Marcelo Queiroga e Jair Bolsonaro (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

Um sabujo com diploma de médico

7 de outubro de 2021, 19:44

A sigla Conitec abriga um nome sonoro e solene: Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde.

É um importante instrumento de consultas do ministério encabeçado pelo doutor Marcelo Queiroga.

O coordenador da Conitec se chama Carlos Carvalho, um pneumologista dono de um currículo respeitável. Atendendo a um convite do doutor Marcelo Queiroga, em março passado, aceitou estar à frente da comissão e coordenar a elaboração, por um grupo de vinte especialistas de alto calibre, de protocolos médicos de combate à pandemia de Covid 19.

Ao longo dos últimos três meses os integrantes da Conitec se reuniram toda semana para elaborar o relatório que deveria ser entregue ao ministério. Bem: o relatório ficou pronto, e estava prevista sua apresentação ao doutor Queiroga nesta quinta-feira, sete de outubro.

E aí, a surpresa: na noite anterior o ministro suspendeu a reunião. Segundo ele, a pedido do coordenador da Conitec, que pretendia examinar novos estudos divulgados recentemente.

Só que os médicos e especialistas que integram o grupo não ficaram sabendo de nada. Sabiam, isso sim, que o relatório advertia que o tal “kit covid” que Jair Messias defende com obsessão enfermiça não deve ser utilizado pela rede privada de saúde, e muito menos pela pública. Foi o resultado do exame de dez medicamentos que andam sendo usados por aí.

O doutor Carlos Carvalho explicou que realmente pediu o adiamento para revisar o relatório já pronto para incluir estudos mais recentes, divulgados agora no finalzinho de setembro. 

Explicou que nada irá mudar em relação ao famigerado “kit covid”. Não explicou a razão de não ter informado aos integrantes do grupo sobre o pedido de adiamento.

Até aí, como se dizia no meu tempo, está tudo muito bom, tudo muito bem. Há, porém, um detalhe decisivo nesse enrosco: Jair Messias ficou sabendo do conteúdo do relatório e teve um ataque de nervos (outro). Chamou o doutor Queiroga e deu-lhe uma espinafrada contundente.

Logo agora, faltando pouco para a CPI do Genocídio entregar seu relatório final, vem um documento assinado por cientistas desdizendo o que Jair Messias vem dizendo obsessivamente há um ano e meio?

Resultado: entrega do relatório adiada, e um clima mais que tenso baixando na comissão. Os integrantes da Conitec já advertiram: se o relatório for alterado, por mais mínima que seja a alteração, suas assinaturas serão retiradas.

Não é preciso pensar muito para chegar à conclusão de que o relatório que seria apresentado ao ministro Queiroga será vazado rapidinho para a imprensa. Mas para ele talvez o que mais importa não seja o relatório, o Conitec ou o que for. O que importa é cumprir rigorosamente o que manda Jair Messias. Seu próprio diploma médico que vá às favas.

Escrito por:

Eric Nepomuceno é jornalista e escritor

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