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O trumpismo é o caos

6 de janeiro de 2026, 10:38

Estou com uma sensação de ressaca. Ressaca não apenas pelo teor alcoólico do fato de que o governo dos EUA entrou num outro país, matou quase oito dezenas de seguranças e sequestrou o Presidente daquele país. Contudo, manteve o governo e o regime em pé.
A ressaca veio ao sentir a pele avermelhar com a verdade cáustica de que vivo numa região brutalmente frágil.
A ressaca é porque algo toca no fundo da mente sugerindo que vivemos o esgotamento de um ciclo. Como se tivéssemos abusado, por algum tempo, de um tipo de visão, de um tipo de pensamento, de um tipo de acontecimentos. Daí a ressaca.
Nós nos acostumamos às polarizações ou às reações e enfrentamentos. Todavia, neste momento não parece existir tal possibilidade. Não há reação do chavismo, da ONU, da China. Nem mesmo os EUA saem totalmente vitoriosos, na medida que decidiram ser “sócios” do chavismo. O que os líderes da direita ou extrema-direita mundial poderiam afirmar, agora, sobre Trump? Um aliado? Um amigo? Um louco?
Assim, a estrutura mental sob a qual nos forjamos não serve mais para muita coisa.
Aguardamos por horas que alguma informação mais contundente, alguma reação emergisse a partir do que ocorreu. Nada aconteceu.
A sensação é que estamos vivendo um jogo interminável em que os vencedores não convencem.
Um amigo que leu essas minhas quase diatribes respondeu: “o efeito político disso não é a racionalidade estratégica no sentido clássico, mas a brutalização da política. As regras deixam de organizar o jogo, passam apenas a registrar o que já aconteceu. Quem apostava em processos, coalizões ou transições negociadas fica totalmente sem chão, porque o centro de gravidade foi deslocado para a imposição direta de poder.”
Se for assim, o movimento errático do trumpismo é a maior novidade deste século. Uma eterna distopia e disfuncionalidade porque suas ações não formam um sistema, uma composição, uma lógica.
Li o Project 2025. As teses seguem uma lógica. Ocorre que Trump é contra 50% do que está lá. Mesmo assim, colocou 20 expoentes que elaboraram o Project na cúpula do governo. Onde estaria a lógica? Trump transformou Elon Musk em uma espécie de Primeiro-Ministro. Em seguida, o humilhou. Ameaçou puni-lo como estrangeiro. Onde estaria a lógica?
E, assim, parece não haver método no que Trump faz. Não há previsibilidade mínima.
Nisso, se parece muito com o governo Collor. Eu estava na assessoria nacional da CUT quando Collor governava. Deixava todos atordoados. Não bastava a sucessão de ações, planos, medidas provisórias, dedos em riste. Esta era a parte mambembe do circo que Collor montava. A questão é que não havia muita coerência e tudo parecia se vincular a uma outra dimensão, ao flerte com o caos. Não à toa, lançou uma frase enigmática em que afirmava que “deixaria a esquerda perplexa e a direita indignada”. Mas, neste caso, nos perguntávamos, onde ele estaria? O que desejava, afinal?
O caos trumpista tem relação com a queda do país-potência, a perda de empregos do setor automobilístico, a perda de competitividade de parte da agricultura dos EUA, a reação ao pesadelo americano. Porém, fico pensando se não é um caos que nasce de algo mais traumático. Fico matutando se não se alimentou do freio de arrumação causado pela pandemia. E continua se alimentando de “matérias negativas” como o “novo real” sugerido por alguns que adotam o conceito de antropoceno, a influência massiva e transformadora das atividades humanas sobre o planeta, marcando uma era onde a humanidade se tornou uma força geológica capaz de alterar sistemas globais como o clima, a biodiversidade e os oceanos até que chegamos na catastrófica crise ambiental. Que futuro prometeu a pandemia e promete a crise ambiental?

Não acredito que o trumpismo seja apenas uma força bruta que tem um objetivo claro em mente e atua a partir de um script. Se é algo que não segue script é o caos trumpista.
Recentemente, li o livro “Instruções para se tornar um fascista”, um provocativo opúsculo escrito por Michela Murgia e logo no início ela joga na cara: “a essa altura, se o fascismo for bem espertinho e souber aproveitar a oportunidade poderá chegar a governar Estados inteiros sem precisa empunhar uma arma sequer; os instrumentos da própria democracia permitirão que o fascismo se afirme e, por fim, prevaleça.”
Até aí, é o que estamos vendo. Murgia vai além e sugere que no lugar do líder, que ouve a todos, é preciso reconstruir a figura do chefe, que manda e que nunca negocia. Para tal, é necessário que todos sejam ouvidos, invalidando competências e experiências acumuladas. Se todos são ouvidos, instala-se o dissenso permanente, de tal maneira que o verdadeiro e o falso não sejam distinguíveis. O trumpismo tenta se instalar justamente a partir dessa ausência de lógica e de clareza.
Fiquei pensando se essas teses provocativas de Murgia falam do trumpismo. Parece descrever o bolsonarismo, mas descrevem o trumpismo? Porque tudo é errático no trumpismo, tudo parece blefe até que algo acontece. Mas, acontece pela metade. De “cara mau” para “gosto do cara” leva pouco tempo. O trumpismo não estimula o vício em dopamina justamente porque está mergulhado nela.
As novas tecnologias se direcionam, no mundo do consumo, para o que se denomina de “subscrição comportamental”, ou seja, uma submissão irracional às mensagens subliminares que influenciam nossas decisões. Por exemplo, logo após suarmos na academia, aparecem em nossos celulares mensagens que vendem produtos esportivos ou bebidas isotônicas. O que se sugere é que no século 21 esta dinâmica cria um “mercado de comportamentos futuros”, uma aposta no que será consumido e valorizado justamente porque estamos sendo orientados sem saber. Pois bem: o trumpismo mantém alguma semelhança com este “mercado de comportamentos futuros”? Do ponto de vista político, se orienta por alguma estratégia coerente e objetiva?
Este excesso que o caos provoca gera a sensação de ressaca. O cérebro procura interpretar e ver uma lógica numa cozinha maluca funcionando dentro de um turbilhão onde as receitas desaparecem no ar e os ingredientes se misturam na agitação permanente da loucura do mestre cuca. O desafio é compreender a lógica desta cozinha sem ser tragado pelo turbilhão.
Ainda Murgia: “o escopo da comunicação no fascismo não é se fazer entender, mas sim se fazer repetir”.
Continuaremos buscando alguma conclusão, alguma previsibilidade e acabamos vislumbrando, para nosso desespero, que não nos forjamos nesses tempos malucos.

Escrito por:

Rudá Ricci, sociólogo, mestre em ciência política e doutor em ciências sociais. Ex-consultor da ONU e presidente do Instituto Cultiva. Autor, dentre outros livros, de "Desafios do Educador" (Editora Letramento) e "Fascismo Brasileiro" (Editora Kotter)

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