Bolsonaro fala em “desaparecimento” de ministros do STF. Seria Teori Zavascki um desaparecido político?

29 de maio de 2020, 13:02

Quinhentos dias de governo e estamos roçando no número de 500 mil infectados pelo coronavírus. É isto mesmo. São mil infectados para cada dia que o senhor Bolsonaro está sentado na cadeira da presidência. Sem avançar em um projeto em favor da sociedade, sem promover o prometido crescimento da economia, disseminando o ódio, a discórdia e governando com ameaças quase infantis, com o fito de nos paralisar.

São mais de 26 mil mortos e ele sentado sobre a tampa dos seus ataúdes, “negocia” com desembaraço e tranquilidade o seu destino em 2022.  “Nós trocamos algum cargo neste sentido, atendemos, sim, alguns partidos neste sentido, conversamos sobre eleições de 2022. Se eu estiver bem em 2022, há interesse de alguns parlamentares desses estados em ter o seu respectivo candidato a governo, se eu poderia (sic) entrar neste acordo em alguns estados do Brasil”, antevê, num português mastigado e maltratado.

Nem uma palavra sobre a pandemia, a não ser os seus “esperneios” por armar a população para abrir o comércio à bala, e fazer girar a economia “na porrada”, como é de seu feitio, para vergonha geral da Nação. Como sabemos, suas preocupações pessoais e familiares se sobrepõem às suas obrigações de governante. Na sua pauta, agora, o mais urgente é salvar a própria pele e a dos integrantes da “famiglia” e, para isto, não corou nem piscou, ao jogar no ar a seguinte fala, durante live feita ontem, ao lado de um “eufórico” presidente da Caixa Econômica federal, Pedro Guimarães – por que sorri tanto, esse economista?

“Se aparecer uma terceira vaga —espero que ninguém desapareça—, mas o Augusto Aras entra fortemente na terceira vaga”. A vaga em questão, é para o Supremo Tribunal Federal (STF), onde se sabe, elas não existem. Estão todas preenchidas. Tivesse ele o mínimo de educação, e saberia que não se deve tratar do tema até que elas estejam disponíveis. E isto só será possível em novembro, com a aposentadoria do ministro Celso de Mello, ou em julho do ano que vem, quando pelo mesmo motivo, deixa o cargo o ministro Marco Aurélio Mello.

Mas não se deve esperar tanto de alguém que troca o bom dia por um “porra”. O que se pode esperar dele, isto sim, é um profundo conhecimento sobre desaparecidos. Temos 434 mortos e desaparecidos políticos, que a turma do general Augusto Heleno – com quem ele muito se identifica -, saberia nos informar o paradeiro. Porém, não dizem, porque, neste caso eles deixariam de ser “desaparecidos”, e os seus amigos passariam a ser “criminosos”.

E quando Bolsonaro fala que espera, “ninguém desapareça”, difícil não lembrar de outra modalidade de expediente para abrir vagas no Supremo: a dos “acidentados”. Poderíamos recordar das indagações sobre o acidente do ex-ministro Teori Zavascki, que continuam sem resposta, desde que sofreu um “acidente”, em 19 de janeiro de 2017. Na ocasião, publiquei artigo no site “O Cafezinho”, onde fazia perguntas sobre a “queda” do seu avião, que até hoje são pertinentes, pois ficaram sem resposta:

– Por que será que ninguém estranhou o fato de a Marinha do Brasil, que em 1992, tinha condições de rastrear com sonares toda a costa fluminense, em busca do corpo do Dr. Ulysses, e enviou ao local aparelhagem sofisticadíssima, desta vez vem a público dizer que não é capaz de erguer do mar, a uma profundidade de quatro metros, uma aeronave de pequeno porte, em frangalhos, coisa que os próprios pescadores fizeram, antes de chegar socorro, conforme detalha André Barcinsky na Folha de São Paulo? Quais os impedimentos técnicos?

– Ninguém considera esquisito transferir para a empresa dona do avião, a responsabilidade de retirar da água uma aeronave que transportava uma alta personalidade pública, responsável por conclusões em torno de delações que implicariam a cúpula do governo?

– A Marinha do Brasil não conseguiria, ou estaria economizando recursos, conforme disse um constrangido oficial na TV, ou dentro do avião estariam aparelhos (lap top) e documentos que deveriam ser entregues apenas a quem de “direito”? Ou seja, à família do empresário, ou ao filho de Teori e a quem mais tivesse interesse naquela viagem.

– Por que os bombeiros não abriram a aeronave para resgatar a moça que apelava pela vida (todos vimos)? Era mais importante retirá-la viva ou preservar seco o ambiente interno do avião, para resguardar o que lá estivesse (um lap top) e pudesse ser retirado? (Até que um pescador solidário furou a fuselagem, alagando tudo, na sanha de passar oxigênio para a moça que apelava por socorro).

– Por que o senador José Medeiros (PSD) de Mato Grosso – a mesma cidade das mulheres que estavam no avião, e cujas identidades levaram uma eternidade para serem reveladas -, disse, às 10h58, em seu Face, que à noite, no JN, a população seria assombrada com uma “bomba” sobre o Supremo?

– Qual seria a agenda do senador José Medeiros no gabinete presidencial do Michel, por volta das 17h, justamente quando a notícia chegou ao gabinete do presidente, e que o fez clamar por Deus! Como reproduziram os jornais?

– Por que o hangar de onde partiu a aeronave tinha tão poucas informações a dar a respeito dos passageiros?


E, por fim, por que não estamos tratando disto como o fizemos com o caso do Riocentro, que pôs fim à ditadura de 21 anos que se abateu sobre o Brasil?

Depois da fala de Bolsonaro, de ontem, talvez fosse útil acrescentar aí mais uma pergunta: Seria Teori Zavascki mais um desaparecido político?

Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia

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