Jair Bolsonaro (Foto: Reprodução/SBT)

Na entrevista ao SBT, Bolsonaro já admite indiretamente a derrota

20 de setembro de 2022, 08:14

Na interessantíssima “entrevista” ao canal amigo SBT em Londres ontem Bolsonaro disse uma vez, e depois fez questão de repetir: “”Eu digo, se eu tiver menos de 60% dos votos, algo de anormal aconteceu no TSE, tendo em vista obviamente o ‘data povo’, que você mede pela quantidade de pessoas que não só vão nos meus eventos, bem como nos recepcionam ao longo do percurso até chegar ao local do evento”. 

Além de uma suspeita grave lançada sobre a isenção da maior autoridade eleitoral, o que emerge nessas palavras é uma clara admissão de derrota já seguida de uma narrativa para tentar justificá-la. Mais do que qualquer outro, Bolsonaro tem acesso não só às sondagens que são dadas ao conhecimento de todos nós, mas a muitas outras mais detalhadas e frequentes. Sabe muito bem das tendências e humores dos eleitores e que eles se inclinam majoritariamente a favor de Lula e contra ele. Os trackings dão vários e diários, todos apontando na mesma direção.

Bolsonaro já não está preocupado com vencer a eleição mas em como duvidar de seu resultado, sabotar sua credibilidade e preparar a narrativa para o período seguinte, em que precisará manter sua base unida em em torno de um relato de fraude, seguindo os mesmos passos trilhados por Donald Trump, seu guru, ao perder as eleições nos Estados Unidos. Ele vai dizer que não perdeu e que a eleição foi roubada para não ter também que admitir erros em sua gestão. 

Atacar o TSE, as pesquisas e veículos de comunicação é sua forma atual de procurar reagir de maneira indireta o que já sabe na intimidade: a eleição está inapelavelmente perdida. Trata-se de sair acusando, criar a narrativa que una sua base e preparar o próximo ato, em que se vê na liderança da oposição. E até que isso não lhe parece desagradar tanto.

Escrito por:

Jornalista, diretor da Casa do Saber, ex-secretário de Redação e ex-ombudman da Folha, ex-ombudsman da Folha e do iG. Knight Fellow da Universidade de Stanford. Doutor em Letras Clássicas pela USP

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