Ex-presidente Lula, Ciro Gomes, Sérgio Moro, João Doria, Eduardo Leite e Jair Bolsonaro (Foto: Reprodução | PR | CNI | Secom | Reuters)

Brasil: a iminência do apocalipse ou a redenção democrática?

18 de novembro de 2021, 14:12

Era o segundo governo de Lula. Num almoço de mulheres no Fasano, a dona de uma rede nacional de shopping centers dizia que eles nunca haviam vendido tanto quanto naqueles anos. O governo era criticado pelos seus opositores por favorecer os bancos, e os banqueiros pareciam amar Lula, com quem confraternizavam onde estivessem. A indústria brasileira tinha seu representante na vice-presidência, José Alencar Gomes da Silva, e as federações patronais também pareciam contentes.

Lula não perseguia a mídia, seu governo anunciava, privilegiando os grandes grupos de imprensa, não havia retaliações aos divergentes, como hoje vemos acontecer. Nos governos de Dilma, sequer foi encaminhado ao Congresso o projeto de regulação da mídia, formatado por Franklin Martins ao fim do segundo mandato de Lula, condizente com o que é feito nos países do mundo todo.

Lula é um conciliador por natureza. É considerado pelos chefes de estado do resto do mundo, é admirado, visto como um igual. Semana passada, em Bruxelas, ele mereceu aplausos de pé, longos e sucessivos, no encontro do Parlamento Europeu com lideranças latino americanas. Mereceu recepção de chefe de estado no Elysée, com a marcha da guarda do palácio e o presidente Macron descendo os degraus para ir buscá-lo (e uma hora depois levá-lo) no carro. É bem visto pela mídia internacional, inclusive pelas publicações de economia. Por que esse ódio da mídia corporativa brasileira contra ele? Esse apagamento? Esse silêncio a seu respeito? Por que estavam sendo destinados a ele apenas breves momentos, em canais por assinatura, às altas horas da noite, e quando isso acontecia? E isso só foi revertido no sétimo dia da agenda da viagem de Lula, depois da grande grita nas redes sociais, da indignação, e da chacota feita, comparando a vasta cobertura da visita pelos jornais estrangeiros e a cobertura Zero pela mídia brasileira.

Atribuem a Lula um radicalismo que ele, na prática, nunca demonstrou. Lula não é um radical. Não é comunista. É um liberal, falando francamente. Alguns o identificam como Liberal Periférico. Sua política externa é afinada com as dos demais países. Respeitado por todos. Até George W. Bush gostava dele! Em poucos dias na Europa, foi recebido pelo vencedor das eleições na Alemanha, Olaf Scholz, esteve com o líder da Social Democracia, Martin Schulz, foi aclamado no Parlamento Europeu, elogiado por Zapatero como “o que mais combateu a pobreza”, trocou ideias com o Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, foi recepcionado com batucada brasileira pelos alunos do Instituto SciencesPo, em Paris, onde almoçou com a Prefeita. Depois da França, participa hoje de seminário de Cooperação multilateral e recuperação pós-covid, em Madri, e tem agenda com o primeiro-ministro.

Lula não sai procurando briga, não dá banana e joga a casca no chão, não desanca o país dos outros, negocia com todos. Internamente, é bom para o nosso povo, se compadece do pobre. Não politiza temas sérios, como Saúde, Cultura e Educação. Desenvolveu políticas sociais mínimas, sem “exagero”, podia ser muito mais – o Bolsa-Família, como diriam os americanos, eram “peanuts” em nosso orçamento. E mesmo assim suas políticas públicas trouxeram notáveis benefícios sociais e econômicos, foram copiadas em vários países, se tornaram referência.

O saldo de seu Minha Casa Minha Vida foram casas para milhões de brasileiros, e novas grandes fortunas para poucos, como Rubens Menin, dono da MRV Engenharia, proprietário da CNN Brasil, o também mineiro Ricardo Gontijo, dono da Direcional Engenharia, os donos da Construtora Tenda, mineira também, os da Rossi Residencial, alguns desses empresários declarados admiradores de Bolsonaro.

As ditas pautas identitárias, responsabilizadas por parte da rejeição ao PT, foram muito mais de Dilma do que de Lula. Assim como foi o relatório da Comissão da Verdade, que tanto enraiveceu os militares de pijama do Clube Militar.

Lula jamais perseguiu os diferentes, nem exigiu fidelidade ideológica aos que prestam serviços ou vendem serviços ao governo. Muito menos àqueles que recorrem aos financiamentos e inventivos de bancos públicos.

É simplismo achar que se trata de um preconceito da burguesia pelo fato de Lula ter sido um sindicalista, operário, nordestino, de origem muito pobre?

