Guadalupe Rodríguez, moradora do bairro 23 de Janeiro, reduto da Revolução Bolivariana e berço da resistência chavista Foto: Stefani Costa

Será o último Natal de Caracas antes da guerra?

24 de dezembro de 2025, 12:34

O bloqueio naval contra a Venezuela e a classificação do governo de Nicolás Maduro como “Estado patrocinador do terrorismo”, foram suficientes para gerar apreensão nos principais meios de comunicação. Mas, o que a reportagem de Opera Mundi tem presenciado nestes últimos dias em Caracas é o ‘tiro’ saindo pela culatra. Diante do ambiente natalino, as ameaças dos Estados Unidos serviram somente para fortalecer a união de um povo que, mesmo diante das diferenças políticas, opôs-se à guerra.

A frustração de quem esperava por uma invasão foi quase palpável. Ao desembarcar horas antes da possível declaração de guerra de Donald Trump contra o país, passamos por um evento organizado por trabalhadores, que também contou com a presença do presidente Nicolás Maduro. Com uma cópia da Constituição nas mãos e ao lado de vários ministros, o chefe de Estado da nação bolivariana foi recebido de forma calorosa, aos gritos de “No war, Yes peace! (Guerra não, paz sim)”.

Mesmo que o ataque militar não tenha se concretizado, as pessoas afirmam estar preparadas para resistir, pois, como dizia o poeta brasileiro Marcelo Yuka, “paz sem voz, não é paz, é medo”. E foi nesse clima que Opera Mundi conversou com Guadalupe Rodríguez, moradora do emblemático bairro 23 de Janeiro, reduto da Revolução Bolivariana e berço da resistência chavista. Militante na Coordenadora Simón Bolívar — uma coalizão de esquerda formada por partidos políticos e movimentos sociais —, Rodríguez não acredita que haverá uma invasão imediata.

Guadalupe Rodríguez, moradora do bairro 23 de Janeiro, reduto da Revolução Bolivariana e berço da resistência chavista
Stefani Costa

Segundo ela, estamos falando de um povo que possui exemplos e referências sobre os males que o imperialismo estadunidense provocou em outros países da América Latina e do Caribe. “Somos amantes da paz. Uma intervenção seria lamentável, pois o povo não quer retroceder. Vão continuar defendendo a revolução em que são protagonistas. Pela minha voz, fala uma quarta geração deste bairro que continua lutando”.

Sobre a narrativa difundida principalmente por países ocidentais, que caracterizam o governo Maduro como uma ditadura violadora dos direitos humanos, Rodríguez argumenta que se trata de um formato para justificar e criar “falsos positivos”. O objetivo, segundo ela, seria o de alegar uma intervenção que “salve o povo da Venezuela” dos supostos “monstros que a governam” — estratégia que já foi aplicada em outros países, como Cuba. “É por isso que o governo tem sim que se blindar militarmente”.

Entre a cruz e a Kalashnikov

Nem mesmo as notícias sobre os navios petroleiros sequestrados e os ataques letais contra embarcações no mar do Caribe foram capazes de apagar as luzes natalinas que iluminavam Caracas. Ainda no bairro 23 de Janeiro, um senhor de barba branca, sentado à sombra, chamou para uma conversa. Não era o Papai Noel, mas parecia Jesus Cristo. Está a par de tudo que acontece no bairro. No seu telefone, mostra algumas fotos empunhando sua kalashnikov. Aos 62 anos, diz estar preparado para o que for preciso. “Se houver uma invasão, isso aqui vai pegar fogo”.

Desde que Hugo Chávez ascendeu ao poder, os movimentos que sustentavam a luta armada naquela região agora administram espaços culturais, farmácias populares, postos de saúde, padarias e escolas. Na Coordenadora Simón Bolívar, um antigo quartel da polícia que hoje abriga a rádio comunitária mais ouvida da capital, os moradores também contam com o serviço de medicina veterinária. Foi lá que encontramos José Villarobel, um homem prestes a completar 80 anos, que dedicou sua vida em defesa da pátria. “Eu tinha 15 anos quando me incorporei ao processo revolucionário. Estive na guerrilha rural, desci e continuei aqui na cidade até isso acabar e entramos novamente na luta legalizada”, recorda.

Ex-guerrilheiro José Villarobel na rádio da Coordenadora Simón Bolívar

José está convencido de que não haverá uma invasão, pelo menos por enquanto. “Muita gente aqui está só esperando que eles entrem, mas eu não acredito que vão fazer isso agora”, disse. “Eles estão à espera que surja um problema aqui para justificar uma intervenção. No entanto, a oposição é muito fraca e não tem como provocar distúrbios no país”, afirma. No alto de sua experiência, o ex-guerrilheiro acredita que a solidariedade entre os países da América Latina é fundamental para o atual contexto, porque a força coletiva evita o isolamento. Ao citar a vitória do Vietnã contra o exército estadunidense, ele lembrou que a união dos povos no mundo foi decisiva aos vietnamitas.

