Já vivemos ditadura. Não querer ver é ser aprendiz de genocida

21 de março de 2021, 18:45

As últimas movimentações do presidente da República demonstram, de uma forma muito clara, que ele já pôs em prática sua maior promessa de campanha, que é tentar exterminar, sem dó nem piedade, a democracia brasileira. Desde que assumiu o governo, que exerce torpe e inadequadamente, o tenente reformado e afastado do Exército por mau comportamento e perigo à Instituição, diga-se, vem consolidando, pari passu, seu grande plano de desgoverno que é fazer do País um gigantesco gabinete do ódio, sem espaço para “exotismos” como oposição, esquerda, direitos humanos, igualdade social, desarmamento e quejandos.

A pandemia que marca a história da Humanidade serviu como uma luva para esses intentos do malsinado chefe da Nação eleito com os votos de incautos e mal intencionados. Começamos até bem, temos que reconhecer, o enfrentamento ao corona vírus. Tínhamos um Ministério da Saúde, bem ou mal. Tínhamos um ministro médico que ganhava apoio da população. Havia esperança e certo otimismo de vencermos essa guerra. Mas foram poucos dias. Logo. o presidente da “gripezinha” mostraria a que veio.

O ator principal do governo, o presidente da República, tinha outros planos para o País e para o seu povo. E tratou de pô-los em prática. Começou desmontando o que, bem ou mal, vinha dando certo: afastou o ministro da Saúde e desmantelou o ministério, que virou uma pasta militar. Ouviu os seus auxiliares mais insanos – a própria família dele à frente – e passou a defender tratamentos “precoces” ineficazes, implodindo uma política de imunização construída ao longo de décadas e que era referência mundial. Instituiu o negacionismo institucional. E – não tem como negar – contribuiu sobremaneira para o volume de mortos que a Covid-19 provoca no Brasil, dando ao país uma liderança criminosa e horrenda, no mundo todo.

A maneira como o “mito” trata a pandemia firmou o Brasil como pária planetário. Faz tudo ao contrário do que a lógica e a ciência determinam. Não tem nenhum respeito da comunidade internacional. A política externa dele é uma piada sem graça, tocada por um ministro que é ridicularizado a cada ridícula aparição na mídia ou a cada intervenção desastrada nos eventos que se reúne a diplomacia global. Desestabilizou a população levando-a a um nível de desesperança e de miséria que parece coisa calculada e executada por uma política econômica ruinosa e desacreditada, hoje em dia, até pelo próprio presidente.

A etapa que vivemos nesse atual e lamentável governo é do autoritarismo indisfarçado. Retirou-se do baú a odiosa Lei de Segurança Nacional, penduricalho jurídico legado pela ditadura militar que a covardia do Legislativo, ao longo dos tempos, nunca ousou revogar. Em tempos de ensaio geral para a tirania, qualquer grupo de soldados da Polícia Militar, agora, “enquadra” na LSN qualquer crítico do governo federal. Tudo com o aval dos quadros e simpatizantes bolsonaristas – como o vereador filho do presidente que pensa ser mais que é – que exorbitam seus poderes e conseguem, acredite-se, o aval de ninguém menos que o ministro da Justiça.

Nesse contexto, a palavra “genocida” virou a senha dos aliados do governo para dedurar opositores. Como se tratasse de uma mentira. O que está ocorrendo no Brasil, vamos combinar, é uma devastação populacional que já ceifou quase 300 mil vidas e que existe por causa do descaso com o qual a Covid-19 vem sendo tratada pelo governo federal. À revelia de quase todo o resto do mundo, da ciência e da razão. A não ser na cabeça do presidente, o governo fracassou redondamente no combate à pandemia.

Mas, o governo errou por incúria? Por incompetência? Ou será que fez tudo de caso pensado? Se fez, o nome disso não é outro. Essa aberração que é o tratamento dado pelo governo à pandemia é o que gera, hoje, quase todas as críticas dirigidas ao presidente e o governo dele. É por conta disso que ambos são acusados pelo Tribunal Internacional. O uso da palavra “genocida”, para classificar quem responde pelas morte de multidões, é de domínio público. E cresceu ainda mais justamente após o governo, assumindo seu viés autoritário, passou a enquadrar abusivamente quem, fazendo coro ao país e ao mundo, chama o presidente de genocida,.

Em tempo. Desse genocídio à brasileira, também pode ser acusado todo aquele que atrapalhou o combate à pandemia e ajudou a crescer o número de mortos. Estão no mesmo esgoto, além do governo e seu mandatário, os apoiadores do chamado “tratamento precoce” através de remédios ineficazes para combater a Covid-19 e que podem servir até para piolho, e só. A defesa dessas panaceias – em alguns casos, letais – e a prescrição por médicos inconsequentes, inclusive.

Escrito por:

Jornalista e compositor, com passagem por veículos como o Jornal do Commercio (PE) e as sucursais de O Globo, Jornal do Brasil e Abril/Veja. Teve colunas no JC, onde foi editor de Política e Informática, além de Gerente Executivo do portal do Sistema JC. Foi comentarista político da TV Globo NE e correspondente da Rádio suíça Internacional no Recife. Pelo JC, ganhou 3 Prêmios Esso. Como publicitário e assessor, atuou em diversas campanhas políticas, desde 1982. Foi secretário municipal de Comunicação. Como escritor tem dois livros publicados: "Bodas de Frevo", com a trajetória do grupo musical Quinteto Violado; e "Onde Está Meu Filho?", em coautoria, com a saga da família de Fernando Santa Cruz, preso e desaparecido político desde 1973. Como compositor tem dois CDs autorais e possui gravações em outros 27 CDs, além de um acervo de mais de 360 canções com mais de 40 músicos parceiros.

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