Libaneses relatam luta pela vida em meio aos ataques de Israel: ‘se demorássemos mais três horas, não estaríamos aqui’
Em paralelo à guerra empreendida contra o Irã, em conjunto com os Estados Unidos, Israel também tem atacado o território do Líbano desde o início de março, com a desculpa de estar perseguindo supostas células do Hezbollah, mas gerando consequências que afetam principalmente as infraestruturas básicas de algumas regiões, e devastam a vida de famílias libanesas inocentes.
Nas ruas de Hamra, na região oeste de Beirute, uma simpática senhora de aproximadamente 70 anos, parada na porta de uma escola de ensino básico, pediu para conversar com a reportagem de Opera Mundi.
O prédio da instituição de ensino abriga sete famílias que perderam suas casas, totalizando 240 pessoas. Com um sorriso gentil, a senhora convidou a repórter brasileira a entrar e sugeriu uma entrevista com Ali Matar, um enfermeiro de 40 anos responsável pelos cuidados médicos dos desalojados.
Formado pela Universidade de Duluth, em Minnesota, nos Estados Unidos, ele perdeu sua casa e todos os seus pertences nos bombardeios israelenses no início de março, que atingiram Dahieh, bairro de maioria xiita localizado no subúrbio sul de Beirute. Há 18 dias, a escola tem sido o refúgio de Matar, sua esposa e sua sogra, que chorou enquanto o enfermeiro contava detalhes do ataque.
“Estamos acompanhando as notícias todos os dias, mapas e imagens. Eu e quase todas as pessoas aqui perdemos tudo. Fiquei sem minha casa e minha loja de itens eletrônicos. Ainda tenho a marca e um dia vou recuperá-la. Aqui no Líbano estamos acostumados a recomeçar. Não podemos desistir. Sempre que destroem tudo é um problema, mas já sabemos como lidar com isso, é assim desde 2006”, relatou o profissional de saúde.
Matar conhece todas as pessoas que estão vivendo na escola. Quando perguntamos o número de crianças, respondeu de prontidão: “temos aqui três crianças com menos de três anos, há 17 que têm entre um a cinco anos, e 20 que têm entre cinco a dez anos”.
O enfermeiro também nos mostrou a cozinha comunitária, que tem recebido doações de voluntários e pessoas comuns. “Hoje, começaram a distribuir medicamentos. O Ministro da Saúde esteve aqui. Eles trouxeram uma van para atender essas pessoas. Estão vindo praticamente todos os dias”, comentou.
Ele contou que os ferimentos que trato “são como cortes no dedo, rosto, ou algo assim. Nada muito grave. Temos primeiros socorros aqui. Minha esposa e eu somos enfermeiros. Então, ela atende as mulheres e eu os homens”.
Sem poder voltar à casa, o enfermeiro descreveu como foi a fuga. Segundo ele, os alertas israelenses, embora existam, não são suficientes para garantir segurança ou salvar propriedades. A área onde mora segue sob monitoramento e ataques diários, tornando qualquer retorno extremamente perigoso.
“Estávamos em casa quando começaram a bombardear. Pouco depois de sairmos, eles destruíram os três andares do prédio ao lado. Se tivéssemos ficado mais três horas durante o dia, não estaríamos aqui agora”, recordou.
Enquanto mostrava as imagens chocantes dos danos, ao lado da esposa e da sogra, Matar apontou para o que restou de seu quarto e de seu apartamento. Nos registros em vídeo, a devastação é completa.
“Quando fui lá tirar fotos, consegui pegar alguns pertences pessoais. É a primeira vez que a minha família vive em uma coisa assim”, contava, enquanto a sogra fazia um gesto como se toda a sua vida e história tivessem sido depositadas em uma pequena caixa.
Matar continua: “a situação aqui não é perfeita. Não é como estar em casa, não é a mesma vida. Nada, absolutamente nada, substitui o nosso lar”. Os olhos, em meio ao desabafo, começam a mostrar as primeiras lágrimas.
Desde o início dos ataques, no dia 2 de março, mais de um milhão de libaneses, cerca de 20% da população, enfrentaram deslocamento forçado, principalmente na região sul do país, onde Israel mantém em curso uma invasão por terra.
A resiliência de um pombo
Caminhando entre um mar de barracas alinhadas em frente a um hotel de luxo e um restaurante outrora badalado, o senhor Abu Muhammad, de 85 anos, carrega o olhar de quem viu Israel nascer e, desde então, testemunha seus crimes.
Morador de Burj Al Barajneh, subúrbio ao sul de Beirute, ele vive atualmente em uma tenda improvisada ao lado de seu carro antigo, em uma das regiões mais nobres de Beirute, na marina de Zaitunay Bay.
Na noite do primeiro bombardeio à capital libanesa, Abu Muhammad e sua família saíram de casa às duas da madrugada. Mesmo com o carro danificado, agradeceu a Deus por ter conseguido usá-lo para chegar à Praça dos Mártires, já que não pode contar com o transporte precário, como quase tudo no país hoje. Ele conta que ficaram na região por uma semana, até que o governo proibisse os desabrigados de permanecer no local.
Aconteceu o mesmo em 2024, quando os ataques forçaram sua família a se deslocar. Na volta ao bairro, após a primeira fuga, a casa ainda estava de pé. “Estava toda destruída, mas nós a consertamos. Não havia janelas, nem portas, nada. Reformamos tudo de novo, como se estivéssemos construindo uma casa nova”, lembrou.
Com uma voz que o tempo fez baixa e mãos que foram se tornando ásperas, mas ainda gesticuladas, Muhammad salientou que a situação se arrasta há 48 anos, e continua sem ter perspectiva de solução.
