Jorge Chaloub, pesquisador sobre direita conservadora, não vê motivo para pânico em alta de popularidade

27 de agosto de 2020, 19:56

pânico em alta de popularidade

No melhor estilo “populista” – embora neste conceito caibam muito mais ideias do que a simplificação feita aqui -, Bolsonaro confiscou em público o projeto “big bang” do ministro Paulo Guedes. O que estava para ser anunciado como um estrondo foi reduzido a um “traque”, daqueles que o autor sai de fininho, antes que o resultado seja catastrófico. Ainda assim, o governo não conseguiu conter os efeitos colaterais. A bolsa despencou, o dólar subiu e o “mercado” ficou nervoso, antevendo o que certamente virá. Uma investida em verbas a qualquer custo e, receiam eles, a quebra do teto de gastos.

Bolsonaro que sempre discursou contra a reeleição, não quer nem ouvir falar na possibilidade de não ser reconduzido ao cargo. Cheio de si, com um pequeno aumento de popularidade, não hesitou em reduzir publicamente o seu “Posto Ipiranga”, a “Poste Ipiranga”, transformando o que antes era chamado de super ministro, num pau mandado. Guedes recebeu a incumbência de melhorar o teor do programa “Renda Brasil”, um arremedo de Bolsa Família. Ao contrário do programa do PT, que além da ajuda financeira era porta de entrada para atendimentos nas políticas sociais, o de Guedes surrupia direitos adquiridos na luta, pelos trabalhadores, como o abono salarial.

Enquanto isto, a direita adestrada – leia-se FHC – procura “amiguinhos” para com ele descer para o playground e formar uma “frente amarela” contra Bolsonaro, desde que a pauta seja dele, óbvio. Nem a frente sai, nem tampouco Bolsonaro consegue organizar a zona que está o seu governo. Com debandadas, brigas e os militares quietos, assoviando e olhando para o alto, para não perderem os carguinhos, a ópera bufa segue, no Planalto. E, ainda assim, pesquisas apontam um verdadeiro fenômeno. Bolsonaro adquire mais uns pontinhos na aceitação popular, mesmo com quase 120 mil mortes no currículo. Para o professor de Ciências Políticas, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Jorge Chaloub, pesquisador da direita conservadora e entrevistado pelo 247,ainda é cedo para pânico. Há muito por acontecer até que Bolsonaro possa dizer que é senhor da região Nordeste, de onde, agora, (depois de chamá-los de “paraíbas”), não tira o pé.

– 247 – O que contribui, neste momento, para esta elevação na aceitação a Bolsonaro?

– Jorge Chaloub – Esse crescimento apareceu na pesquisa Datafolha, mas nem sei se dá para colocar isto assim… Observando a pesquisa, eu acho que sem dúvida isto passa pelo auxílio emergencial sugerido pela oposição e implementado por Bolsonaro. Mas é necessário observar isto de maneira mais complexa e ampla. O Bolsonaro já tem uma série de outros apoios do universo pentecostal, militar e do empresariado, que são bases importantes da sua popularidade. E mesmo quando você olha os dados da pesquisa Datafolha com calma, a verdade é que o aumento em relação a quem recebe os 600,00 é um aumento que existe, mas não é, digamos, completamente desproporcional.

– JC – O fato dele ter reduzido durante um tempo a fala mais agressiva resultou em que pessoas, antes com resistência a ele por esta agressividade –, e temos pesquisas na Ciência Política que diz que falas muito agressivas geram resistência numa parte da população –, acharam que ele tinha melhorado e passaram a avaliar melhor o governo. Só que tem dados na pesquisa Datafolha, preocupantes para ele. Parte significativa da população (41%), diz não confiar no Bolsonaro. Apenas 36% dizem que confiam. Esse dado é importante porque momentos como o da pandemia, costumam gerar um aumento de popularidade. É hora de você conseguir a unidade nacional. Na Itália, mesmo com aquele início, o primeiro-ministro teve aumento de popularidade. O Bolsonaro tinha a chance de aumentar essa popularidade e não concretizou isto. Momento de crise são propícios para os governantes gerarem união nacional. Para começar, a pesquisa formula mal a pergunta em relação à pandemia.

– 247 – Qual a falha na pergunta?

– Quando você pergunta se a “culpa” é do Bolsonaro, sobretudo para quem não é um opositor renhido dele, gera estranheza, porque a pandemia existe. E ele é culpado pela maneira como lidou com a pandemia, mas não pela pandemia. A pergunta da pesquisa leva a pessoa avaliar se ele é culpado pela pandemia e aí vão ter aqueles que vão dizer que a culpa é dos chineses, sei lá de quem mais…

–  247 – Mas você acha que há uma intenção, nisto?

