Profissional de saúde aplica vacina da AstraZeneca contra Covid-19 em Duque de Caxias 21/04/2021 REUTERS/Ricardo Moraes (Foto: REUTERS/Ricardo Moraes)

O que a extrema direita fez com o desalento dos jovens

19 de julho de 2021, 21:21

Os pesquisadores das universidades, que tantos serviços prestam à saúde pública, poderiam fazer o que o governo não faz nem deseja que façam para que o país fique sabendo quem foge das vacinas.

É só levantar em cada Estado, com dados das secretarias de Saúde, os contingentes de cada faixa etária de vacinação e os respectivos números de vacinados.

Não parece uma tarefa difícil a confrontação das metas de vacinação e a vacinação efetiva, em cada faixa de cada Estado – mesmo que não exista intenção dos governos de facilitar a divulgação desses dados.

O levantamento serviria para muita coisa. Para montar estratégias de convencimento dos que não aparecem, para que se saiba em que faixas estão os negacionistas (e os que escolhem vacinas) e para que tenhamos uma visão
regionalizada da extensão da rejeição à vacina.

Já se sabe da relação comprovada entre mortes e bolsonarismo. Em municípios com prefeitos de extrema direita, há mais infectados e mais mortes. É uma realidade estatisticamente consagrada.

Agora, ficamos sabendo, por pesquisa do Instituto Insper e da USP em 700 municípios, que a Covid-19 matou menos nas localidades governadas por prefeitas. As mulheres administram 13% das prefeituras brasileiras.

Em cidades em que elas mandam, há 43,7% menos mortes e 30,4% menos internações. Uma projeção do Insper mostra que, se metade dos 5.568 municípios do Brasil fosse liderada por mulheres, mais de 75 mil pessoas mortas pela Covid ainda poderiam estar vivas.

O Insper não saiu em busca das explicações para essa realidade. Mas é possível supor, com tudo que já se sabe do que acontece no Brasil, que o negacionismo explica os números das prefeituras sob o comando de homens.

O negacionista é geralmente um macho ativo como militante do machismo. O homem inseguro é o bolsonarista médio, e o bolsonarista é o negacionista. O gestor público é um negacionista empoderado.

Mas o que explica o negacionismo dos jovens, se já se sabe que, quanto mais a vacinação avança nas faixas etárias mais baixas, cresce a rejeição às vacinas?

Em algumas cidades, a demanda por vacinas na faixa entre os 35 e os 40 anos equivale a pouco mais da metade da imunização esperada com base na população daquela faixa etária.

Gerações que não enfrentaram as doenças infecciosas, que não tiveram sequelas e que viverão mais por causa da ciência negam a ciência e acreditam que as vacinas são parte de um complô mundial contra a humanidade.

O jacaré imaginado por Bolsonaro é uma caricatura, mas não está tão longe das ameaças imaginadas por grande parte dos jovens que acreditam em conspirações.

Uma enquete da Unicef em fevereiro anunciou o que viria, quando a vacinação chegasse aos mais jovens no Brasil: 46% deles confiavam mais ou menos, um pouco ou nem um pouco nas vacinas.

Os brasileiros pais das gerações pós-Eco 92 veem os filhos imobilizados diante das grandes questões do século 21, como a crise ambiental, enquanto os europeus se levantam em defesa da Amazônia.

Não houve, desde o início da destruição deliberada da floresta por Ricardo Salles, por ordem de Bolsonaro e por omissão dos militares, nenhuma manifestação de peso no Brasil em defesa dos índios, dos bichos e da mata. Nenhuma.

A Amazônia parece ser muito mais dos jovens europeus que saíram às ruas no ano passado do que dos jovens brasileiros. Não se pede massa de gente em manifestações, mas se esperava barulho, com inquietação, afronta e destemor.

São muitas as tentativas de explicação para a descrença das novas gerações com a política, a ciência, a educação e a cultura que herdaram do século 20. Mas precisava chegar a tanto? Precisava negar a imunização?

Qual será o estrago dessa postura, mais adiante, para os negacionistas e para os filhos deles? Teremos gerações de sequelados por conta da guerra às vacinas?

Não digam, por favor, que não podemos generalizar. Não vamos repetir essa bobagem. Não é de generalização que se fala. Prestem atenção na realidade, nos números, no que está comprovado e pode ser visto.

Sim, a maioria ainda se vacina. Mas uma minoria, que não é pequena, não quer saber da imunização. Aqui, nos Estados Unidos, na França, na Alemanha.

A extrema direita, que acolheu no colo a direita em desalento, degrada a democracia e ataca a ciência e o conhecimento. Precisamos ter logo a medida desse estrago entre os jovens.

Não querer se vacinar pode ser o sintoma mais grave, não do negacionismo, mas da exacerbação do individualismo.

O sujeito que não se vacina acha que é superior e imortal e que deseja se submeter a essa prova de imortalidade, enquanto o “resto” é consumido pela peste.

Não, não é por medo que o negacionista não se vacina, é muito pelo sentimento de que é mais forte e vai escapar.

A morte dos outros é um estorvo no caminho de boa parte dessa gente que, no fim, enxerga a pandemia como um processo de limpeza e eugenia.

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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