A lenda de que o PT inventou a corrupção no Brasil foi tão repetida que se tornou verdade. Sabemos que os casos de corrupção no Brasil remontam a Pero Vaz de Caminha, quando os portugueses davam espelhinho e recebiam pepitas de ouro, e sabemos que, no ranking da corrupção dos partidos políticos brasileiros, o PT é um dos melhores colocados, isto é, está em penúltimo lugar. Sem esquecer que foi o PT que criou o Portal da Transparência e os mecanismos que permitiram investigações e punições de casos de corrupção. Por que isso é ignorado? Por que as impropriedades, vamos chamar assim, da Lava Jato, de Sergio Moro, do TRF-4 são ignoradas? As delações e provas falsas? Os processos contra Lula, comprovadamente mais ocos do que cheque voador? E ainda a ironia de as notas fiscais das reformas do dito “triplex do Lula” e do sítio, ambos em São Paulo, serem do comércio de Curitiba…

Sergio Moro se lança como terceira via, fazendo soar as fanfarras de sua fada madrinha, a Globo, com o muito provável respaldo do alto oficialato das Forças Armadas, simpático ao ex-juiz sob suspeição e agastado com Bolsonaro – o embrulho veio muito pior do que a encomenda.

Generais não deverão poupar apoio ao maringaense, até porque nesses casos há acordos de parte a parte. Dos militares, apoio do tipo que Villas Boas deu ao Mito. De Moro, provavelmente, a promessa de não lhes retirar regalias, cargos e rendimentos adquiridos nos últimos anos.

Moro surge na disputa para roubar parte do eleitorado de Bolsonaro, não a fatia dos fanáticos, mas a da burguesia cheirosa, que apertou 17 pela ojeriza ao PT. Todavia, com todo o foguetório global, o “juiz ladrão” (royalties para o deputado Glauber Braga) dificilmente chegará aos dois dígitos no percentual das urnas. E como os generais não são de terceirizar o poder, quando há “clima” para o golpe, quem subiria a rampa seria um deles.

E por que essa eleição de 2022 se reveste de cores dramáticas, como se fosse iminência de um apocalipse ou única possibilidade de redenção democrática para o Brasil?

Porque ainda há, porque nos assombra a possibilidade de uma reeleição de Bolsonaro. Mesmo que sua popularidade decline, mesmo que ele carregue mais de 600 mil mortes nas costas, mesmo que ele nos submeta a vexames locais, internacionais, interestelares, até. Tudo é tão sem sentido no Brasil de hoje, tão ficcional, que até o impossível é possível. Vide a eleição do completo desconhecido Witzel, no Rio de Janeiro. Que forças subterrâneas se moveram para isso?

A atual polarização direita x esquerda esvaziou o raciocínio político dos brasileiros, tornando simplórias as suas mentes, a razão deu lugar à paixão. Essa radicalização não existia, surgiu a partir de Bolsonaro, fazendo, da escolha política, uma torcida de futebol. Torcem por Bolsonaro, como quem torce pelo Vasco. Ninguém deixa de ser Flamengo porque ele perde um campeonato. Ou dois, ou três, ou 10. A escolha do time “do coração” é um estado de espírito, é aleatória ou por influência de terceiros. E depois que se decide por ele, esqueçam, porque o torcedor não muda de jeito nenhum.

Daí que os 20 e poucos por cento de fanáticos bolsonaristas não vão mudar de preferência, porque o que está posto não é a ideologia nem a coerência, é a camisa do time. E eles escolheram a da Seleção Brasileira de Futebol!

Não é o projeto de Bolsonaro para o Brasil que conta, porque nem projeto ele tem, jamais apresentou um, sequer isso lhe cobraram.

Bolsonaro não precisa cumprir, porque nada prometeu. Nada de bom. Prometeu armar todo mundo, acabar com o horário de verão e retirar os “pardais” do trânsito. Isso ele fez. Declarou que os filhos vinham em primeiro lugar, e que o filet mignon seria para eles. Isso também tem cumprido ao pé da letra.

Nós nos tornamos um país de ignorantões, liderado por um ignorantão mor. Para quê escolas, se a burrice se tornou padrão? Para quê Enem se até ele, que é burro, entende mais do que a comissão de mestres? Pra quê verdade, se as fake news são muito mais saborosas? Pra quê livros de História, se livros têm letras demais?

Sabemos das pretensões de Bolsonaro, apenas pelas declarações feitas à imprensa nos tempos de deputado. “Se eu fosse presidente da República daria golpe no mesmo dia”. “O Congresso não vale pra nada”. “Sonego tudo que for possível. Se puder não pagar nota fiscal eu não pago, porque o dinheiro vai para o ralo, vai para a sacanagem”. “O voto não vai mudar nada no Brasil. Só vai mudar quando partirmos para uma guerra civil, fazendo o que o regime militar não fez. Matando uns 30 mil. Vão morrer alguns inocentes. Tudo bem. Em toda guerra, morrem inocentes.” 

