Portugal prende 37 suspeitos de ligação com neonazistas; correspondente de Opera Mundi foi alvo do grupo
A Polícia Judiciária de Portugal (PJ) anunciou nesta terça-feira (20/01) a detenção de 37 pessoas suspeitas de formarem parte da organização 1143, acusada de ser um grupo neonazista que realiza “crimes de discriminação e incitação ao ódio e à violência, ameaça e coação agravadas, ofensas à integridade física qualificada e detenção de armas proibidas”.
A prisão dos 37 suspeitos foi realizada no âmbito da “Operação Irmandade”, promovida pela Unidade Nacional Contraterrorismo, que fez 65 buscas e apreendeu “um vasto material de propaganda e merchandising alusivo à ideologia de extrema direita violenta, assumidamente neonazista, bem como armas diversas e equipamento tático”.
“As pessoas detidas são suspeitas de terem fundado uma organização criminosa com o exclusivo propósito de desenvolver atividades que incitavam à discriminação, ao ódio e à violência racial, tudo isto no seio de uma estrutura hierárquica e fortemente estabelecida, com distribuição de funções”, afirmou o comunicado difundido pela PJ.
As autoridades portuguesas também suspeitam que o grupo 1143 tenha ligação com outras organizações similares, que conformariam uma rede internacional de grupos de extrema direita.
Segundo o diário português Público, dois dos 37 presos são agentes das forças de segurança: um militar e um policial, membro da Polícia de Segurança Pública (PSP). Em seu comunicado, a PJ não deu detalhes sobre esses dois casos, dizendo apenas que se tratam de “não civis”.
Já o jornal Correio da Manhã, informou que entre os detidos na “Operação Irmandade” há membros de torcidas organizadas de futebol, especialmente da Juventude Leonina (torcida do Sporting de Lisboa) e da Super Dragões (torcida do FC Porto). Uma dessas figuras seria Hugo Carneiro, conhecido como “Polaco”, vice-presidente da Super Dragões.
No comunicado, a PJ também afirma que há suspeitas de que Mário Machado, que foi preso em maio de 2025 por liderar o grupo 1143, continua encabeçando as ações do grupo de dentro da cadeia.
Por essa razão, o presídio de Alcoentre – onde Machado cumpre pena de dois anos e dez meses por discriminação e incitação ao ódio e à violência – foi um dos alvos de busca e apreensão dentro da “Operação Irmandade”, em diligência na qual sua cela foi revistada.
Correspondente de Opera Mundi foi alvo
Além de Machado, outra figura que estaria ligada ao grupo 1143 é Bruno Silva, preso em outubro de 2025 por crimes de incitação ao ódio e à violência, incluindo ameaças de morte que fez contra a jornalista brasileira Stefani Costa, correspondente de Opera Mundi em Lisboa.
Segundo a jornalista, “a comunidade brasileira tem sido um dos principais alvos, assim como imigrantes do sul da Ásia, da África e pessoas de origem cigana”.
No último dia 11 de setembro, 40 dias antes de ser preso, Silva publicou uma mensagem nas redes sociais na qual disse estar “oferecendo um dos meus apartamentos no centro de Lisboa, avaliado em média em 300 mil euros, a quem realizar um massacre e exterminar pelo menos 100 brasileiros em Portugal”. Em seguida, prometeu “um bônus de 100 mil euros a quem me trouxer a cabeça de Stefani Costa”.
Em entrevista a Opera Mundi, o advogado Leonildo Camillo de Souza Júnior, defensor de Stefani Costa, disse que “Portugal hoje deu passos importantes no combate aos crimes de ódio. Neonazismo não é opinião, é crime. Promover ou incentivar qualquer tipo ou forma de violência não é liberdade, é terrorismo. Até o ódio tem limites, e esses limites são impostos pela lei. A tolerância ao ódio não é virtude, é cumplicidade”.

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Relação com o Chega
Stefani também enfatizou que a investigação ao 1143 pode desvendar mais da relação entre o grupo e o líder de extrema direita André Ventura, além do seu partido, o Chega.
“Há diversas declarações públicas de apoio a Ventura e ao Chega por parte de membros do 1143. O Mário Machado, apontado pelas investigações como líder do grupo a partir da prisão, já manifestou esse apoio abertamente. Miguel Arruda, um ex-deputado do Chega e investigado por um roubo no Aeroporto de Lisboa, já demonstrou apoio explícito ao 1143 e chegou a criticar publicamente a prisão de Machado, afirmando ser ‘totalmente contra’ a investigação contra o neonazista”, lembra a correspondente de Opera Mundi.
Nesta domingo, André Ventura disputou o primeiro turno da eleição presidencial em Portugal e ficou em segundo lugar, com 23,5% dos votos, o que lhe valeu uma vaga no segundo turno, que será disputado em 8 de fevereiro, contra o candidato do Partido Socialista, António José Seguro – que obteve 31,1% dos votos nessa primeira votação.
Com informações de Público e Correio da Manhã.
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