Ele afirma que o Reino Unido, os Estados Unidos e outros países usam Israel como uma bactéria, um vírus, enviado para desestabilizar a região, para tomar o que pertence ao povo libanês.
“Essa é a história do Oriente Médio, e não vai se resolver. Eles querem controlar o petróleo, o gás, querem controlar tudo. Colocam pessoas no poder e dizem: ‘façam isso e nós os protegemos’. Mas sempre mantêm a situação como está”, comentou.
Sobre a resistência à ocupação israelense, especialmente no sul do país, Abu Muhammad disse que quem defende a terra é gente comum. Não são estrangeiros, nem desconhecidos. São donos do território, protegendo-o de israelenses que seguem atirando, destruindo casas e ocupando terras alheias.
“Veja só uma coisa: há pombos aqui, que vão e voltam, sempre retornam ao seu lugar, é daa natureza deles jamais abandonar a sua terra. Conosco é a mesma coisa: essas pessoas são libanesas, não vieram de fora, estão defendendo o que é seu. Eles [israelenses e o Ocidente] não querem solução. Se quisessem, já teriam feito há muito tempo. Querem que continue tudo assim”, concluiu.

A luta de uma mãe síria
Feni Oluyali, uma refugiada síria que também vivia no subúrbio de Dahieh, agora habita uma barraca improvisada de pouco mais de 1,80 metros de largura, onde dorme com outras seis pessoas. Além do trauma dos bombardeios, carrega a angústia com a saúde das duas filhas pequenas, ambas com problemas nos olhos.
“Paramos na rua, sem tendas ou barracas. Chovia muito e fazia um frio intenso. Só depois nos deram uma tenda. Estamos sofrendo muito, e os olhos das minhas filhas doem”, contou.
Emocionada, ela reclama sobre a falta de banheiros e até de alguns itens básicos de higiene pessoal no local.
Além das cicatrizes deixadas pelos ataques, Feni enfrenta o preconceito contra refugiados sírios. Ela explica à reportagem de Opera Mundi que, embora haja voluntários distribuindo alimentos, há quem diga para não darem comida aos sírios.
“Fui até um carro que distribuía comida, procurando almoço para as crianças. Quando disse que era síria eles me negaram. Disseram que não havia comida para mim. Voltei de mãos vazias para a barraca”, lamentou.
A pele da jovem mulher está castigada, alternadamente, pelo sol e pelo vento cortante. Enquanto relata a luta diária de mães que tentam, sem sucesso, alimentar os filhos, ela compartilha a hostilidade que sua família enfrenta: “muitos nos dizem para voltar ao nosso país, que não devemos ficar aqui”.
Seu futuro é incerto. Não tem mais casa na Síria; sua vida estava no Dahieh, perto de pessoas com histórias similares. “Até meu marido eu abandonei. Estou sozinha. Se pudesse ir com minhas filhas para outro país, eu iria. Não quero ficar no Líbano nestas condições. Para nós, mulheres, tudo é ainda mais difícil”, frisou.

Crimes de guerra
Desde que os ataques israelenses ao Líbano se intensificaram, o Ministério da Saúde libanês emite relatórios diários com os números de vítimas fatais e feridos, incluindo os trabalhadores da saúde mortos.
Até a noite desta quinta-feira (26/03), os números indicavam 1.116 pessoas mortas e 3.229 que estão feridas. Do total de mortes, 121 são crianças e 44 são médicos, paramédicos e enfermeiros. Além disso, 18 estabelecimentos de saúde foram alvejados.
A Anistia Internacional declarou que Israel não forneceu provas para embasar suas alegações de que instalações médicas estariam sendo usadas para propósitos militares, destacando também que o país já recorreu à prática de assassinar profissionais de saúde durante o conflito no Líbano em 2024, uma ação classificada como crime de guerra.
No Hospital Público de Baalbek, o diretor da instituição, doutor Abbas Shoker, disse a Opera Mundi que o suporte do Ministério da Saúde foi crucial para manter o funcionamento do hospital, que atualmente possui equipamentos completos nos centros cirúrgicos, medicamentos em estoque e leitos ocupados na UTI e nas enfermarias. Ele condenou veementemente os ataques israelenses, dizendo que a população local já “está acostumada” com a ofensiva.
Segundo Shoker, Israel afirma estar alvejando organizações ou o Hezbollah, mas, na realidade, ataca civis. “Os feridos que chegam ao hospital são, na maioria, mulheres e crianças, e chegam também corpos dilacerados. Ou seja, no local atingido não sobram feridos. Estes vêm dos sítios ao redor do bombardeio”, explicou.
Um outro médico da unidade, conhecido como doutor Mohammed, contou que dezenas de pessoas foram atendidas no pronto-socorro durante os ataques da semana passada, sobretudo mulheres e crianças. Apenas no último bombardeio, houve 36 mortos e dezenas de feridos.
“O mais difícil é explicar para as crianças que chegam feridas à procura dos pais, principalmente quando eles morrem em explosões. Tento sempre acalmá-los para não traumatizá-los ainda mais. Infelizmente, tenho vivido essa realidade desde 2011”, comentou o doutor Mohammed.
Antes de se despedir, o diretor Abbas Shoker agradeceu o trabalho dos jornalistas que “estão sempre presentes” e pediu permissão para prestar uma homenagem aos profissionais de saúde mortos nos ataques no sul do país, na capital Beirute e também no Vale do Bekaa.
“Perdemos muitos profissionais. O doutor Hisham, no sul, foi martirizado. Muitos enfermeiros também morreram. Que Deus tenha misericórdia deles”, lamentou.
Reprodução: OperaMundi