– JC – Eu não diria isto, porque a relação do Bolsonaro com a Folha é, digamos, ambígua. Eles apoiam a pauta econômica, mas têm uma crítica forte ao comportamento dele. Estão, como é bem ambígua esta relação, eu nem diria que foi proposital, mas me parece que esta coisa da culpa, não é que invalida, mas nos obriga a botar uma dúvida na pesquisa. Para uma pessoa que não é muito politizada, se você pergunta: a culpa da pandemia é do Bolsonaro? A pessoa pode responder: olha, a pandemia existe, na Itália morreram não sei quantas mil pessoas. E o Bolsonaro não governa lá. A pergunta mais adequada, para mim, seria: ele lidou bem com a pandemia? Ele poderia ter reduzido o número de mortes? Talvez o resultado fosse diferente.

– 247- É. Poderia ser: ele tomou providências responsáveis, com relação à pandemia?

– JC – Então acho que tem que ponderar muito isto. Agora, apoio ao governo Bolsonaro… Na verdade tem muitos elementos a serem considerados também. O Bolsonaro não é um presidente em segundo ano de mandato. Atualmente ele tem a segunda pior avaliação da história. Só o (Fernando) Collor tinha uma avaliação pior que a dele. Enfim, as pessoas têm uma ideia de que ele representa uma alternância de poder. Então, também não é simples você chegar e dizer que tem que tirá-lo de qualquer maneira. Tem uma série de questões aí que sugerem cautela ao ler esta pesquisa. O ponto fundamental é só levar em conta que, sim, inegavelmente os R$ 600,00 vão beneficiar a popularidade dele. Agora, não dá para dizer que são só os R$ 600,00.

– 247 – E quais os outros aspectos que poderiam ter contribuído para esse aumento?

– JC – Sem dúvida o Bolsonaro tem uma base de apoio que passa por um conservadorismo moral que ele representa por ideias de família, de ordem. Muita gente apoia o Bolsonaro por um discurso de Segurança Pública… Ele tem um apoio das forças de segurança, de modo geral, muito significativo… E tem um amplo apoio dentro das igrejas pentecostais. Sem contar o apoio entre os conservadores da Igreja Católica… Enfim, ele tem uma estrutura aí que não abandonou o bolsonarismo.

– 247 – Esta estrutura é bastante fiel, não parece? Esta que forma os 30%?

– JC – Olha eu nem sei se são 30% mesmo. Eu acho que tem variações aí, mas eu acho que é uma estrutura que não se resume agora ao Nordeste e aos R$ 600,00. Ora, ele melhorou agora, quando apareceu na pesquisa Datafolha. Este é o primeiro ponto. O segundo ponto é que, sim, a parcela dos R$ 600,00 aprova ele mais que a média, mas também não é aquela coisa de dizer: este é um movimento que justifica tudo. Eu acho que o Bolsonaro continua tendo bases fortes, mas não houve uma mudança significativa.

– 247- O Sul continua firme, dando apoio…

– É, o Sul. E ali a base dele é bastante diversa, também. Não existe um perfil único de eleitor bolsonarista.

– 247- No segmento jovem, pela pesquisa, ele não tem o índice de rejeição que a gente esperava. Qual a visão que você tem disto?

– JC – Inegavelmente você teve uma ampliação dos discursos de direita nesta parcela jovem. A juventude também é uma parcela bastante heterogênea. Você tem o jovem que é pentecostal, por exemplo, e você tem o que não vai justificar pelo aspecto religioso. Existem grupos de jovens onde este discurso tem penetração. Eles têm aquela ideia de que é preciso surgir um partido novo, e por aí vai. Este eleitorado existe e vai se vincular ao Bolsonaro. A gente tem aquela ideia de que a juventude é um terreno propício para a esquerda, nesse mundo de ampliação pelas redes sociais. Ela não é mais, mas eu também não sei se no momento anterior a gente poderia falar isto também com tanta certeza.

– 247 – Eu vi o vídeo de um jovem, visivelmente da classe média alta, dizendo que o PT não detém a hegemonia do discurso político e não dá espaço para que haja o contraditório, por isto ele fecha com o Bolsonaro. Como você vê esse discurso? É este o eleitor jovem do Bolsonaro?

– JC – Eu acho que este discurso ante sistema, a ideia de que a esquerda é hegemônica, é um discurso forte, presente, e é uma das forças do Bolsonarismo. É um discurso presente na juventude. Como tem também o jovem de periferia alinhado com o discurso dele. Esse jovem também vai falar em liberalismo, em capitalismo, pregando o fim do estado, ou a sua redução máxima. Este segmento existe e eu acho que, em certa medida, pelo fato de o PT no poder ter sido uma longa experiência, isto permitiu que se construísse o discurso de que o PT e o poder são o sistema.

– 247 – Você acha então que eles consideram que votar contra o sistema é votar contra a esquerda?

