Um Moreira Salles não pode aplaudir um Mamãe Falei

13 de setembro de 2021, 18:14

É constrangedor para alguém com sobrenome Moreira Salles ficar à sombra de um trio elétrico, num domingo à tarde, ouvindo discursos do que existe de pior entre os dissidentes do bolsonarismo.

Aconteceu domingo na Avenida Paulista, quando o jovem Antonio Moreira Salles, filho do presidente do conselho de administração do Itaú, Pedro Moreira Salles, erguia a cabeça para ouvir quem falava na carroceria do caminhão.

Enxergava Janaína Paschoal, Kim Kataguiri, Joice Hasselmann, João Doria, Tabata Amaral, Mamãe Falei.

Os dissidentes do bolsonarismo, dessa frente retardatária pelo impeachment de Bolsonaro, não merecem falar para um Moreira Salles.

O avô de Antonio, o banqueiro Walter Moreira Salles, conviveu com figuras que em algum momento abandonaram a ditadura e aderiram ao discurso e às ações da oposição perseguida, presa, torturada e morta por ordens dos militares.

Os dissidentes se chamavam Teotônio Vilela, Paulo Brossard, Severo Gomes, Magalhães Pinto, Synval Guazzelli. É uma comparação devastadora com a turma da Paulista que insultava Lula.

Imaginem qualquer aglomeração, quando a ditadura já definhava, que reunisse Ulysses, Brizola, Dom Paulo, Covas e Lula e exibisse, de surpresa, no meio do público, uma faixa com insultos a Teotônio.

Até porque a situação era inversa. Na ditadura, a oposição abriu o caminho para a redemocratização, e ex-aliados dos militares aderiram bravamente à luta dos sobreviventes.

Desta vez, foram os grupos de direita e de extrema direita que tentaram atrair os que desde o começo enfrentam o fascismo da base de Bolsonaro.

Nenhum direitista tem autoridade e reputação para assumir a condução de um gesto desse tamanho.

Os articuladores da pretendida ‘convergência’ do domingo não eram apenas ex-apoiadores de Bolsonaro, eram formuladores e operadores da linha de atuação da direita extremada.

O fracasso de domingo é explicado por essa precariedade política. É baixo o nível dos que se dispõem a ressuscitar a direita brasileira e viabilizar a terceira via.

Mesmo assim, estão certos os que não esnobam os dissidentes, ou Bolsonaro continuaria com suas bases quase intactas.

Mas não é com Janaína Paschoal que Lula deve compartilhar os mesmos espaços e buscar consensos. Há outros, muitos outros, que devem aparecer nas manifestações de 2 de outubro.

Um Moreira Salles deve estar presente nessa manifestação dos democratas. Será a chance de reparar o erro de ter ido a um evento em que Joice Hasselmann era uma das estrelas. O neto do banqueiro merece melhores companhias.

O avô dele, o fundador do Unibanco, prestou grandes serviços à República sob as ordens de Getúlio e de Jango. Tinha compromissos com a democracia, a arte, a aceitação dos diferentes e a informação e com os que acendiam luzes pelas liberdades.

São compromissos que os tios de Antonio, o cineasta Walter Moreira Salles Júnior e o jornalista e documentarista João Moreira Salles, ainda levam adiante como raros exemplos no país em que os herdeiros das elites são ogros ostensivos do bolsonarismo.

Um Moreira Salles não poderia nunca aplaudir um Mamãe Falei. Antonio sabe que nenhum dos dissidentes do bolsonarismo que estavam na Paulista seria capaz de manter, por dois minutos, uma conversa com Santiago.

Santiago foi o mordomo dos Moreira Salles. É o personagem de um documentário com o seu nome, dirigido por João, uma das coisas mais belas e emocionantes já produzidas pelo cinema brasileiro.

Santiago Badariotti Merlo diria a Antonio para não andar com essas facções da extrema direita que estavam domingo na Paulista.

Escrito por:

Moisés Mendes é jornalista de Porto Alegre e escreve no blogdomoisesmendes. É autor de ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim). Foi editor de economia, editor especial e colunista de Zero Hora.

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