Muitos, como ele, cresceram em suas comunidades e participaram de lutas, permanecendo no mesmo bairro onde começaram as suas trajetórias. Sendo assim, Villarobel confessa: “há uma geração que não está preocupada com a política. Digo isso porque tenho um neto de 14 anos que dorme e acorda com o celular nas mãos. Existem muitos jovens que não sabem quem foi [Hugo] Chávez, e isso é preocupante”. José está convicto de que, diante de uma grave crise na Venezuela, muitos – inclusive ele próprio – estariam dispostos a pegar em armas novamente para, se necessário, “dar uma surra nos gringos”.

“Venceremos!”

No bairro de Petare, em Gran Sucre, na grande Caracas, conhecemos Yrina Mejías, liderança da União Comunera, uma cooperativa popular localizada na maior favela da América Latina. Baseada na democracia participativa e do autogoverno, o movimento foi uma das conquistas do processo de transformação do país que teve início em 1999, com a chegada de Hugo Chávez à Presidência.

“É por isso que, para os Estados Unidos, não convém que sejamos uma referência em democracia, especialmente sendo um país com muitos recursos e com uma população cheia de talento, riqueza e cultura”, afirma Yrina, ao dizer que é por esse motivo que o imperialismo vem tentando impor uma opinião pública no mundo sobre o tema do narcotráfico. E reforça: “na verdade, o que se sobressai em nosso país é a possibilidade de caminharmos livremente pelas nossas ruas”.

Para ela, a luta tem sido importante na manutenção do processo bolivariano que deu início ao governo chavista. De acordo com Yrina, essa relevância se amplia hoje sob a liderança do presidente Nicolás Maduro, pois o trabalho ao lado do povo, e com o povo, tem sido permanente graças às consultas populares lideradas por Ángel Prado, ministro das Comunas e Movimentos Sociais da Venezuela.

“A força de combate tem sido a comunicação, que se fortalece e que também desmente narrativas falsas que circulam lá fora”. Para Yrina, manter uma comunidade unida e comunicativa é um método “verdadeiramente extraordinário” pelo seu poder de empoderar as pessoas que constroem o dia a dia local. “Isso nos ajudou a priorizar as necessidades do nosso território. Dessa forma, o governo respondeu e financiou nossos projetos, fortalecendo ainda mais as nossas comunidades, os setores populares e tudo mais”, explica.

Na outra ponta da cidade, Guadalupe Rodríguez faz um tributo às mulheres que enfrentaram a fome, em tempos de supermercados vazios. Ela explica que a força feminina tem sido fundamental na liderança de novas organizações comunitárias e na elaboração de políticas sociais, principalmente quando o objetivo é enfrentar os desafios de fortalecer o bairro e prestar segurança à comunidade. “Claro que temos vergonha desse momento. Foi um bloqueio criminoso que eles tentaram impor para nos fazer ajoelhar, mas não conseguiram”, disse, listando os nomes das mulheres que participaram da entrega de alimentos naquele período.

“Povo venezuelano, assim como presidente Nicolás Maduro, resistiu”, diz Yrina Mejías 
Yrina Mejías/Arquivo pessoal

A respeito da classificação como “Estado terrorista” pelo governo Donald Trump, Yrina rebate: “isso é totalmente falso!”. Somos um país alegre, de um povo digno que sai todos os dias para trabalhar, estudar, praticar esportes e ajudar o próximo”. A líder comunitária não crê numa invasão imediata, muito menos que Maduro abandone o país. Ela afirma que, neste momento, a Força Armada Nacional Bolivariana, os corpos de segurança e o povo organizado nas periferias, através da articulação cívica, militar e policial, têm enfrentado e combatido essas ameaças.

“O povo venezuelano, assim como nosso presidente Nicolás Maduro, resistiu. E o mérito é das nossas comunas, do nosso território. Agora saímos quase todos os dias às ruas em grandes mobilizações com ele ao nosso lado, porque não vamos abaixar a cabeça para o império, não vamos deixar que os Estados Unidos nos dominem. Eles não são os donos do mundo. Acredito que temos vontade de sobra para manter a paz que nós queremos”, reforça enquanto, ao fundo, alguém crava um grito cortante: “venceremos!”.

Escrito por:

Radicada em Lisboa, é jornalista correspondente de Opera Mundi e escreve em veículos como Jacobin Brasil, Jornal Expresso e Rádio TSF Portugal. Atuou em redações como Revista Brasil Já e Sapo Mag, além de contribuir para diversos meios, entre eles Brasil de Fato, ICL Notícias, Brasil 247, DCM, Correio Braziliense e Rádio Bandeirantes. Cobriu conflitos como as guerras da Ucrânia e do Líbano, as eleições presidenciais na Rússia, as eleições judiciais no México e a Cúpula do Brics, em Kazan e no Rio. Seus principais focos são guerras, conflitos, direitos humanos, migrações, habitação, política e cultura.

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