Foto: Marcelo Camargo – Agência Brasi

O 8 de janeiro não tem fim

8 de janeiro de 2026, 14:43

Davi Alcolumbre e Hugo Motta fizeram as contas e decidiram que o melhor talvez seja se afastar de eventos sobre o 8 de janeiro. Os dois são as figuras mais visíveis dessas ausências. Mas muita gente está mandando dizer: me deixem fora disso.

Alcolumbre e Motta devem apresentar atestado porque o cálculo político a ser feito, em ano de eleição, é o da sobrevivência. Chega de defesa da democracia. Agora, é disputar voto para a direita, mesmo que no caso de Alcolumbre o mandato lhe assegure mais quatro anos no Senado.

É preciso juntar voto para toda a direita. Hugo Motta necessita do eleitor para a própria sobrevivência em bons níveis. Mas o que importa para os dois é fortalecer a velha direita e assim ficar sempre por perto do que a extrema direita impositiva determina.

A direita antiga, cada vez mais subjugada, precisa manter Lula sob controle e o Supremo sob ameaça permanente. Não faz bem ir eventos, no Planalto e no STF, que tentam preservar a memória do 8 de janeiro como o episódio que mais expressa o fracasso do fascismo e a vitória das instituições.

Motta, Alcolumbre e outros do vasto e vago campo democrático poderão até se reaproximar de Lula, de Moraes e do Supremo mais adiante. Mas não agora, em eventos pela democracia.

Querem desfrutar da retórica genérica dos bons modos protocolares, mas sem afrontar em cerimônias efusivas o fascismo capilarizado em suas bases, o que ajuda a manter Bolsonaro como morto vivo até em pesquisas do Datafolha.

O golpismo permanente ainda soluça, para provar que pode ser acionado com mais força, enquanto Moraes responde dizendo que sabe dessas vidas, mesmo as mais precárias.

Sabe que Malafaia vive como bolsonarista intenso, mesmo pareça só na moita, tanto que mandou que seja intimado a explicar por que chamou os generais do alto comando do Exército de cambada de frouxos, cambada de covardes, omissos que não honra a farda que vestem.

Talvez não aconteça nada com Malafaia, que produziu a ofensa em abril, mas Moraes avisa que, apesar das tentativas de cercá-lo, não se sente intimidado. O ministro e o sistema de Justiça podem se sentir exauridos, mas o serviço ainda está incompleto.

O 8 de janeiro é a data que mais representa a tentativa de golpe, como teatro. mas não tem as principais figuras da trama. Os personagens da invasão de Brasília não são nem coadjuvantes nas tentativas de explicar o que aconteceu.

Foram figurantes levados a Brasília por gente ainda impune, os financiadores que repassaram recursos a laranjas e transformaram essa dinheirama em dinheiro miúdo.

Os grandes financiadores do golpe, não só no 8 de janeiro, são os personagens inalcançados até agora. Continuam atuando em acampamentos virtuais do bolsonarismo, com bandeiras às costas, e a maioria goza da certeza de que escapará.

Alcolumbre e Motta não podem ficar mal com essa gente, que até 2018 atuava em suas cidades médias e pequenas apenas como reacionários, que todo mundo conhece, e em algum momento assumiram a condição de militantes fascistas.

No evento do ano passado no Planalto, no segundo aniversário da invasão, o ministro Edson Fachin leu essa frase de discurso do então presidente do STF, Luis Roberto Barroso:

“Os atentados de 8 de janeiro foram a face visível de um movimento subterrâneo que articulava um golpe de Estado”.

Os integrantes da face visível foram expostos como criminosos e condenados a até 17 anos de prisão. O movimento golpista subterrâneo continua, e nem é tão subterrâneo assim.

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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