Roberto Requião defende frente ampla sem FH e prevê derrubada de Bolsonaro por liberais

28 de dezembro de 2020, 19:57

Nesses dias festivos – mas nem tanto – o senador Roberto Requião sacudiu o meio político com uma carta publicada, a pedido do jornalista Mino Carta, inicialmente na revista Carta Capital. O texto, com uma dose considerável de acidez, repercutiu, tendo sido reproduzido em vários portais de notícias, incluindo o JD. Requião, que governou o estado do Paraná por três vezes, foi senador da República e deixou de ser eleito em 2018 por sua identificação com o PT, numa fase em que o antipetismo grassava (ele atribui) quer a restauração da soberania nacional feita por uma frente ampla que abrace uma pauta com pontos em defesa dos trabalhadores e do Brasil. Para o ex-senador, Bolsonaro será derrubado pelos liberais, que já não suportam o seu estilo de “animador de picadeiro de circo”. Até lá, pretende abrir esse diálogo, com cinco pontos em que todos concordem, para tirar o Brasil do retrocesso. Faz, porém, uma ressalva: Fernando Henrique, “de jeito algum”. Foi o que deixou claro, em conversa com o JD.

JD – O senhor diz em sua carta que os trabalhadores, os deserdados, sumiram dos discursos da esquerda. A que atribui isto?

RR – Eu atribuo ao domínio do capital financeiro sobre a mídia no Brasil. E sobre os políticos que eles financiam. No executivo e no legislativo. O que eu vejo é que de alguma forma eles querem consertar os erros da visão empresarial de estado que eles apoiaram, com o Joaquim Lewi, o Meirelles (Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central), o Marcos Lisboa, aquele da ponte para o futuro (Michel Temer), e tudo isto. E eu vejo que eles estão tentando aperfeiçoar o funcionamento do capitalismo financeiro no Brasil. Esquecem da população. A impressão que eu tenho é que bem ou mal, de uma forma ou de outra, eles estão tentando se propor como capitães do mato a serviço do capital financeiro, controlando a possibilidade da revolta das massas marginalizadas.

JD – Estão tentando barrar a luta de classe?

RR – Estão tentando barrar a luta de classe e estão dizendo: deixem conosco que as políticas compensatórias irão conter a revolta popular, mas vamos nesta linha do liberalismo econômico. A esquerda, principalmente. Eu não estou vendo isto nos discursos da esquerda. Eles esqueceram a luta de classe, esqueceram a miséria, a marginalização, esqueceram completamente. A ponto do Rogério Carvalho, que é o líder do PT no senado, propor a conta vinculada, remunerada, no Banco Central, na banca. E como funciona isto? No fim do dia, eu e você somos banqueiros, e tivemos uma sobra de caixa, porque o nosso juro está muito alto e o mercado não quis. O que é que nós fazemos no dia seguinte, se não houver nenhum mecanismo compensatório? Nós vamos baixar os juros para colocar o dinheiro, do contrário, perdemos. Hoje você pode fazer a operação compromissada. Você negocia com o Banco Central, compra letras do tesouro, que são remuneradas, mas estas letras do tesouro estão sob o título da dívida pública. O PT propôs que se fizesse uma conta remunerada voluntária. No fim do dia, sobrou dinheiro em caixa, os banqueiros e as instituições financeiras já têm pactuado com o Banco Central, uma espécie de juro benéfico a eles. Nos últimos 30 anos são os bancos que nomeiam o Banco Central. Não vamos falar em Lula. Nos últimos 30 anos. Lula inclusive. Então eles, no computador, com um toque, aplicam esse dinheiro num overnight. Quando é uma operação compromissada, que é muito ruim, ainda tem que negociar a letra do tesouro, que tem um prazo de vencimento de dois meses, seis meses, ou um ano, dependendo do interesse, em determinado momento, do estado. O Rogério Carvalho propôs isto e o senado (senador-PT) aprovou.

JD – A que o senhor atribui o sumiço dos trabalhadores no discurso do PT?

RR – A isto. À Adesão ao mercado financeiro e à política da social-democracia tupiniquim. Vinculada aos interesses do capital financeiro. O PT levou o Meirelles, o Joaquim Lewi, para o governo. Mas mesmo com eles o PT teve momentos muito interessantes. Quando o Lula subiu o salário-mínimo, dava para comer três vezes por dia, viajar de avião. Tem um aspecto positivo, mas não na construção do desenvolvimento industrial sustentável.

JD – O senhor reclama da presença de arrivistas e centristas numa suposta frente contra o Bolsonaro. Qual seria, em sua opinião, a frente ideal? Ou não se deve construir uma frente, neste momento?

RR – A questão é que há um movimento, que não é contra o Guedes (Paulo Guedes, ministro da Economia). É contra o mau gosto e à presença ridícula do Bolsonaro nas suas manifestações, nas suas frases, nas suas ideias. Então eu vejo aí o Rodrigo Maia, de repente, encampado pela esquerda… Você veja. O PDT, do Ciro Gomes, quando eles propuseram a venda de 25% das terras brasileiras, no senado, o PT foi contra e o PDT apoiou a urgência da votação. Você sabe o que são 25% das terras brasileiras? Ninguém vai comprar a terra sem minério, a terra improdutiva. Isto dá mais ou menos 50% do território brasileiro. Terras aproveitáveis, porque ninguém vai comprar deserto, areia.

JD – Como seria a feição de uma frente ideal e como se daria a construção desta frente, nesse momento?

RR – O pessoal tinha que sentar e entender o seguinte: nós temos que pensar no Brasil, numa frente que construa um governo de transição. A frente tem que ser ampla, no sentindo de abranger interesses de 70 a 80% da população. Diferente do que se tem que fazer no Congresso, hoje, que tem um universo limitado de votos. Lá não tem saída. Lá você tem que fazer uma frente para diminuir danos. A frente política é uma frente para ganhar a eleição e mudar o Brasil. Esta frente tem que ser uma frente ampla que não incorpore o capital financeiro. Não pode incorporar o Guedes, o Rodrigo Maia, ela tem que ter um projeto de restauração da soberania nacional, criação de emprego e respeito ao trabalho. As garantias das leis trabalhistas têm que ser restabelecidas. Enfim, elaborar isto com clareza, mas não a proposta do Ciro Gomes, de criar uma caderneta de poupança para os mais ricos.

JD – Se formos falar em siglas, quais estariam compondo esta frente?

RR – Não. Eu não vou falar em siglas. Eu não quero excluir nem colocar siglas importantes. É em torno das principais lideranças nacionais.

JD – E se formos falar em nomes? Incluiria o Fernando Henrique, por exemplo?

RR – Não. De jeito algum. Eu acho que tem algumas pessoas que podem ser perdoadas, mas aplicando o código canônico. Em primeiro lugar o arrependimento, em segundo lugar a confissão e em terceiro lugar a penitência. Então o perdão. E temos que acabar com esta história também de dizer que todo cara que votou no Bolsonaro é um minion. Esses caras votaram no Fernando Henrique, votaram no Lula, esses caras vêm decepcionados com os governos e com o comportamento da política, e tentaram mudar. São os mesmos. Temos é que apresentar um projeto que inclua 70 ou 80% do Brasil. Pequenos empresários, enfim… A Globo baseou esta desmoralização da política no que foi acontecendo. Por exemplo, o funcionalismo público em cima dos pequenos e médios empresários arrasando todo mundo, exigindo comissão… É um dado do Brasil. Eu fui governador três vezes e eu sei como é isto. Então, essas coisas têm que ser contempladas. Outra coisa: a recuperação da soberania, emprego, democratização da Comunicação, é por aí. O que não dá é para pensar que você vai montar uma frente com o PT lá, apoiando a independência do Banco Central, que é dominado pela banca há trinta anos.

JD – Como colocar, por exemplo, o Ciro Gomes, sentadinho para conversar com o PT e o Psol?

RR – O que eu fiz, de uma forma um pouco ácida, foi uma tentativa. A maneira fácil de não convencer é entrar na briga do desaforo pessoal. Veja, eu conversei com a Marina. A Marina na formulação e na pactuação ecológica é muito boa, embora ela tenha aderido à política do Itaú, mas ela tem uma visão ecológica interessante.

JD – Mas o senhor acha possível a Marina passar por cima do ressentimento que ela demonstra?

RR – Eu espero que sim. Eu gosto muito dela. É minha amiga. O Ciro também ataca o PT. Enfim, o que eu estou defendendo é uma frente ampla, em cima de uma proposta clara, transitória. Restabelece-se a democracia, restabelece-se a cidadania e o direito ao trabalho. E agora a questão da saúde, que tem que ser resolvida de qualquer maneira.

JD – Este perfil de frente que o senhor está desenhando abrange um pouco a centro-esquerda. Que modelo ela teria?

RR – Não estou preocupado em denominações. Eu ainda pensei em colocar na carta: frente de esquerda, frente das oposições… Ora, eu defendo quem defende o trabalhador e o coloca na frente de tudo. Eu acho que um projeto das oposições tem que ser isto, a restauração da soberania. Veja, como os Estados Unidos saíram da independência? O Alexander Hamilton (o primeiro Secretário do Tesouro dos Estados Unidos), fez o tratado das manufaturas. Foi a defesa absoluta da economia interna americana. E nós estamos ridiculamente praticando um liberalismo econômico muito ruim do ponto de vista da política externa e da economia, mas pior ainda quando ele se coloca como liberal diante dos outros países.

JD – O senhor está há muitos anos no MDB. Já pensou em trocar de partido? O senhor tem posições distintas do seu partido.

RR – Você está me propondo que eu vá para o partido do Rogério Carvalho? (Rsrsr). Para propor a conta vinculada automática, no Banco Central? Eu sou fundador do MDB no Paraná. Sou o filiado número 1, mas não tenho amor por nenhum partido. Se é um credo, eu não sou devoto. Eu aprecio a política compensatória do PT, a política externa, com o Celso Amorim, mas não sou devoto. Pessoalmente sou amigo do Lula e da Dilma, mas não concordo em sacralizar os erros.

JD – A minha observação é quanto à sua diferença com relação, por exemplo, a um Michel Temer.

RR – E o que é um Rogério Carvalho, um Fernando Haddad, que trabalha com o Marcos Lisboa?

JD – Eu não estou sugerindo que o senhor troque, mas observo que as suas posições se chocam com as orientações do seu partido…

RR – Eu não estou nem aí. O partido que eu entrei era o partido das classes populares. Desligado das decisões do grande capital, e que se suportava naquele documento: “Esperança e Mudança”. (Esperança e mudança foi um documento elaborado por intelectuais desenvolvimentistas e apresentado pelo PMDB, então uma frente de oposições. Era a expressão de um setor da sociedade que desejava fortalecer o caráter planejador do Estado como forma de superação da crise econômica em setembro de 1982, nos estertores da ditadura – 1964/1985). Este é um documento que deveria ser levado em conta, hoje, com a devida redução sociológica, como faria o Guerreiro Ramos.

JD – Mas esse mesmo partido golpeou o PT, tirou a Dilma da presidência… O senhor não se sente desconfortável nesse partido?

RR – Eu me sinto desligado do partido, hoje, esperando que talvez, mais tarde, surja uma mobilização de base que altere isto tudo. Como é que eu vou mudar, hoje, para o PT? Eu defendia o PT e perdi o meu mandato por isto. Eu seria o senador, conforme anunciado pelo Ibope, mais votado do Brasil e não fui eleito. Você quer que eu entre no partido do Palocci ou do Joaquim Lewi?

JD – Isto não é uma cobrança, é apenas uma pergunta…

RR – Sim, e eu estou respondendo que não vejo grandes diferenças nisto. Como é que eu posso considerar entrar no PT, com o Rogério Carvalho propondo a conta remunerada voluntária, de transações financeiras, no Banco Central?

JD – O senhor considera melhor, então, manter uma postura coerente?

RR – Eu acho mais coerente fazer política pelo país. Só não tenho nada a ver com o Baleia Rossi ou esta gente toda. Nem conheço esta gente, direito…

JD – O senhor cita, na sua carta, Nelson Rodrigues, quando ele diz aos jovens: “envelheçam”. A experiência virou um peso no cenário político? Nas eleições municipais ficou patente que os outsiders não foram bem aceitos. Como vê isto?

RR – Há uma mudança.. Como o pessoal que votou no Fernando Henrique, que votou no Collor. Há uma decepção. E existe uma base fundamentalista ligada às igrejas pentecostais. Eu estou achando que no momento nós estamos precisando é de uma unidade a favor do Brasil. Um candidato em cima desta proposta. Quem tiver posição eleitoral. Às vezes me perguntam: você vota no Lula? Eu respondo que não. Eu voto é num programa. Eu quero uma coisa mais consistente e ele é capaz disto. O Lula que foi preso saiu completamente diferente da cadeia.

JD – O senhor apoiaria uma candidatura Lula?

RR – Com um programa, sim.

JD – Qual é o papel do Rodrigo Maia, na cena política atual?

RR – O de operador do capital financeiro. Ele não quer chegar a lugar nenhum. Ele fez 400 votos para a prefeitura do Rio. Ele é um operador.

JD – Esta manobra dele, com esse bloco. Como o senhor está vendo isto?

RR – Fisiologismo puro e absoluto. Empregos, negociação e prestígio. Mas é mais em espécie, mesmo. Emendas para a sua base eleitoral, carguinhos…

JD – O que aconteceria se o PT lançasse uma candidatura própria, para a Câmara?

RR – No momento seria uma besteira. Para quê? Marcar posição? Nós precisamos é somar e fazer o que pode ser um governo de transição e marcharmos todos juntos.

JD – Qual seria a saída para ganharmos a Câmara?

RR – Esse bloco tinha que estabelecer um compromisso em torno de um candidato, de preferência, do ponto de vista simbólico, que não seja o do Bolsonaro. Eu digo simbólico, porque nada pior que o Bolsonaro no Brasil. Mas fazer um compromisso por escrito com alguns princípios, como segurar a privatização, não permitir mais venda direta, como o Supremo (STF) calhordamente permitiu. Você divide a empresa, cria subsidiárias e vende as subsidiárias, destruindo o patrimônio da empresa criada por lei. Tinha que haver um acordo. Compromissos claros e assinado pelo candidato. Não precisava nem vir a público. Nem se me dá quem é o candidato. O que eu quero é que se paralise a destruição do país. Você vai se alinhar com uma proposta. Se não, não vota. A Câmara é um ambiente fechado. Tem que ter acordo. A frente ampla, não. A frente ampla é para reconquistar o Brasil.

JD – O governo pagou a última parcela do auxílio emergencial neste mês. O que o senhor espera para 2021, sem o auxílio emergencial?

RR – Revolta da população, assalto a bens e fazendas, o povo desesperado, sem uma direção, como tem o MST, que acabou com a violência no campo. O MST organiza o desespero, reivindica dos estados e da União, tem alguns ganhos e transforma esta mobilização em resultados.

JD – Há o risco de traição desse compromisso estabelecido por esse bloco, por parte do Baleia Rossi?

RR – Eu nunca vi o Baleia Rossi tomar uma opinião sobre economia, sobre o processo civilizatório brasileiro, nunca vi nada. Ele é um aspone do Michel. Não conheço um posicionamento dele a respeito de alguma coisa.

JD – O Bolsonaro corre algum risco de perder o cargo?

RR – Eu vejo o Bolsonaro afastado pelos liberais, que não o suportam pelos seus modos, pelas besteiras que ele diz. O Bolsonaro é um animador de picadeiro de circo. Ele estava pronto para ser afastado. O Maia ia continuar presidente da Câmara. O TSE já tinha anunciado que iria julgar a chapa Mourão/Bolsonaro. Tiravam o Bolsonaro e o Maia assumia a serviço dos bancos, da ponte para o futuro e dos interesses geopolíticos norte-americanos. Eles tinham oito ministros no STF para aceitar a reeleição do Maia e do Alcolumbre, mas batemos tanto que os ministros se assustaram e não votaram. Virá um impeachment, um julgamento qualquer desses daí. O Bolsonaro não interessa para mais ninguém. Vejo pessoas dizendo que ele vai se reeleger. Vai nada.

Escrito por:

Jornalista. Passou pelos principais veículos, tais como: O Globo; Jornal do Brasil; Veja; Isto É e o Dia. Ex-assessora-pesquisadora da Comissão Nacional da Verdade e CEV-Rio, autora de "Propaganda e cinema a serviço do golpe - 1962/1964" e "Imaculada", membro do Jornalistas pela Democracia

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