Um lugar para Oscar
Encontrei Oscar Niemeyer meio sorumbático, bebericando café na livraria Platô, na Asa Sul, e já imaginava a razão. Bravo defensor de suas ideias, sobre arquitetura ou justiça social, mas sempre avesso a polêmicas, o arquiteto viu-se envolvido numa bronca com a cara dele. Aliás, cara e corpo, numa estátua que quiseram plantar na recém-reformada Casa de Chá da Praça dos Três Poderes.
Amantes da arte e do projeto original de Brasília não gostaram da invenção. Especialistas criticaram a ideia de botar uma figurinha na praça, chamando atenção dos passantes e fazendo da arquitetura planejada da capital um pano de fundo para selfies com o personagem. Os encarregados de zelar pelo patrimônio avisaram que o tombamento do local impede Niemeyer de ficar ali.
Niemeyer, mesmo zeloso dos espaços vazios abertos a grandes manifestações populares dentro do harmônico e simbólico equilíbrio entre os prédios dos Três Poderes, incorporou obras de arte até na praça, onde se abraçam os gigantescos Dois Candangos de Bruno Giorgi. Ele mesmo criou novidades como o Panteão dedicado a Tancredo Neves, com sua tocha monumental.
“Mas… uma estátua, como as que andam espalhando pelo Rio?”, resmungou Oscar, enquanto saía, comigo, da livraria. “Pelo menos, não uso óculos; não tem risco de me roubarem e deixarem cegueta, como fazem a toda hora com o pobre Drummond, em Copacabana”, comentou. “Ou o Noel Rosa, coitado, de quem roubaram uma garrafa, e até o próprio poeta; ninguém sabe onde foi parar”.
Ainda por cima, resmungou, o estilo naturalista da homenagem não dialoga com o modernismo que sempre prezou nos artistas que colaboram em suas edificações, como o próprio Bruno Giorgi, Alfredo Cheschiatti, Portinari, Athos Bulcão, Volpi…
Como a escultura já foi comprada pelo governo, Niemeyer parece não se opor a que coloquem a peça em algum outro lugar. Onde ele pudesse, por exemplo, ver o povo trabalhador de Brasília. “O que exclui um e outro gabinete aqui na capital”, acrescenta, com um sorriso maroto.
Cogitou homenagear a Ceilândia, cuja criação ele sempre criticou, escandalizado, por ter representado, com outras cidades satélites, a expulsão de moradores de baixa renda para longe do centro, sem transporte e serviços públicos organizados.
“Soube que agora tem por lá muita efervescência cultural, até artista plástico de fama internacional”, comentou, sorrindo. “Quem sabe, eu teria muito a dizer para esse povo, em suas batalhas do dia a dia”, murmurou, pensando em revoluções.
Outro lugar bacana, para Niemeyer seria a movimentada rodoviária. Ele, aliás, em 2009, perdeu uma batalha contra o tombamento de Brasília, ao propor um novo monumento, a “praça da soberania”, ao lado dessa obra de Lúcio Costa. “As cidades crescem; é difícil manter os planos originais”, argumenta o arquiteto.
“Mas, se querem me homenagear mesmo, acrescentem na estátua uma bandeira de protesto, pela melhor distribuição de renda no país”, sugere o velho comunista, que sempre levantou essa bandeira em aparições públicas. “E por que não distribuir muitas estátuas minhas, mas acompanhadas de mais veículos de transporte público que facilitem a vida dos sofridos trabalhadores da capital?”
Artigo publicado no Correio Braziliense