer política?” – respondeu não respondendo, como é de seu feitio, e dando as costas para a jornalista que fez a pergunta.  

Achamos, respondemos nós, em coro. Juntamente com os veículos ingleses, que não o pouparam pela transgressão.

Tivesse ele tranquilo quanto ao seu futuro, e com muito “tesão” para as eleições e não sacaria do bolso do terno – que deveria ser mais escuro para a ocasião -, novas ameaças ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), dirigindo questionamentos ao pleito.

Não sei qual é o cenário para o seu “juízo final”, tampouco sabemos do veredito divino quanto ao seu desleixo para com as vidas que deveria ter cuidado, mas não é tão certa quanto alardeia, a vitória nas eleições, muito menos em primeiro turno. O que Bolsonaro fez foi novamente tentar pautar a mídia, convulsionando o ambiente eleitoral, como tem feito todas as vezes em que está em desvantagem.

O que se sabe, é que depois de vir a público (trazido pelo Portal 247), um estudo encomendado pelos militares a uma consultoria, para mapear o índice de adesão a um possível golpe, é que o comandante do Estado Maior, o general Valério Stumpf Trindade, embora com pendores bolsonarista – de baixo teor de engajamento -, segundo os critérios da avaliação, não o seguiria. Sua descrição no mapeamento é a seguinte:  

“Em uma das poucas manifestações públicas, no dia 4 de agosto deste ano, escreveu uma mensagem do Exército para salientar a importância do voto como “instrumento da democracia”e pediu consciência para os eleitores. A mensagem não faz referência direta a Bolsonaro, mas insinua que hoje o cenário mais provável considerado pelos militares é de uma eleição “dentro da normalidade democrática”. Dentro do Alto Comando, é um dos que já chegou a defender algumas ideias do presidente, mas se incomoda muito com acusações e suposições de um possível golpe militar”.  

Seu passado não reforça muito a sua posição de moderado: “foi o secretário-executivo do ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, e do antecessor deste, general Sérgio Etchegoyen, no governo Michel Temer”, ambos sabidamente golpistas. E, ainda, “foi apontado como articulador de um manifesto de militares da reserva que defenderam o lançamento do chamado Projeto Nação -que prevê uma série de compromissos para manter os militares como tutores de poder no país, além de defender o “legado” da ditadura militar, ressaltando que durante o regime militar havia um projeto de nação em curso”.

De qualquer forma, Bolsonaro teria que contar também com o apoio do General Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, comandante militar do Sudeste, região onde estão os maiores colégios eleitorais do país (São Paulo é o primeiro, Minas o segundo e o Rio é o terceiro). Sua descrição no mapeamento: “Durante o combate à pandemia de Covid-19 defendia a atuação dos militares e fazia críticas reservadas à postura do presidente. Possui um perfil mais discreto e evita contato com a imprensa”. Portanto, longe de embarcar num reboliço. Seu grau de adesão é classificado como “muito baixo”, no estudo. Assim como os demais chefes de regionais.  

Sem esta, então, Bolsonaro, de querer novamente enxovalhar o TSE, assoprar a brasa dos militares e atiçar as massas. Vá chorar no closet do Alvorada, que é lugar do seu refúgio. Baixe a ansiedade e aguarde o que lhe dirá as urnas. A julgar pelas últimas pesquisas, elas não lhe darão vida fácil. Que falem os eleitores.

Apoie a iniciativa do Jornalistas pela Democracia no Catarse

Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *