(Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado | Reuters)

E agora, o que falta? Decência

20 de outubro de 2021, 17:17

Quem, como eu, se deu ao trabalho de ouvir toda a leitura de Renan Calheiro com as denúncias contra Jair Messias e sua tropa assassina – de funcionários a empresários e charlatões com diploma de médico – certamente se fez a mesma pergunta: e agora, o que falta não apenas para extirpar essa aberração da poltrona presidencial, mas em seguida encaminhá-la para um tribunal?

Como justificar o ar distante de Arthur Lira, presidente da Câmara de Deputados em cuja gaveta adormecem mais de uma centena de pedidos de abertura de um processo de impeachment?  

O resumo do relatório lido por Renan Calheiros, resultado de um acordo entre os integrantes do Grupo dos Sete na CPI, é arrasador. Nem os mais patéticos supostos jornalistas bolsonaristas, abarrotados de verbas oficiais, terão como desmontar cada uma das acusações. Vão tentar, claro. Desconfio porém que nem eles mesmos acreditarão no que dizem.

O que falta, repito, para Arthur Lira abrir a gaveta?

Pois algo essencial: decência. Uma dose mínima de decência. E, até agora, não se viu vestígio de poeira de decência da parte do nobre deputado.

Uma CPI tem poder de acusar, mas não de punir. No caso específico de Jair Messias, as acusações devem ser entregues à Procuradoria Geral da República, a quem cabe aceitar ou não uma denúncia a quem goza de foro especial, e abrir uma investigação. Também ministros de parlamentares gozam do mesmo benefício. E então, o que falta? Pois decência.  

Aliás, terá decência o digníssimo doutor Augusto Aras, que ocupa o pomposo posto de Procurador Geral da República? Aceitará abrir a tal investigação, irá enviar o caso diretamente ao Supremo Tribunal Federal, ou seguirá o exemplo do deputado Arthur Lira e mandar tudo para uma gaveta?

Um ponto, porém, me parece indiscutível: mesmo que Jair Messias consiga escapar da lei e da justiça, o relatório lido por Renan Calheiros é simplesmente arrasador.  

Qualquer mente minimamente esclarecida terá tomado noção do grau de barbárie cometida pelo presidente. E de sua demencial irresponsabilidade, sua cumplicidade na maioria das mortes causadas na pandemia.  

É inevitável que aconteçam punições. O general da ativa Eduardo Pazuello, por exemplo, dificilmente escapará de uma bordoada sonora. Outro general, este empijamado mas igualmente perigosíssimo, o tal Braga Netto, só de ter sido exposto já levou a dele. E por aí vai.

O trio de filhotes presidenciais acusados já mostraram sua reação: as gargalhadas do senador Flavio Bolsonaro mostram uma mescla de deboche e pânico. Sabe que o que pode vir por aí é complicado.

De Jair Messias, não há o que esperar. Nunca é demais recordar que se trata de um psicopata sem volta. Sua noção da realidade é nula, e assim continuará sendo.

Enfim, reiterando: mesmo que não aconteça nada, o que já aconteceu com a leitura do relatório é algo demolidor para o pior e mais abjeto governo da história da República.

Agora, é esperar por um pingo de decência. Aparecerá, esse pingo?

Escrito por:

Eric Nepomuceno é jornalista e escritor

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