Podiam ser piores as intenções? Depois da incitação ao uso de armas e de sua liberação, inclusive as de grande porte, em grande quantidade, a última novidade é a aprovação pela Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados de um Projeto de Lei que permite o porte de arma para os praças das Forças Armadas – suboficial, subtenente, sargento, cabo, soldado e marinheiro – representantes de forte extrato de fanatizados pelo Mito. Somem-se a eles os milicianos, os posseiros, os invasores de terras, os garimpeiros ilegais, e agora sabemos que até narcotraficante foragido, o “Grota”, ligado ao PCC, é favorecido pelo Governo Bolsonaro com 18 autorizações para garimpar. Quantos “Grotas” têm merecido favores desse governo? Dezenas? Centenas? Milhares? Quantos chefes de bando? Quantos “Comandos”, facções do crime? Já virou até meme nas redes sociais a quantidade de bandidos, contrabandistas, delinquentes, fraudadores, marginais, ladrões, pilantras flagrados que, quando conferimos seus perfis nas redes sociais, são bolsonaristas declarados.

Dar um golpe, provocar uma “guerra civil” é declarada obsessão de Bolsonaro, para quem o “só Deus” o tira da cadeira. Não é o voto, não são as urnas, não é a preferência da maioria. Só uma força superior. E se não houver nova fakeada? E se ele for obrigado a participar de um debate? E se, mesmo com toda a manipulação dos algoritmos, através das fake News, dos votos de cabresto dos milicianos, das ordens expressas dos padres e pastores aos fiéis, ele não consiga ser eleito? E se Lula vencer, como tudo indica? Bolsonaro irá recorrer à “força superior” das armas, desse exército de transviados e obcecados, que é de fato dele?

Talvez a saída seja colocar uma imaginária faixa amarela de “interditado”, dividindo a porção do Brasil doente, intoxicado pelo bolsonarismo, da porção do Brasil são, e tocar a vida e a campanha no país real, com propostas verdadeiras e factíveis, com projetos de amanhã. Acreditar que a ordem Democrática pode ser recuperada, as instituições resgatadas, e que o Brasil ainda pode ser reconstruído,  sejam seus atuais controladores os milicianos ou o mercado financeiro, o narconegócio ou o agronegócio, a bancada evangélica ou a bancada da bala, os latifundiários grileiros ou as federações patronais com suas pautas anti-trabalhador, a mídia corporativa ou a indústria de fake news, o punitivismo lavajatista de falsos catões ou a esbórnia das malas de dinheiro, os entreguistas de nossa soberania ou os militares impatriotas, o PCC ou o Comando Vermelho.

Vamos colocar nossa energia no candidato de nossas esperanças,  conscientes que, mais do que nunca, só sairemos desse impasse em que nos encontramos, elegendo um Congresso comprometido com um projeto político que favoreça a Nação brasileira, não apenas as conveniências pessoais, paroquiais, e muito menos os compromissos religiosos obscurantistas de cada um.

O povo brasileiro é aberto e fraterno – a gente até deixou de acreditar nisso. O brasileiro abraça as novidades com ternura e fôlego. Assume agilmente as transformações sociais, tecnológicas, de costumes. O vento renovador que bate leve lá fora, aqui é ventania. Assim, fomos dos primeiros a oficializar as uniões homoafetivas, nosso ensino é aberto e criativo. Assim como é a atividade cultural. A contribuição científica brasileira é reconhecida internacionalmente. Nos grupos sociais mais progressistas, caminhamos muito contra o racismo, o machismo, os preconceitos em geral. Nossa capacidade de trabalho é indiscutível.

Todos os dias, aprendemos no manual da sobrevivência. Não vamos mais delegar a uma burguesia preconceituosa, burra, inculta, iletrada até, o leme de nosso futuro. E vamos querer de volta tudo que foi construído pelo povo e vendido na bacia das almas.

Escrito por:

Formação acadêmica: Conservatório Nacional de Teatro 1967-1969, Rio de Janeiro
Jornalista, atriz e diretora do Instituto Zuzu Angel/Casa Zuzu Angel - Museu da Moda. Manteve colunas diárias e semanais, de conteúdos variados (sociedade, comportamento, cultura, política), nos jornais Zero Hora (Porto Alegre), O Globo, Última Hora e Jornal do Brasil (Rio de Janeiro), onde também editou o Caderno H, semanal.
Programas de entrevistas nas TVs Educativa e Globo.
Programas nas rádios Carioca e Paradiso.
Colaborações e/ou colunas nas revistas Amiga, Cartaz, Vogue, Manchete, Status, entre outras publicações).
Atriz de Teatro, televisão e cinema, de 1965 a 1976
Curadoria de Exposições de Moda: Museu Nacional de Belas Artes, Museu Histórico Nacional, Itau Cultural, Paco Imperial, Casa Julieta de Serpa, Palacio do Itamaraty (Brasilia), Solar do sungai (Salvador).
Curadoria do I Salao do Leitor, Niterói

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