– JC – A ideia de que a esquerda é o sistema, tirando o período da ditadura, vem desde o segundo governo Fernando Henrique. E, depois, quem passou mais tempo governando o país foi o PT. Então este discurso contra o sistema vai abrir uma brecha para que essa juventude que viu o PT governar, se identifique com esse discurso, muito bem armado do ponto de vista da divulgação política, quer seja pelas redes sociais, ou com a prevalência em certa mídia. Os colunistas incutem nesta juventude que votar no PT ou em um partido de esquerda é ser de direita. No período da ditadura, ou até o fim do governo Fernando Henrique, ser de esquerda era ser de oposição. Parte da direita soube vender esse discurso que tem penetração na juventude, de que você tem que tirar o PT, porque o PT é tudo o que está aí, e é preciso mudar.

– 247 – Olhando pelo lado da esquerda, como atrair essa juventude com um discurso eficiente, que conquiste a base jovem e a parcela de centro-direita?

– JC – Esta é a pergunta que vale um milhão. Não dá para pensar que só eleitoralmente dá para fazer isto. Você precisa ter um movimento de renovação de liderança, de movimentação de base, e por aí vai. Num curto prazo, eu vejo a esquerda com uma resistência forte por parte da sociedade. Porém, isto não é estável. Tem espaço para fazer política e tentar modificar isto. Eu não acho que isto vai se dar num curto prazo, também não acho que o poder desgastou a esquerda. Algumas dessas trajetórias vão se desgastar com o tempo e enfrentarão problemas. Só torço para que tenha eleição até lá.

– 247 – O Fernando Haddad, ex-candidato à presidência da República, pelo PT, disse em uma entrevista recente, ao 247, que os nossos teóricos envelheceram e que é preciso haver uma renovação nos discursos. Você concorda com isto?

– JC – Não sei. Eu acho que o que tem nos faltado não é, necessariamente, jovens intelectuais. Existe um certo fetiche da fórmula alquímica, mágica, do discurso. Não acho que é assim que funciona. Não acredito que seja o envelhecimento dos teóricos. Eu acho que houve uma certa burocratização da esquerda que se distanciou da sua base. Isto de fato existe. Houve uma certa acomodação no poder. Mas também é difícil você resistir, com tantas estruturas que operam contra. Não sei se a questão é só intelectual. Acho que passa por organização política, por um lado, e por outro tem também o tempo no mundo. Este mundo tem tendido mais para a direita. Enfim, os movimentos passam muito por aí. Não sei se é uma questão de ausência de repertório.

– 247 – Dá para analisar a mistura: pandemia, Bolsonaro, mais isolamento social? Qual foi o resultado disto?

– JC – É precipitado cravar o resultado disso. Acho que ainda é cedo para saber, porque a pandemia ainda está em curso. Ainda temos aí a perda de cerca de mil pessoas por dia e os que estão próximos delas tendem a ser afetados, certamente. Mas o esperado é que o modo como Bolsonaro lidou com a pandemia, que o custo disto para ele gerasse maior desgaste do que até agora gerou.

– 247 – Esse quadro gerou um imobilismo, necessariamente na esquerda…

– JC – Sim. Isto impediu que a esquerda, que acredita na ciência, que cumpre o isolamento, se movimentasse. Impediu movimentos importantes, como a ocupação das ruas, do mesmo modo que você teria se não existisse a pandemia.

– 247 – A esquerda não poderia ter tomado a iniciativa de, através das suas lideranças nas comunidades, ter se aproximado mais das suas bases durante a pandemia?

– JC – Convém tomar cuidado com isto, porque poderia soar oportunista. A verdade é que parte desta liderança das comunidades teria problema se a esquerda reivindicasse falar no lugar dela para fazer esta articulação. A gente pode diagnosticar que falta base, mas não sei se nós deveríamos pensar que fossem os partidos a organizar os trabalhos de auxílios nas comunidades. Até porque as lideranças nas comunidades são bastante fortes. O que a gente poderia questionar seria: os partidos deveriam ter sido mais presentes? Mais proativos? Mas que não é simples esta articulação, com certeza não é. Não é uma questão só de vontade. É mais complicado.

– 247 – Da mesma maneira que não é simples o Bolsonaro se deslocar para o Nordeste e achar que conquistou a região. Como você vê isto?

– Não é simples. Não é achar que dando os R$ 600,00, ou botando um chapéu de cangaceiro tudo estaria pronto. Não é pensar que as pessoas têm vínculos políticos estáticos, mas também achar que uma simples liberação de verbas já tomou o Nordeste… Temos que ter calma. Tem muita coisa para acontecer, ainda. Não dá para simplificar assim não. É evidente que um dinheiro como este modifica a maneira de pensar, mas não dá para cravar que chegou o dinheiro, mudou.

Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia

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