“Não é inovação, é dominação”: Lula critica poder das big techs em cúpula sobre IA

19 de fevereiro de 2026, 09:14

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu a Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial, realizada em Nova Delhi, com um alerta direto sobre o momento histórico vivido pelas sociedades contemporâneas. Para Lula, o mundo atravessa “uma encruzilhada” em que a quarta revolução industrial avança em ritmo acelerado enquanto o multilateralismo recua de forma preocupante, cenário que torna a governança global da inteligência artificial um tema estratégico e incontornável. “Quando poucos controlam os algoritmos e as infraestruturas digitais, não estamos falando de inovação, mas de dominação, disparou Lula contra as big techs, que em última instância são as empresas que praticam essa “dominância” tecnológica.

Lula destacou que os algoritmos não são meras aplicações de códigos matemáticos, mas parte de uma complexa estrutura de poder. Sem ação coletiva, advertiu, a inteligência artificial tende a aprofundar desigualdades históricas, já que capacidades computacionais, infraestrutura e capital seguem concentrados em poucos países e empresas.

O presidente chamou atenção para o fato de que dados gerados por cidadãos, empresas e organismos públicos vêm sendo apropriados por grandes conglomerados globais sem contrapartida equivalente em geração de valor e renda nos territórios de origem.

O presidente criticou o modelo de negócios predominante dessas empresas, baseado na exploração de dados pessoais, na renúncia ao direito à privacidade e na monetização de conteúdos chamativos que amplificam a radicalização política. Para ele, o regime de governança da inteligência artificial definirá quem participa, quem é explorado e quem ficará à margem do processo.

No discurso, o presidente ressaltou ainda, que toda inovação tecnológica de grande impacto carrega um caráter dual, capaz tanto de ampliar o bem-estar coletivo quanto de lançar sombras sobre o futuro da humanidade. Ele citou a aviação, o uso do átomo, a engenharia genética e a corrida espacial como exemplos históricos desse dilema, afirmando que a revolução digital e a inteligência artificial elevam esse desafio a níveis sem precedentes.

Segundo Lula, essas tecnologias já transformam positivamente a produtividade industrial, os serviços públicos, a medicina, a segurança alimentar e energética e as formas de conexão entre pessoas, mas também podem fomentar práticas extremamente nocivas. “O emprego de armas autônomas, o discurso de ódio, a desinformação, a pornografia infantil, o feminicídio, a violência contra mulheres e meninas e a precarização do trabalho são faces sombrias desse processo”, afirmou. Ele acrescentou que conteúdos falsos manipulados por inteligência artificial distorcem processos eleitorais e colocam em risco a democracia.

Citando dados da União Internacional de Telecomunicações, lembrou que 2,6 bilhões de pessoas ainda estão desconectadas do universo digital e que, em 2030, cerca de 660 milhões continuarão sem acesso à eletricidade. Defendeu a regulação das big techs como parte do imperativo de salvaguardar direitos humanos, a integridade da informação e as indústrias criativas.

“Colocar o ser humano no centro das decisões é tarefa urgente”, afirmou, ao mencionar que o Congresso Nacional discute uma política de atração de investimentos para o setor de dados e um marco regulatório para a inteligência artificial. Lula lembrou ainda que o Brasil lançou, em 2025, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, com foco na melhoria da qualidade de vida, na oferta de serviços públicos mais ágeis e no estímulo à geração de emprego e renda. Segundo ele, esse paradigma também orientou a declaração aprovada na cúpula dos BRICS realizada no Rio de Janeiro no ano passado.

No plano internacional, Lula afirmou que o Brasil participa da iniciativa chinesa para a criação de uma organização internacional de cooperação em inteligência artificial voltada aos países em desenvolvimento e mantém diálogo com a parceria global de IA surgida no G7. Ressaltou, porém, que nenhum desses fóruns substitui a universalidade das Nações Unidas para uma governança internacional da inteligência artificial que seja multilateral, inclusiva e orientada ao desenvolvimento.

Ele destacou o Pacto Digital Global aprovado em Nova Iorque em setembro de 2024, que instituiu um Painel Científico Internacional independente sobre inteligência artificial, descrito por Lula como o primeiro órgão científico global dedicado ao tema, reunindo especialistas, fatos e evidências.

Ao encerrar, o presidente defendeu uma governança que reconheça a diversidade de trajetórias nacionais e assegure que a inteligência artificial fortaleça a democracia, a coesão social e a soberania dos países. Dirigindo-se aos anfitriões, afirmou que a Índia, ao longo de sua história, legou à humanidade contribuições extraordinárias em diversos campos do conhecimento, formando uma herança que ilumina grandes dilemas éticos ligados à justiça, à diversidade, à inclusão e à resiliência. Para Lula, esse patrimônio cultural e intelectual é um referencial poderoso na busca por respostas aos desafios que a inteligência artificial impõe às sociedades contemporâneas.

Reprodução: Capitaldigital

Escrito por:

Jornalista (Reg prof 1618 - DF) 40 anos de profissão, com passagem pelas redações da Radiobras, Jornal de Brasilia, O Globo, Jornal do Brasil, agências de notícias Folhapress e JB, Rádio CBN, IDG Computerworld, Convergência Digital. Editor do blog Capital Digital.

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